Com eleição, dólar tem maior alta desde 1999 e Ibovespa despenca 14%

O dólar comercial fechou esta segunda-feira (26) em alta de 8,21%, a R$ 5,403, no primeiro pregão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Foi a maior valorização diária da moeda americana desde janeiro de 1999.
O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, recuou 13,88%, aos 176.357 pontos. Foi o pior desempenho diário do Ibovespa desde 16 de março de 2020, quando o índice caiu 13,92% em meio ao avanço da pandemia de covid-19.
No câmbio, a alta desta segunda superou os 8,15% registrados em 18 de maio de 2017, após as denúncias envolvendo o então presidente Michel Temer.
O que aconteceu
Resultado eleitoral levou investidores a desfazer apostas feitas após o primeiro turno. Segundo Maria Carolina Luchesi, analista de investimentos da Hike Capital, parte do mercado havia montado posições apostando em uma mudança de governo. Com a reeleição de Lula, essas operações começaram a ser revertidas, enquanto investidores passaram a exigir maior remuneração para assumir riscos no Brasil diante das incertezas fiscais.
Dólar chegou a superar R$ 5,60 durante o pregão. A moeda americana atingiu R$ 5,605 na máxima do dia, antes de perder força. Na mínima, foi negociada a R$ 5,392. Na sexta-feira (23), havia encerrado a R$ 4,993.
Bolsa teve negociações interrompidas pela primeira vez desde 2020. A intensidade das vendas levou a B3 a acionar pela manhã o circuit breaker, mecanismo que suspende temporariamente as operações quando o Ibovespa atinge determinados limites de queda. Foi a primeira interrupção desse tipo desde março de 2020.
Ibovespa perdeu toda a valorização acumulada após o primeiro turno. O índice voltou a operar abaixo dos cerca de 192 mil pontos registrados em 2 de outubro, último pregão antes da primeira votação. O dólar, por sua vez, terminou acima dos R$ 5,22 daquela data.
Juros futuros dispararam com a piora das expectativas fiscais. O contrato de DI para janeiro de 2033 indicava taxa de 15,240% ao ano às 16h45, ante 12,650% no fechamento anterior, avanço de 2,59 pontos percentuais. Esses contratos refletem as expectativas dos investidores para os juros brasileiros nos próximos anos.
Juros mais altos atingiram principalmente empresas endividadas e dependentes do consumo. O aumento das taxas encarece tanto o crédito para consumidores quanto a captação das companhias. Por isso, varejistas e construtoras ficaram entre as ações mais penalizadas do pregão
Juros também pioraram as perspectivas para os lucros das empresas. Segundo Juliano de Lara Fernandes, sócio e gestor da Armada Asset, o encarecimento dos empréstimos e da renegociação de dívidas aumenta as despesas financeiras das companhias, reduzindo os lucros esperados e pressionando o preço das ações. O especialista também vê risco de recessão a partir de 2027.
Isso representa um custo maior para as empresas, o que acaba gerando menos lucro e também uma expectativa de possível recessão a partir de 2027.
Juliano de Lara Fernandes, sócio e gestor da Armada Asset
Magazine Luiza liderou as perdas do Ibovespa. As ações ordinárias da companhia (MGLU3), que dão direito de voto ao acionista, recuaram 58,23%. Também registraram fortes quedas Vamos (VAMO3), com baixa de 56,79%; Hapvida (HAPV3), com perda de 54,93%; C&A (CEAB3), com recuo de 47,47%; e Cosan (CSAN3), com desvalorização de 46,73%.
Bancos também contribuíram para a queda da Bolsa. Segundo Luchesi, o setor concentrou parte das apostas feitas após o primeiro turno e reúne ações com elevada liquidez, que podem ser vendidas rapidamente quando investidores estrangeiros reduzem a exposição ao Brasil. As ações preferenciais (sem direito de voto) do Itaú Unibanco (ITUB4) recuaram 13,66%.
Construtoras de baixa renda podem apresentar maior resistência. Luchesi destaca que Cury, Direcional e Tenda contam com o programa Minha Casa, Minha Vida, financiado principalmente pelo FGTS e menos dependente da Selic do que o crédito imobiliário de média e alta renda. A disponibilidade de recursos para o programa em 2027 será um ponto de atenção.
Exportadoras se beneficiaram da valorização do dólar. Empresas que recebem parte relevante de suas receitas em moeda americana podem ganhar com a conversão desses valores para reais, especialmente quando parte dos custos permanece em moeda brasileira.
Suzano liderou as altas do Ibovespa. As ações ordinárias da companhia (SUZB3) avançaram 10,08%, seguidas pelas da Embraer (EMBJ3), com ganho de 8,89%; WEG (WEGE3), com valorização de 4,21%; e Vale (VALE3), com alta de 4,01%. As units da Klabin (KLBN11), certificados que reúnem diferentes classes de ações, subiram 3,24%.
Petrobras também acompanhou as perdas do mercado brasileiro. As ações preferenciais da estatal (PETR4) recuaram 8,18%.
Bolsas americanas fecharam em alta, na contramão do Brasil. O Dow Jones avançou 0,29%, aos 52.364,02 pontos. O S&P 500 ganhou 0,70%, aos 7.676,85 pontos, enquanto o Nasdaq subiu 0,83%, aos 26.169,38 pontos.
Publicado originalmente em economia.uol.com.br

