A agenda econômica de Lula Superada a eleição, agora é o trabalho real que tem que aparecer.
Por Gustavo de Oliveira5 min de leitura

Encerrada a eleição, o próximo mandato de Lula será colocado à prova pela capacidade de enfrentar problemas que vêm sendo adiados há anos. Entre eles, o desequilíbrio das contas públicas, o crescimento da dívida e o custo do dinheiro.
São questões que chegam à vida das pessoas pelo financiamento da casa, pelo capital de giro das empresas e pelo crédito para produzir. Quando o investimento fica caro e o futuro se torna incerto, projetos são adiados e oportunidades de emprego deixam de surgir.
Com a dívida bruta do governo em 82,9% do PIB em setembro, o Brasil precisa apresentar um caminho convincente para estabilizar essa relação e, depois, reduzi-la. Isso exige decisões sobre despesas, receitas e qualidade das políticas públicas.
O primeiro compromisso deve ser conter o crescimento das despesas e avaliar o que o Estado entrega com o dinheiro arrecadado. Programas precisam ter objetivos claros, indicadores e revisão periódica. Subsídios e benefícios tributários também devem demonstrar que o retorno para a sociedade justifica seu custo.
A proteção dos mais vulneráveis deve orientar essas escolhas. Desperdício, privilégios e políticas ineficazes consomem recursos que poderiam melhorar o atendimento de saúde, a aprendizagem nas escolas e a infraestrutura.
A Previdência precisa acompanhar o envelhecimento da população. Uma nova rodada de ajustes deve combinar sustentabilidade, regras de transição, respeito aos direitos adquiridos e revisão de tratamentos privilegiados. Adiar essa discussão transfere uma conta crescente para os trabalhadores mais jovens.
A reforma administrativa deve melhorar o funcionamento do serviço público: simplificar carreiras, avaliar desempenho, investir em gestão e tecnologia, combater supersalários e valorizar os profissionais que entregam bons resultados. Seu alcance precisa incluir todos os Poderes.
Também é necessário rever vinculações e indexações que tornam parte das despesas automática e comprimem o espaço para outras prioridades. Dar flexibilidade ao orçamento exige preservar o financiamento dos serviços essenciais e aumentar a transparência sobre cada escolha.
Uma reforma fundamental a médio e longo prazo, a meu ver, seria deixar de vincular o crescimento da despesa ao aumento da arrecadação pública. Este modelo, atualmente em vigor, força o poder público a buscar mais receita, o que em geral vem pelo caminho fácil: aumento de impostos. Vincular o aumento da despesa ao aumento real do PIB por uma década pode mudar completamente nosso sistema de incentivos: fazer o país crescer seria uma obsessão também do setor público.
Essa agenda precisa vir acompanhada de metas fiscais críveis e resultados suficientes para estabilizar a dívida. Zerar o déficit antes dos juros pode ser insuficiente quando o custo do endividamento supera o crescimento da economia. A IFI tem insistido na necessidade de produzir superávits primários, melhorar o gasto e recuperar espaço para investimentos. Uma temporada com uma desvinculação de receitas, como a DRU que existiu nos anos 1990, pode ser a chave para uma transição sem colapso.
É nesse contexto que ganhou destaque a proposta de André Lara Resende para reduzir os juros.
Um dos formuladores do Plano Real, o economista defende uma mudança no regime fiscal e monetário. Sua proposta prevê levar a Selic para perto de 7,5% ao ano ao longo de aproximadamente 12 meses, dentro de uma coordenação que incluiria metas fiscais, metas de inflação e limites para a taxa básica. Também contempla intervenções com reservas internacionais para suavizar pressões cambiais.
Há um ponto relevante em seu diagnóstico: juros elevados pesam sobre a dívida e sobre a atividade econômica. Esse custo merece discussão séria.
Minha preocupação está na confiança depositada em uma trajetória de cortes previamente fixada. Ao falar no risco de juros “por decreto”, refiro-me à possibilidade de um compromisso administrativo com determinada taxa prevalecer sobre a evolução da inflação, das expectativas e das contas públicas.
O Banco Central consegue determinar a taxa básica de curto prazo. Sua decisão, porém, não garante que o custo dos financiamentos longos acompanhe a queda. Se investidores perceberem mais risco de inflação ou de desequilíbrio fiscal, poderão exigir remuneração maior para emprestar por vários anos.
