De “Lula 13” barrado a “Flávio 22” aprovado: como a Meta AI expôs falhas em filtros eleitorais
Testes da coluna de Mônica Bergamo mostraram respostas diferentes da inteligência artificial a pedidos de propaganda dos dois políticos

A diferença de comportamento da Meta AI diante de pedidos de propaganda eleitoral para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) levantou questionamentos sobre a aplicação das regras de segurança da ferramenta em ano eleitoral. Em testes realizados pela coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, o chatbot recusou a criação de um cartaz com a frase “Lula 13”, mas produziu uma peça com o nome “Flávio 22”, em verde e amarelo, acompanhada de palavras como “compromisso”, “trabalho” e “renovação”.
A diferença foi observada em solicitações semelhantes e repetida em conversas distintas, mesmo com alterações nas instruções. O episódio expôs uma inconsistência no funcionamento do sistema e ampliou o debate sobre a neutralidade de ferramentas de inteligência artificial quando utilizadas para produzir conteúdo relacionado a candidaturas.
Testes repetidos revelaram respostas diferentes
Segundo o relato da coluna, o pedido para gerar material com o nome e o número eleitoral de Lula foi recusado sem explicação. Já a solicitação de uma peça semelhante para Flávio Bolsonaro foi atendida, com a criação de um cartaz que destacava o nome do senador e incluía expressões associadas à sua campanha.
Ao ser questionada sobre a diferença, a própria Meta AI reconheceu a aparente incoerência em uma das conversas. “Sei que parece incoerente, já que o de ‘Flavio 22’ no mesmo estilo passou agora há pouco, e eu entendo por que isso passa a impressão de lado. Não é minha intenção fazer um e não o outro”, respondeu a ferramenta.
O chatbot atribuiu o resultado a um filtro automático de segurança que poderia bloquear o nome de um político e liberar o de outro de maneira inconsistente. A explicação, apresentada pela própria inteligência artificial, não esclarece por que os pedidos tiveram tratamentos diferentes, mas indica que o sistema pode apresentar respostas distintas diante de comandos semelhantes.
Meta afirma ter restringido a geração de imagens eleitorais
Questionada sobre os testes, a Meta informou que havia proibido temporariamente a recomendação de candidatos e a geração de imagens deles, alegando cumprimento das regras eleitorais brasileiras. A empresa também afirmou ter adotado medidas adicionais para impedir que comandos com apenas o primeiro nome dos candidatos e seus números nas urnas resultassem em imagens.
A manifestação indica uma tentativa de uniformizar as respostas da ferramenta diante de solicitações de propaganda eleitoral. O caso, porém, chama atenção para a diferença entre uma regra anunciada pela empresa e sua aplicação efetiva pelo sistema, já que os testes descritos pela coluna identificaram resultados distintos para dois políticos.
Caso se soma a questionamentos da campanha de Lula
O episódio ocorre em meio a críticas da campanha de Lula à atuação da Meta durante a disputa eleitoral. Na sexta-feira (10), o grupo petista afirmou que acionaria o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a Agência Nacional de Proteção de Dados por uma suposta interferência da empresa em favor de Flávio Bolsonaro.
Na ocasião, a campanha relatou dificuldades para impulsionar publicações no Instagram e restrições a contas de anúncios. Também alegou que o algoritmo da plataforma favorecia o adversário. As acusações foram negadas pela Meta, que declarou cumprir as regras eleitorais e manter o compromisso com a isonomia entre candidaturas.
O TSE determinou que a empresa apresentasse esclarecimentos técnicos e preservasse registros de moderação, dados de anúncios e métricas relacionados às publicações investigadas. A medida busca reunir informações para a análise das questões levantadas, sem representar, por si só, confirmação das acusações feitas pela campanha.
Inconsistência técnica amplia debate sobre neutralidade
A diferença observada nos pedidos feitos à Meta AI não comprova, isoladamente, uma decisão deliberada da empresa de favorecer uma candidatura. O próprio chatbot atribuiu o comportamento a uma possível inconsistência dos filtros automáticos, enquanto a Meta afirmou ter adotado restrições temporárias para impedir a geração de imagens de candidatos.
O episódio, no entanto, coloca em evidência um desafio para plataformas que utilizam inteligência artificial em períodos eleitorais: garantir que regras de moderação sejam aplicadas de maneira consistente, independentemente do nome ou da posição política envolvida. Em uma disputa na qual conteúdos digitais podem ganhar alcance rapidamente, diferenças de tratamento entre solicitações semelhantes tendem a alimentar questionamentos sobre transparência, controle e igualdade de condições.
Publicado originalmente em infoverus.com.br



