Bolsa de valores aciona circuit breaker após vitória de Lula e dólar dispara 9,22%
Interrupção nas negociações ocorreu pela primeira vez desde março de 2020; risco-Brasil subiu 22% e juros futuros avançaram até 290 pontos-base

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial provocou forte reação negativa no mercado financeiro nesta segunda-feira (26). A Bolsa brasileira acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações diante de quedas expressivas, pela primeira vez desde março de 2020, quando a pandemia de coronavírus provocou turbulência nos mercados.
O circuit breaker é acionado quando o Ibovespa, principal índice da Bolsa, atinge determinados níveis de desvalorização. Se a queda chegar a 10% em relação ao fechamento do pregão anterior, as operações são suspensas por 30 minutos. Após a retomada, caso o recuo alcance 15%, a interrupção passa a ser de uma hora. Se a desvalorização atingir 20%, a B3 pode suspender novamente as negociações pelo período que considerar necessário.
Durante a paralisação, ficam interrompidas as operações de compra e venda de ações, derivativos e títulos de renda fixa privada, em uma tentativa de conter os efeitos da volatilidade e permitir a estabilização do mercado.
A pressão também atingiu outros ativos ao longo da manhã. Por volta das 11h50, o dólar avançava 9,22%, cotado a R$ 5,445. No mesmo horário, as taxas dos contratos de DI (Depósitos Interfinanceiros), que indicam as expectativas do mercado para os juros futuros, subiam até 290 pontos-base.
O risco-Brasil, indicador utilizado para avaliar a percepção dos investidores sobre o risco de aplicar recursos no país, registrava alta de 22% às 11h50. A elevação sinaliza aumento da desconfiança em relação à capacidade brasileira de honrar compromissos financeiros e pode encarecer a captação de recursos no exterior tanto para empresas quanto para o governo.
A forte desvalorização dos ativos nesta segunda-feira reverte os ganhos registrados após o primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro terminou a votação à frente de Lula, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do então presidente.
No pregão seguinte à primeira rodada da eleição, a Bolsa avançou 7,70% e fechou aos 206.911 pontos, alcançando um recorde tanto em valores nominais quanto reais. Na mesma sessão, o dólar recuou 4,11%, para R$ 5,001. Foi a maior queda da moeda em um fechamento desde 2018, quando a desvalorização havia chegado a 5,50% em um único pregão.
Desde a confirmação das candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro à Presidência, em agosto, a Bolsa brasileira acumulava valorização de 15,3%. O desempenho positivo após o primeiro turno refletia a expectativa de vitória do candidato do PL e de adoção de uma política fiscal mais rigorosa durante seu eventual governo.
Com a continuidade de Lula na Presidência, investidores passaram a temer que não sejam implementadas medidas suficientes para ajustar as contas públicas. A expectativa de menor controle fiscal tende a elevar o prêmio de risco exigido pelo mercado para financiar o governo, pressionando as taxas de juros.
Juros mais elevados também podem encarecer o crédito para as empresas e reduzir as perspectivas de lucro, o que aumenta a pressão sobre as ações negociadas na Bolsa.
A possibilidade de uma reação negativa dos ativos brasileiros após a vitória de Lula já aparecia nas projeções de agentes do mercado. Um levantamento do Citibank com 73 gestores de fundos de ações e multimercado apontou que 80% dos entrevistados esperavam uma queda superior a 5% do Ibovespa nesta segunda-feira. Outros 7% projetavam recuo entre 1% e 5%, enquanto 3% previam valorização de 1% a 5%.
No mercado cambial, 63% dos gestores consultados esperavam uma desvalorização superior a 5% do real. Outros 28% estimavam uma queda entre 2% e 5%, enquanto 6% projetavam valorização superior a 5% da moeda brasileira.
Publicado originalmente em infoverus.com.br