Uma redução precipitada pode pressionar o câmbio, encarecer produtos e insumos importados e dificultar o controle dos preços. Nessa situação, parte da economia esperada com os juros pode ser corroída pela perda de confiança.
A experiência da Turquia oferece um alerta.
Entre setembro de 2021 e novembro de 2022, a taxa básica turca caiu de 19% para 9%, apesar da inflação elevada. Em outubro de 2022, a inflação anual chegou a cerca de 85%. O FMI relaciona a escalada dos preços à política monetária excessivamente frouxa, à desvalorização da moeda e à deterioração das expectativas, além dos choques internacionais.
A tentativa de sustentar juros baixos teve consequências nefastas para o poder de compra. Posteriormente, a política precisou mudar de direção: em março de 2024, o banco central turco elevou sua taxa básica para 50% ao ano.
Os desenhos turco e brasileiro são diferentes. A comparação serve como advertência sobre cortes incompatíveis com as condições da economia. Seu alcance vai além do déficit público: envolve coerência entre política fiscal, controle da inflação e credibilidade monetária.
Para o Brasil, reduzir juros de maneira duradoura exige construir essas condições. Ajustar as contas públicas ajuda nesse processo, ao lado da autonomia técnica do Banco Central, da melhora da produtividade e de um ambiente favorável ao investimento.
Em Mato Grosso, essa discussão tem consequências concretas. A safra depende de financiamento; o comércio precisa de capital de giro; a indústria demanda recursos para ampliar capacidade. Empresas e famílias ganham quando conseguem planejar com estabilidade e acesso sustentável ao crédito.
Lula terá de liderar essa agenda e construir apoio no Congresso. As decisões difíceis precisam começar pelos privilégios, pelos desperdícios e pelas regras que perpetuam despesas sem avaliação de resultados.
O legado econômico do próximo mandato dependerá da disposição de enfrentar essas escolhas. Juros menores, serviços públicos melhores e crescimento sustentável precisam ser construídos com reformas, responsabilidade e confiança.
Gustavo de Oliveira é engenheiro, empresário, comentarista de Economia e Negócios na Rede Mato-grossense de Televisão (TVCA) e palestrante em assuntos sobre economia, negócios e inovação
São questões que chegam à vida das pessoas pelo financiamento da casa, pelo capital de giro das empresas e pelo crédito para produzir. Quando o investimento fica caro e o futuro se torna incerto, projetos são adiados e oportunidades de emprego deixam de surgir.
Com a dívida bruta do governo em 82,9% do PIB em setembro, o Brasil precisa apresentar um caminho convincente para estabilizar essa relação e, depois, reduzi-la. Isso exige decisões sobre despesas, receitas e qualidade das políticas públicas.
O primeiro compromisso deve ser conter o crescimento das despesas e avaliar o que o Estado entrega com o dinheiro arrecadado. Programas precisam ter objetivos claros, indicadores e revisão periódica. Subsídios e benefícios tributários também devem demonstrar que o retorno para a sociedade justifica seu custo.
A proteção dos mais vulneráveis deve orientar essas escolhas. Desperdício, privilégios e políticas ineficazes consomem recursos que poderiam melhorar o atendimento de saúde, a aprendizagem nas escolas e a infraestrutura.
A Previdência precisa acompanhar o envelhecimento da população. Uma nova rodada de ajustes deve combinar sustentabilidade, regras de transição, respeito aos direitos adquiridos e revisão de tratamentos privilegiados. Adiar essa discussão transfere uma conta crescente para os trabalhadores mais jovens.
A reforma administrativa deve melhorar o funcionamento do serviço público: simplificar carreiras, avaliar desempenho, investir em gestão e tecnologia, combater supersalários e valorizar os profissionais que entregam bons resultados. Seu alcance precisa incluir todos os Poderes.
Também é necessário rever vinculações e indexações que tornam parte das despesas automática e comprimem o espaço para outras prioridades. Dar flexibilidade ao orçamento exige preservar o financiamento dos serviços essenciais e aumentar a transparência sobre cada escolha.
