Abstenção pode ser decisiva entre Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno
Cientista político mostra como o perfil dos eleitores que deixam de votar pode alterar a força dos candidatos nas urnas e ajudar a explicar diferenças entre pesquisas e resultados oficiais

A taxa de abstenção pode ter papel decisivo no resultado da eleição presidencial e, segundo análise do cientista político Antonio Lavareda, o número de eleitores que não comparecem às urnas pode favorecer Lula ou Flávio Bolsonaro no segundo turno. O argumento central é que a ausência não atinge de maneira uniforme as candidaturas: políticos com maior presença entre eleitores de baixa renda e menor escolaridade tendem a sofrer perdas mais expressivas.
Lavareda sustenta que a diferença entre as intenções de voto registradas pelas pesquisas e a votação efetivamente contabilizada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) precisa considerar não apenas quem declarou intenção de votar em determinado candidato, mas também quem efetivamente compareceu às urnas.
No primeiro turno de 2026, segundo os dados apresentados pelo cientista político, Lula perdeu oito pontos quando comparada sua posição nas pesquisas de véspera com o resultado calculado sobre o eleitorado total. Flávio Bolsonaro perdeu cinco pontos. Cury recuou um ponto, enquanto as demais candidaturas, somadas, tiveram perda de quatro pontos.
A abstenção, por sua vez, superou ligeiramente 21% do eleitorado, enquanto votos brancos e nulos corresponderam a 4%.
Perfil do eleitor influencia resultado
Na avaliação de Lavareda, a composição social das bases eleitorais ajuda a explicar por que determinados candidatos são mais afetados pela ausência às urnas. Ele destaca que resultados de eleições anteriores mostram uma relação entre escolaridade, renda e participação eleitoral.
O fenômeno teria sido particularmente relevante para Lula no primeiro turno. Na pesquisa realizada às vésperas da votação, o petista alcançava 56% entre eleitores com ensino fundamental, 51% entre os não economicamente ativos e 50% entre aqueles com renda de até dois salários mínimos.
Segundo a análise, cerca de seis em cada dez eleitores de Lula estavam no grupo de até dois salários mínimos, enquanto entre os eleitores de Flávio Bolsonaro essa proporção era pouco superior a um terço.
Lavareda também cita dados de 2022 para mostrar a diferença de comparecimento conforme o nível de escolaridade. Entre eleitores analfabetos, a taxa de abstenção chegou a 52,1%, enquanto entre aqueles com ensino superior completo ficou em 12,4%. A diferença, ressalta o cientista político, é descritiva e não permite concluir como indivíduos específicos se comportam.
Pesquisas não são prognósticos
Outro ponto destacado na análise é a necessidade de diferenciar pesquisas eleitorais de previsões sobre o resultado das urnas. Lavareda afirma que levantamentos medem atitudes dos eleitores dentro de determinadas margens de erro, mas não têm como objetivo prever exatamente o comportamento que será registrado no dia da votação.
A comparação entre pesquisas e resultados oficiais, segundo ele, deve ser feita levando em conta o total do eleitorado. Nesse sentido, cita o pesquisador João Francisco Meira, para quem as amostras são construídas para representar o eleitorado, enquanto estimar quantas pessoas efetivamente irão às urnas envolve uma parcela de incerteza.
Lavareda afirma que acompanha o problema do diferencial de comparecimento desde as primeiras eleições após a redemocratização. Segundo ele, quando uma candidatura tinha possibilidade de vencer no primeiro turno, a estratégia era buscar uma margem superior a 50%, justamente porque parte dessa vantagem poderia não se converter em votos efetivos.
Lula teve maior perda no primeiro turno
A análise aponta que a abstenção ajudou a alterar a ordem de colocação entre os candidatos no primeiro turno de 2026. Embora todos tenham perdido votos potenciais com a ausência de eleitores, Lula teria sido o mais afetado entre os principais concorrentes.
Lavareda relaciona esse resultado ao peso de eleitores de baixa renda, menor escolaridade e maior idade na composição da base lulista. Ele lembra que o PT, desde 2002, apresentou recuo médio de oito pontos entre as pesquisas de véspera e os resultados do TSE no primeiro turno, enquanto os principais adversários dos petistas tiveram queda média de dois pontos.
Para o cientista político, a explicação não está necessariamente em um erro das pesquisas, mas na diferença entre a intenção declarada e o comparecimento efetivo.
Escolaridade aparece como fator importante
Os dados apresentados também apontam uma relação entre escolaridade e participação eleitoral. Entre oito categorias analisadas com base em dados de 2022, a abstenção apresentou comportamento quase inversamente proporcional ao nível de instrução.
A taxa de ausência chegou a 52,1% entre eleitores analfabetos e caiu para 12,4% entre aqueles com ensino superior completo. Lavareda ressalta, contudo, que os números agregados não permitem atribuir automaticamente determinado comportamento a cada indivíduo.
A renda também aparece como fator relacionado à participação. O custo para chegar até o local de votação pode representar uma dificuldade maior para pessoas pobres, principalmente quando há necessidade de deslocamentos mais longos.
Idade também interfere no comparecimento
A idade apresenta comportamento mais complexo. No Brasil, a desobrigação do voto a partir dos 70 anos altera a relação tradicional entre idade e participação eleitoral.
Segundo os dados apresentados por Lavareda, a abstenção é de 16,22% aos 16 anos e cresce até alcançar 23,50% entre pessoas de 21 a 24 anos. Depois, diminui gradualmente até chegar ao menor nível, de 11,93%, entre eleitores de 55 a 59 anos.
A partir dessa faixa, a ausência volta a crescer, chegando a 38,98% entre pessoas de 70 a 74 anos e ultrapassando 50% nas idades seguintes.
O cientista político também menciona estudos realizados em países latino-americanos que apontam escolaridade e idade como fatores importantes para explicar a participação eleitoral. A experiência acumulada ao longo da vida e o contato com temas como emprego, habitação, impostos, saúde e benefícios sociais aparecem entre os elementos relacionados ao comportamento eleitoral.
Abstenção pode pesar novamente no segundo turno
Com a disputa presidencial ainda em aberto, Lavareda aponta que o comparecimento às urnas será uma das variáveis capazes de interferir no resultado entre Lula e Flávio Bolsonaro.
A conclusão da análise é que não basta observar apenas a parcela do eleitorado que declara intenção de voto. O perfil de quem efetivamente sai de casa para votar pode alterar a proporção final obtida por cada candidatura.
Foi justamente essa diferença, segundo Lavareda, que ele afirma ter observado ao longo de décadas acompanhando campanhas eleitorais: em determinadas disputas, as urnas acabavam registrando menos votos para candidatos do que o volume indicado pelas pesquisas fazia esperar.
Publicado originalmente em infoverus.com.br



