Daniel Vorcaro exigiu que sites controlados por ele poupassem Hugo Motta, Lira e Ciro Nogueira: ‘Sai nada sem me falar’
Mensagens encontradas pela Polícia Federal mostram o banqueiro do Banco Master cobrando a retirada de publicações, impondo restrições a veículos de comunicação

Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, banqueiro do Banco Master, revelam que ele dava ordens para evitar a publicação de reportagens negativas sobre políticos como Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL) e o senador Ciro Nogueira (PP-PI). As conversas mostram cobranças diretas a profissionais ligados a veículos de comunicação controlados ou influenciados por Vorcaro, além de pedidos para produzir conteúdos positivos sobre aliados políticos.
Em 20 de setembro de 2024, Vorcaro enviou uma mensagem ao empresário Flávio Carneiro, dono do site PlatôBR, conselheiro para assuntos relacionados à mídia e assessor de imagem do banqueiro. “Qq coisa de ciro arthur hugo nao pode sair nada sem me flaar”, escreveu. A orientação indicava que qualquer conteúdo envolvendo os três políticos deveria passar por sua avaliação antes de ser publicado.
Procurados, Hugo Motta e Ciro Nogueira não se manifestaram. Arthur Lira, por meio de sua assessoria, afirmou que não mantinha proximidade com Vorcaro, não trocava mensagens com ele e nunca lhe fez qualquer pedido.
Cobranças para retirar publicações
Antes de enviar a ordem sobre os três políticos, Vorcaro havia encaminhado a Carneiro uma imagem de uma publicação relacionada a Arthur Lira e exigido que o conteúdo fosse retirado do ar. “Porra cara. Tira isso do ar agora”, escreveu o banqueiro. A reportagem não conseguiu confirmar qual era o teor da publicação nem em qual veículo o material havia sido divulgado.
Carneiro respondeu que incluiria Lira na lista de pessoas protegidas pelas orientações recebidas. “Ok. Vou colocar o Lira nessa lista agora. Realmente não tava”, afirmou. Naquele período, Lira deixava a presidência da Câmara e articulava a escolha de Hugo Motta para sucedê-lo no comando da Casa.
A preocupação com Motta já havia aparecido em mensagens anteriores. Em 4 de setembro de 2024, cerca de duas semanas antes da conversa sobre os três políticos, Vorcaro reforçou ao assessor que os veículos ligados a ele não deveriam publicar conteúdos desfavoráveis ao então deputado. “So pra avisar. Nenhum de nossos veiculos pode falar NADA contra Hugo motta. Estao tentando plantar coisas contra. Segure isso”, escreveu, em uma sequência de quatro mensagens.
A orientação voltou a ser mencionada em dezembro daquele ano, quando a Polícia Federal deflagrou uma operação para investigar desvios de emendas parlamentares de Hugo Motta. Ao encaminhar a Carneiro o link de uma notícia publicada no Instagram do site Metrópoles, Vorcaro reclamou da divulgação. “Foda hein. Cara nem ta na operacao. Metropoles ta foda”, escreveu.
Banqueiro também cobrava reportagens favoráveis
As mensagens indicam que a atuação de Vorcaro não se limitava a tentar impedir a divulgação de conteúdos considerados prejudiciais a políticos aliados. Ele também solicitava a produção de reportagens positivas para melhorar a imagem de Hugo Motta.
Em 17 de julho de 2025, o banqueiro pediu diretamente a Carneiro que produzisse matérias favoráveis ao presidente da Câmara. “Preciso que faca algumas materias falando bem do hugo. Cara ta apanhando demais e injustamente”, escreveu.
O empresário respondeu que tinha “muita pauta boa pra fazer” e solicitou o contato do responsável pela comunicação do parlamentar. “Vou fazer uma agenda positiva já !!!”, afirmou Carneiro, indicando que pretendia organizar a publicação de conteúdos com abordagem favorável a Motta.
Conversas também envolvem o Metrópoles
As mensagens analisadas pela Polícia Federal também mostram a influência de Vorcaro sobre conteúdos publicados pelo Metrópoles. Conversas com Lilian Tahan, CEO do portal, indicam que o banqueiro editava reportagens, pedia a retirada de textos e sugeria pautas ao veículo.
Um dos episódios ocorreu em 2 de abril de 2025, quando Vorcaro e Tahan discutiram rumores de que o BTG teria apresentado uma proposta de R$ 1 para comprar ativos do Banco Master. O banqueiro encaminhou um desmentido oficial e contestou a informação. “Proposta de 1 real nunca existiu!”, escreveu. Tahan respondeu: “Tiramos”.
Na sequência, Vorcaro orientou como a informação deveria ser apresentada na reportagem. “Mas tem que ser um jeito que nao pareça que nao tem interesse. So desmentir quem falou que tinha proposta de 1 real”, afirmou. A jornalista concordou: “Deixa comigo”.
Horas depois, Tahan encaminhou o link do texto publicado e disse que o banqueiro poderia avisá-la caso identificasse alguma incorreção. “Se tiver alguma incorreção, me avise!! Não tem pressa. No seu tempo. Não publicarei sem nos falarmos”, escreveu.
Vídeo sobre Ciro Nogueira provocou ameaça de rompimento
No PlatôBR, Vorcaro também demonstrou insatisfação com a publicação de um vídeo que mostrava Ciro Nogueira abraçando Ricardo Magro, empresário da Refit, durante um evento em Nova York. O material foi publicado em 14 de maio de 2025. Magro é apontado no texto como o maior sonegador do país.
Ao reclamar do conteúdo, o banqueiro exigiu uma solução e ameaçou cancelar projetos relacionados ao veículo. “Ou resolce isso agora em todos. Ou ta cancelado todo projeto. Isso passou dos linutes”, escreveu em uma sequência de três mensagens.
Carneiro informou que o vídeo estava disponível apenas na página pessoal do então colunista do site. Vorcaro, porém, voltou a protestar e justificou sua cobrança com a relação pessoal que dizia manter com o senador. “Nao da pra bancar agenda propria de caras contra o cara que é um irmao. Unica resistencia fiel que tenho”, afirmou.
Lira nega proximidade com Vorcaro
Em nota, a equipe de Arthur Lira declarou que o parlamentar nunca enviou ou recebeu mensagens de Daniel Vorcaro e que os dois jamais trocaram ligações telefônicas. A assessoria reiterou que não havia proximidade entre eles e que Lira nunca fez pedidos ao banqueiro.
A manifestação também afirmou que o deputado desconhece a existência de conversas que mencionem seu nome e que não pode responder nem ser responsabilizado por diálogos mantidos por terceiros.
Ao final dos episódios relatados, Lira foi eleito senador por Alagoas, Hugo Motta foi reeleito para a Câmara dos Deputados e Ciro Nogueira não conseguiu a reeleição para o Senado.
Publicado originalmente em infoverus.com.br