Uma reforma fundamental a médio e longo prazo, a meu ver, seria deixar de vincular o crescimento da despesa ao aumento da arrecadação pública. Este modelo, atualmente em vigor, força o poder público a buscar mais receita, o que em geral vem pelo caminho fácil: aumento de impostos. Vincular o aumento da despesa ao aumento real do PIB por uma década pode mudar completamente nosso sistema de incentivos: fazer o país crescer seria uma obsessão também do setor público.
Essa agenda precisa vir acompanhada de metas fiscais críveis e resultados suficientes para estabilizar a dívida. Zerar o déficit antes dos juros pode ser insuficiente quando o custo do endividamento supera o crescimento da economia. A IFI tem insistido na necessidade de produzir superávits primários, melhorar o gasto e recuperar espaço para investimentos. Uma temporada com uma desvinculação de receitas, como a DRU que existiu nos anos 1990, pode ser a chave para uma transição sem colapso.
É nesse contexto que ganhou destaque a proposta de André Lara Resende para reduzir os juros.
Um dos formuladores do Plano Real, o economista defende uma mudança no regime fiscal e monetário. Sua proposta prevê levar a Selic para perto de 7,5% ao ano ao longo de aproximadamente 12 meses, dentro de uma coordenação que incluiria metas fiscais, metas de inflação e limites para a taxa básica. Também contempla intervenções com reservas internacionais para suavizar pressões cambiais.
Há um ponto relevante em seu diagnóstico: juros elevados pesam sobre a dívida e sobre a atividade econômica. Esse custo merece discussão séria.
Minha preocupação está na confiança depositada em uma trajetória de cortes previamente fixada. Ao falar no risco de juros “por decreto”, refiro-me à possibilidade de um compromisso administrativo com determinada taxa prevalecer sobre a evolução da inflação, das expectativas e das contas públicas.
O Banco Central consegue determinar a taxa básica de curto prazo. Sua decisão, porém, não garante que o custo dos financiamentos longos acompanhe a queda. Se investidores perceberem mais risco de inflação ou de desequilíbrio fiscal, poderão exigir remuneração maior para emprestar por vários anos.
Uma redução precipitada pode pressionar o câmbio, encarecer produtos e insumos importados e dificultar o controle dos preços. Nessa situação, parte da economia esperada com os juros pode ser corroída pela perda de confiança.
A experiência da Turquia oferece um alerta.
Entre setembro de 2021 e novembro de 2022, a taxa básica turca caiu de 19% para 9%, apesar da inflação elevada. Em outubro de 2022, a inflação anual chegou a cerca de 85%. O FMI relaciona a escalada dos preços à política monetária excessivamente frouxa, à desvalorização da moeda e à deterioração das expectativas, além dos choques internacionais.
A tentativa de sustentar juros baixos teve consequências nefastas para o poder de compra. Posteriormente, a política precisou mudar de direção: em março de 2024, o banco central turco elevou sua taxa básica para 50% ao ano.
Os desenhos turco e brasileiro são diferentes. A comparação serve como advertência sobre cortes incompatíveis com as condições da economia. Seu alcance vai além do déficit público: envolve coerência entre política fiscal, controle da inflação e credibilidade monetária.
Para o Brasil, reduzir juros de maneira duradoura exige construir essas condições. Ajustar as contas públicas ajuda nesse processo, ao lado da autonomia técnica do Banco Central, da melhora da produtividade e de um ambiente favorável ao investimento.
Em Mato Grosso, essa discussão tem consequências concretas. A safra depende de financiamento; o comércio precisa de capital de giro; a indústria demanda recursos para ampliar capacidade. Empresas e famílias ganham quando conseguem planejar com estabilidade e acesso sustentável ao crédito.
Lula terá de liderar essa agenda e construir apoio no Congresso. As decisões difíceis precisam começar pelos privilégios, pelos desperdícios e pelas regras que perpetuam despesas sem avaliação de resultados.
O legado econômico do próximo mandato dependerá da disposição de enfrentar essas escolhas. Juros menores, serviços públicos melhores e crescimento sustentável precisam ser construídos com reformas, responsabilidade e confiança.
Gustavo de Oliveira é engenheiro, empresário, comentarista de Economia e Negócios na Rede Mato-grossense de Televisão (TVCA) e palestrante em assuntos sobre economia, negócios e inovação



