Daniel Vorcaro é investigado pela PF por suposta rede de prostituição que recrutava estrangeiras e refugiadas de guerra com investimento de R$ 4,3 milhões
Apuração aponta recrutamento de estrangeiras vulneráveis, inclusive refugiadas ucranianas, festas privadas com autoridades e uso de empresas para intermediar contratações e pagamentos

O ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, é investigado pela Polícia Federal por suspeita de financiar e administrar uma rede internacional de prostituição que teria começado em 2023 e recebido pelo menos R$ 4,3 milhões em investimentos. A apuração envolve intermediários, uma casa noturna em São Paulo e o recrutamento de mulheres estrangeiras em situação de vulnerabilidade, incluindo refugiadas de guerra que teriam permanecido no Brasil para participar de encontros privados com autoridades e pessoas próximas ao empresário.
As informações foram divulgadas por Natália Portinari, do UOL. Instaurada em maio, a investigação busca esclarecer a participação de garotas de programa estrangeiras e verificar se houve irregularidades na contratação dos serviços. Embora a prostituição não seja crime no Brasil, a legislação penal proíbe o favorecimento da prostituição de outra pessoa, a obtenção de vantagens com essa atividade — prática conhecida como cafetinagem — e a manutenção de estabelecimentos destinados à exploração sexual. A PF também apura uma possível ocorrência de tráfico internacional de pessoas, cuja caracterização, nesse contexto, depende da comprovação de violência ou coação.
Mensagens obtidas durante a investigação indicariam que Vorcaro não se limitava a contratar serviços, mas participava diretamente da administração do negócio. Segundo os diálogos, ele decidia quem seria contratado ou dispensado e direcionava recursos para manter a estrutura. Entre os intermediários apontados estão Leonardo Serrano, proprietário de uma empresa de eventos nos Estados Unidos, e Diogo Batista, promotor de eventos em São Paulo que recebia pagamentos mensais de R$ 120 mil do ex-banqueiro.
Nas conversas pelo WhatsApp, os envolvidos usavam expressões degradantes para se referir às mulheres, chamadas de “escravas” e “kengas”. Batista escreveu mensagens como “Escravinha doutrinada”, “Vou já escravizar ela pra hoje e fazer trabalhar pra gente aí” e “Passa a pikinha em geral surubinha. Tinha que ter levado umas escravas”. Para identificar mulheres mais jovens, o grupo recorria ao codinome “creche”.
Em uma conversa de 2024, Vorcaro comentou com Batista: “Nossa creche me consumiu semana toda kkk. Queria ter duas pirocas”.
Refugiadas em situação de vulnerabilidade
Os diálogos também apontam para o envolvimento de mulheres que haviam deixado países em guerra. No fim de 2023, uma jovem ucraniana de 19 anos foi levada a uma festa de Halloween. Depois que Vorcaro comunicou que deixaria de pagar hospedagem e passagens para as estrangeiras que continuassem no Brasil, a jovem ficou sem recursos para se manter.
Em 7 de novembro daquele ano, Batista informou que havia três ucranianas no local. Vorcaro respondeu: “Tem que sobrar alguma refugiada pra mim”.
Como a jovem não tinha condições de retornar à Ucrânia devido aos bombardeios, Batista sugeriu incorporá-la ao negócio. “Bora colocar elas na agência e daí lavamos as mãos”, escreveu.
Em dezembro, ao ser questionado sobre quantas estrangeiras ainda estavam no país, o promotor respondeu: “1 só. Ela não tem pra onde ir. Estão bombardeando a cidade dela”. Ele também afirmou ter evitado que a jovem procurasse refúgio na Itália e acrescentou: “Às vezes tomarei decisões por nós? E ela ainda pode entrar pra nossa agência! Gata e novinha!”.
Em janeiro de 2024, Batista voltou a defender a criação de uma agência própria para manter o controle sobre as mulheres. “Vamos fechar essa agência irmão? Ajuda muito pra segurar essas meninas? daí eu alugo uma casa tbm ou ap grande pela agência! Não fica atrelado à gente!”, escreveu.
A jovem continuou sendo enviada a eventos do grupo até abril de 2024, quando Vorcaro determinou a dispensa de mulheres ucranianas e russas. Na ocasião, foi organizada uma “seleção” presencial para decidir quem permaneceria na estrutura.
Agência de modelos e pagamentos
A investigação também examina a compra de participação em uma agência de modelos que, segundo as mensagens, teria sido usada para dar aparência legal ao recrutamento das mulheres. Vorcaro adquiriu 50% da Allure Eventos, empresa de Felipe Nisti Cataldo, por R$ 1,5 milhão.
