Donald Trump diz gostar de Lula, mas questiona eleição brasileira
Presidente dos EUA criticou a contagem dos votos e a prorrogação do horário de votação. Governo americano também adiou comunicado de reconhecimento do resultado

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira (26) que gosta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas disse que a eleição brasileira “pareceu ter sido fraudada”. O republicano não apresentou provas para sustentar a declaração e questionou a forma como os votos foram contabilizados e a prorrogação do horário de votação.
“Passou uma impressão muito ruim. A eleição, a maneira como os votos foram contabilizados, sabe? Com a prorrogação do horário de votação, foi muito estranho”, declarou Trump ao comentar o resultado da disputa presidencial brasileira.
Questionado se pretendia tomar alguma medida em relação ao pleito, o presidente americano afirmou que ocupa a Presidência dos Estados Unidos, e não a do Brasil. Apesar de dizer que não tomou partido na eleição, voltou a questionar a legitimidade do processo e criticou a repercussão internacional do resultado.
“Achei que foi uma situação muito ruim. Não tomei partido, mas pareceu mais uma eleição fraudada. Francamente, não tomei partido, mas foi uma imagem péssima para o mundo. É mais uma eleição. Sabe, as eleições precisam ser incontestáveis, e aquilo me pareceu muito ruim”, afirmou.
Em seguida, Trump reforçou as críticas: “Acompanhei a eleição. Pareceu tão, tão corrupta, tão terrível”.
Governo Trump adiou comunicado sobre o resultado
As declarações ocorreram depois de o republicano evitar se manifestar sobre a vitória de Lula no domingo (25). Segundo informações divulgadas pela Folha, o governo americano decidiu adiar a publicação de um comunicado que parabenizaria a população brasileira pela eleição presidencial.
O texto já estava preparado no Departamento de Estado dos Estados Unidos, como costuma ocorrer após eleições em outros países. A publicação, porém, foi suspensa para que a administração Trump pudesse avaliar a situação depois de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato derrotado, afirmar que não reconhecia a vitória de Lula e pedir a anulação do pleito.
A reação do senador foi relacionada a questionamentos sobre a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin de prorrogar o horário de votação. Após a declaração de Flávio, integrantes do governo americano procuraram aliados do parlamentar para saber se ele reconheceria o resultado das urnas.
Segundo pessoas próximas ao senador ouvidas pela reportagem, integrantes da administração Trump preferiram aguardar uma definição sobre a postura do candidato derrotado antes de decidir como se manifestariam oficialmente sobre a eleição brasileira.
No domingo, Trump já havia evitado declarar apoio a qualquer um dos candidatos. Ao deixar a Casa Branca, limitou-se a dizer que acompanhava a disputa. “Não quero entrar nesse assunto, mas estamos acompanhando”, afirmou a jornalistas.
Cautela após tensões entre Washington e Brasília
A postura de Trump contrasta com manifestações de apoio feitas pelo presidente americano em outras disputas eleitorais na América Latina. A cautela ocorre após um período de tensões entre Washington e o governo Lula, marcado por tarifas comerciais, restrições contra autoridades brasileiras e críticas americanas a decisões do Judiciário.
Apesar da proximidade com a família Bolsonaro, Trump não declarou apoio formal a Flávio durante a campanha. De acordo com reportagem do jornal americano The Washington Post, publicada após o primeiro turno, a discrição foi uma decisão estratégica, motivada pelo receio de que uma manifestação do republicano pudesse favorecer Lula.
A preocupação estava relacionada aos efeitos políticos de medidas adotadas anteriormente pelo governo americano contra o Brasil. Em julho de 2025, Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e associou a decisão ao processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, então acusado de tentativa de golpe de Estado.
O governo dos Estados Unidos também impôs restrições de visto a autoridades brasileiras e sanções financeiras ao ministro Alexandre de Moraes, do STF. Lula reagiu acusando Washington de interferir na soberania nacional e passou a explorar politicamente o tema.
Crise comercial teve reflexos na avaliação do governo Lula
A reação de Lula às tarifas americanas encontrou respaldo em pesquisas de opinião citadas pela reportagem. Segundo levantamentos da Genial/Quaest, a aprovação do governo federal, que estava em 40% em maio de 2025, subiu para 43% em julho e chegou a 46% em agosto, durante o agravamento da crise comercial com Washington.
As pesquisas também indicaram avaliação positiva da resposta do presidente brasileiro às tarifas e opiniões negativas sobre a atuação de Bolsonaro e de seus aliados no episódio.
Um assessor do governo americano ouvido pelo Washington Post, sob condição de anonimato, afirmou que a orientação era evitar manifestações que pudessem ser interpretadas como interferência nas eleições brasileiras.
Segundo o assessor, quando Lula utilizava as ações de Trump para argumentar que os Estados Unidos tentavam pressionar ou tirar vantagem do Brasil, a mensagem encontrava receptividade entre os eleitores. Quando Washington se afastava da disputa, acrescentou, o debate voltava a se concentrar em questões internas do país.
O comentarista político Paulo Figueiredo, aliado de Flávio Bolsonaro, também afirmou ao jornal americano que as tarifas impostas por Trump prejudicaram o senador nas pesquisas em um momento delicado da campanha.
Trump havia elogiado resultado de Flávio no primeiro turno
Apesar de evitar um apoio formal durante a campanha, Trump elogiou o desempenho de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Na ocasião, o senador terminou à frente de Lula, com cerca de 47% dos votos válidos, ante 45% do presidente.
“Foi uma grande vitória, apertada, mas uma vitória muito, muito grande. Incrível, na verdade”, afirmou o republicano no dia seguinte à votação. Naquele momento, Trump também declarou esperar uma disputa acirrada no segundo turno.
A relação entre Brasil e Estados Unidos atravessou sucessivas crises desde o retorno de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025. Além das disputas comerciais, o governo americano adotou medidas contra autoridades brasileiras e criticou decisões do Supremo Tribunal Federal, em uma ofensiva defendida por integrantes da família Bolsonaro nos Estados Unidos.
O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que está no país desde o ano passado, atuou junto a autoridades americanas em defesa de sanções contra integrantes do governo brasileiro e do Judiciário. Ele também trabalhou para aproximar Flávio de Trump, que recebeu o senador na Casa Branca antes da eleição.
Publicado originalmente em infoverus.com.br



