De candidata a vice: como Gisela Simona pretende se tornar a ponte entre servidores e Pivetta
Vice-governadora eleita propõe comissão permanente de negociação e aposta no diálogo para tratar de salários, carreiras e reivindicações do funcionalismo

A vice-governadora eleita de Mato Grosso, Gisela Simona (União), pretende transformar a relação com os servidores públicos em uma das marcas de sua atuação no governo de Otaviano Pivetta (Republicanos), a partir de 2027. Em entrevista ao PodOlhar, videocast do portal Olhar Direto, ela defendeu a criação de uma comissão permanente de negociação com as categorias e se colocou como uma interlocutora entre o funcionalismo e a futura gestão.
A proposta parte do diagnóstico apresentado pela própria Gisela de que parte dos servidores, entidades sindicais e associações teve dificuldades para estabelecer diálogo com o atual governo. A ideia, segundo ela, é criar um canal permanente para que as reivindicações sejam discutidas diretamente, evitando que as negociações ocorram apenas quando os conflitos já estejam instalados.
“Eu quero muito que a gente crie uma comissão permanente de negociação com o servidor público. A reclamação geral é: precisamos melhorar o diálogo. Algumas classes, entidades sindicais, associações que não conseguiram conversar com o governo do Estado durante esse período. Então, a gente quer fazer essa aproximação”, afirmou.
Comissão teria pauta ampla
A estrutura proposta por Gisela não seria limitada às discussões salariais. A intenção é reunir representantes das diferentes categorias para tratar de reivindicações coletivas, como a Revisão Geral Anual (RGA), concursos públicos e reestruturação de carreiras, além de demandas específicas apresentadas por determinados segmentos.
Entre os temas citados estão adicionais de periculosidade e auxílio-alimentação. A proposta, portanto, busca concentrar em uma mesma mesa demandas que hoje são apresentadas por diferentes carreiras e entidades, criando um espaço permanente de negociação entre servidores e governo.
Gisela também apontou uma diferença no tratamento recebido por determinadas categorias ao longo do tempo. Na avaliação dela, parte das distorções estaria relacionada à capacidade de influência política de alguns grupos dentro da estrutura do Estado.
“Algumas carreiras que tinham alguém lá que era amigo do rei, que tinha um deputado que mandava na Assembleia, conseguia muitas coisas, outras não”, declarou.
Salários serão um dos principais desafios
Apesar de defender maior abertura para negociação, Gisela evitou assumir um compromisso de pagamento integral das perdas salariais acumuladas reivindicadas pelas categorias. Ao comentar o percentual de 18,38%, afirmou que a definição dependerá da capacidade financeira do Estado e precisará considerar outras despesas e compromissos previstos para o próximo mandato.
“Vamos conseguir pagar 100%? Vamos pagar parte dele, como que vai ser feita essa divisão? Então, é tudo isso que precisa entrar numa mesa de negociação”, explicou.
A declaração indica que a proposta de aproximação com o funcionalismo não significa, neste momento, uma garantia de atendimento integral das reivindicações. A intenção apresentada pela vice-governadora eleita é estabelecer primeiro um espaço de negociação capaz de discutir as demandas e os limites financeiros do Estado.
Gisela também reconheceu que a relação entre governo e sindicatos chegou a momentos de intransigência dos dois lados. Para ela, uma comissão permanente poderia justamente criar mecanismos mais transparentes para conduzir essas discussões e reduzir os conflitos entre as categorias e a administração estadual.
Escolha para vice é apresentada como sinal aos servidores
Durante a entrevista, Gisela também defendeu Otaviano Pivetta das críticas relacionadas à relação com o funcionalismo. Para ela, sua própria escolha para ocupar a Vice-Governadoria representa uma sinalização de aproximação do futuro governo com os servidores públicos.
“Quando ele convida uma servidora pública para estar como vice, eu acho que isso é mandar um recado para o servidor também, e eu quero muito ser essa ponte”, disse.
A posição ajuda a explicar o espaço que Gisela pretende ocupar na futura administração. Enquanto atribui a Pivetta um perfil mais voltado à gestão e à austeridade, ela afirma que pretende contribuir com uma atuação mais direcionada ao atendimento da população.
“Eu acredito que eu vou entrar muito com esse lado de cuidar das pessoas”, afirmou, ao defender avanços na saúde pública, incluindo a redução das filas de consultas especializadas e cirurgias pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Da Câmara à Vice-Governadoria
A chegada de Gisela à chapa de Pivetta também marcou uma mudança significativa em sua trajetória política. Inicialmente, ela estava preparada para disputar a reeleição à Câmara dos Deputados, mas acabou escolhida para substituir Fábio Garcia (União) como candidato a vice após a Operação Heritage provocar uma reconfiguração da chapa.
A substituição chegou a ser questionada pelo ex-governador Mauro Mendes (União), que considerou equivocada a mudança de Fábio. A vitória no primeiro turno, contudo, levou Gisela à Vice-Governadoria e fez dela a segunda mulher eleita para o cargo na história de Mato Grosso, 24 anos depois de Iraci França, eleita em 2002.
No novo posto, ela também defendeu a necessidade de avaliar a estrutura administrativa do Estado e os incentivos fiscais concedidos pelo governo. Segundo a proposta apresentada na entrevista, o objetivo seria identificar políticas que devem ser mantidas, aperfeiçoadas ou revistas.
Pesquisas e trajetória política
Gisela também criticou as pesquisas de intenção de voto divulgadas próximo às eleições. Ela afirmou que os levantamentos não refletiram a vantagem que a chapa governista identificava em suas pesquisas internas e defendeu restrições à divulgação desses estudos na reta final da disputa.
“Eu particularmente queria que fosse proibida a pesquisa em vésperas de eleição, porque elas têm uma capacidade de induzir ao erro muita gente também”, declarou.
Outro ponto abordado foi sua trajetória política e as alianças construídas ao longo dos últimos anos. Gisela explicou o apoio a Abilio Brunini (PL) no segundo turno da eleição municipal de 2020 e, posteriormente, sua filiação ao União Brasil, partido liderado por Mauro Mendes.
Ao explicar a aproximação com o grupo do ex-governador, ela afirmou que buscou proteção política depois de enfrentar o que classificou como perseguições decorrentes de sua candidatura à Prefeitura de Cuiabá.
“O que tentaram foi me apagar ou me eliminar de todas as formas e eu sofri muita perseguição”, afirmou.
Segundo Gisela, a entrada no grupo de Mauro Mendes foi uma forma de se proteger de adversários políticos e manter sua atuação pública. Ela rejeitou as acusações de incoerência e afirmou que continuou defendendo os servidores independentemente das alianças partidárias.
Publicado originalmente em infoverus.com.br