Um contrato foi enviado ao celular do ex-banqueiro em dezembro de 2023. No mês seguinte, Batista confirmou o acordo por mensagem: “Assim estamos blindados!”. Comprovantes indicam que as parcelas de R$ 500 mil foram transferidas via Pix pela Super Empreendimentos, empresa vinculada a Vorcaro.
A intenção de utilizar a agência para intermediar o recrutamento aparece em uma mensagem de Tiago Polo, empresário ligado a Batista, enviada ao ex-banqueiro: “O Diogo disse [que] a ideia da agência seria uma forma de ajustar as meninas indiretamente”.
Depois dos pagamentos, Vorcaro passou a exigir que as mulheres fossem cadastradas na agência e determinou viagens ao Sul do país para buscar novas contratadas. Ele também ordenou que a casa alugada para acomodá-las tivesse apenas funcionárias do sexo feminino.
Em maio de 2024, Batista propôs dividir as mulheres em dois grupos operacionais. O “Time Famiglia A” seria destinado ao acompanhamento exclusivo, descrito nas conversas como “confiança e surubinha”, enquanto o “Time B” atenderia aos chamados “eventos de volume”.
Em outubro daquele ano, durante uma discussão sobre as condições contratuais, o promotor afirmou que deixaria de cobrar comissões diretamente das modelos. “Não podemos perder nosso talento que sempre foi operar as gatas? Eu não vou mais cobrar porcentagem das modelos? Sem essa de explorar elas como sempre foi”, escreveu.
Festa de aniversário e controle sobre as jovens
Outro episódio investigado ocorreu em fevereiro de 2024 e foi chamado pelos integrantes do grupo de “o debute”. A festa foi organizada para comemorar os 19 anos de uma jovem apelidada de “Mucilon”.
Nas semanas anteriores ao evento, Batista escreveu: “Vou segurar a mucilon pra Famiglia então”. Vorcaro respondeu: “Ela vai ter que entrar pro crime pra ficar”.
O ex-banqueiro também demonstrou preocupação com a idade da jovem ao dizer: “A mucilon mto nova. Tô preocupado”. Batista minimizou a questão: “Antes contigo do que com outros otários. Vc cuida. Famiglia”.
Depois que o promotor informou que a jovem estava “liberada” e aguardava o “batizado”, Vorcaro encomendou uma festa com “bolo temático Mucilon”. Ele também deu um celular à jovem e pagou despesas do evento estimadas em R$ 50 mil, cobradas por Batista.
Na mesma data, após a comemoração, a jovem agradeceu pela festa. Vorcaro respondeu: “Te ensino tudo”.
Estrutura internacional e viagens
A operação fora do Brasil era coordenada por Leonardo Serrano por meio da SL Consulting, empresa sediada na Flórida, nos Estados Unidos. As mulheres, identificadas nas conversas como “flores”, eram recrutadas por agentes locais durante viagens a cidades como Londres, Paris, Roma e Dubai.
Faturas obtidas pela reportagem apontam que, entre abril de 2024 e março de 2025, a SL Consulting emitiu cobranças que totalizaram aproximadamente US$ 70 milhões à Moriah Asset, gestora sediada em Belo Horizonte. Os documentos justificavam os valores como “orçamento antecipado” para despesas com hospedagem e fretamentos.
Os custos eram encaminhados ao setor financeiro do Banco Master, enquanto as despesas relacionadas às atividades no Brasil eram faturadas à empresa Prime You.
Uma das viagens mencionadas na apuração ocorreu em Londres, em abril de 2024, e contou com a presença de autoridades brasileiras. Na ocasião, 99 mulheres foram enviadas para os compromissos do ex-banqueiro.
Para preservar o sigilo dos encontros privados, Serrano comunicava antecipadamente as medidas de segurança adotadas, entre elas o recolhimento dos celulares de todas as mulheres contratadas.
Vorcaro tinha a palavra final
As mensagens analisadas pela investigação também indicariam uma hierarquia na organização, com Vorcaro no comando das decisões. Batista demonstrava subordinação ao ex-banqueiro em declarações como “Eu e vc somos o time! Vc é o chefe e eu seu Cavaleiro PitBull!” e “Chefe manda e a gente executa”.
De acordo com os diálogos, pagamentos, renovações de contratos e escolhas dos grupos de mulheres dependiam da autorização expressa de Vorcaro.
Procurados pelo UOL, Leonardo Serrano e Diogo Batista não responderam aos contatos da reportagem.
Felipe Nisti Cataldo confirmou ter sido procurado por Vorcaro para negociar a participação na Allure Eventos, mas afirmou que as tratativas não avançaram e negou que o contrato tenha sido concretizado. Sobre uma transferência de R$ 500 mil recebida via Pix em sua conta bancária, ele disse que precisaria verificar a origem do dinheiro.
Publicado originalmente em infoverus.com.br


