Endividamento das famílias supera 50% da renda e inadimplência bate recorde no Brasil
Dados do Banco Central mostram que o comprometimento da renda também atingiu o maior nível da série histórica; juros elevados, desaceleração econômica e piora na capacidade de pagamento preocupam analistas e bancos

O endividamento das famílias brasileiras ultrapassou, pela primeira vez, a marca de 50% da renda anual. Dados divulgados pelo Banco Central (BC) mostram que o indicador chegou a 50,1% em agosto, o maior percentual desde o início da série histórica, em janeiro de 2005. Ao mesmo tempo, a inadimplência das pessoas físicas em operações de crédito com recursos livres atingiu 8,1% em setembro, também um recorde.
O cenário é atribuído, principalmente, ao custo elevado dos empréstimos e ao aumento da parcela da renda comprometida com o pagamento de dívidas. A situação ocorre às vésperas de uma nova decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que anunciará na próxima quarta-feira o patamar da taxa básica de juros, a Selic. O mercado acompanha a possibilidade de continuidade ou interrupção do ciclo de redução dos juros iniciado em março.
O índice de endividamento divulgado pelo BC representa a proporção entre o total das dívidas das famílias e a renda acumulada em 12 meses. O cálculo utiliza como referência a Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias (RNDBF).
Já o comprometimento de renda mede quanto do salário mensal é destinado ao pagamento de dívidas. Em agosto, esse indicador também alcançou o maior nível da série, chegando a 29%, ante 28,8% em julho.
O chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central, Fernando Rocha, afirmou que o endividamento mantém uma trajetória de alta, embora tenha apresentado pequenas oscilações nos últimos meses.
“Muito embora o endividamento das famílias esteja oscilando já há vários meses, em especial neste ano inteiro, entre 49,7% e 49,9% da renda anual das famílias, subiu adicionalmente em agosto, chegando a 50,1%”, comentou.
Na semana passada, o Banco Central anunciou medidas para restringir a oferta ativa e personalizada de modalidades de crédito com juros elevados a determinados grupos de consumidores. A iniciativa é direcionada a pessoas com renda insuficiente para garantir o mínimo existencial, baixa escolaridade e pouco conhecimento sobre produtos financeiros, além de quem recorre repetidamente a empréstimos emergenciais ou apresenta dívidas vencidas de forma recorrente.
O presidente do BC, Gabriel Galípolo, informou que outras medidas devem ser anunciadas ainda este ano.
Inadimplência também avança
Além do endividamento, a dificuldade de pagamento das dívidas preocupa as instituições financeiras. Em setembro, a inadimplência das pessoas físicas nas operações com recursos livres subiu 0,1 ponto percentual, alcançando 8,1% e renovando o recorde histórico.
Considerando todas as operações de crédito, tanto de pessoas físicas quanto jurídicas, a inadimplência média da economia permaneceu em 5%. O percentual representa o maior patamar da série histórica.
A economista Sara Paixão, analista de macroeconomia da InvestSmart XP, avalia que programas de renegociação, como o Desenrola, não foram suficientes para eliminar fatores estruturais que pressionam os índices. Entre eles estão as taxas de juros elevadas e o comprometimento crescente da renda.
Ela também alerta que uma possível desaceleração da atividade econômica em 2027 pode dificultar ainda mais a situação financeira das famílias, especialmente se houver reflexos sobre o mercado de trabalho.
“Um crescimento mais fraco [do PIB] pode afetar a geração de empregos e elevar o desemprego, comprometendo a capacidade de pagamento das famílias e dificultando a queda da inadimplência.”
Para Rubens Sardenberg, diretor de Economia, Regulação Prudencial e Riscos da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), os dados indicam que a inadimplência ainda deve continuar avançando, embora o ritmo de deterioração seja menos intenso.
“Dá a impressão que é um processo que continua. Não é agudo, essa fase pior parece já ter passado, mas ainda tem um movimento para acontecer.”
Uma pesquisa periódica realizada pela Febraban com bancos associados estima que a inadimplência do crédito com recursos livres, considerando pessoas físicas e jurídicas, chegue a 6,1% no fim deste ano. Para dezembro de 2027, a projeção é de 5,9%.
Em relatório, o Goldman Sachs também apontou dificuldades para o mercado de crédito nos próximos meses. O banco avalia que a desaceleração econômica, o avanço da inadimplência e os níveis recordes de endividamento e comprometimento da renda devem limitar as condições de concessão de empréstimos.
“Contudo, a atividade de concessão de crédito por parte de bancos públicos, somada a linhas de crédito fomentadas pelo governo federal e por essas instituições, deve continuar a sustentar o ciclo de crédito.”
Os analistas do Citi destacaram que, apesar da estabilidade da inadimplência geral em 5%, a qualidade dos ativos financeiros continua piorando entre as pessoas físicas.
No crédito consignado privado, a inadimplência aumentou 20 pontos-base em relação ao mês anterior, chegando a 10,8%. Nos cartões de crédito, a alta foi de 10 pontos-base, para 10%. Já no crédito pessoal, o índice permaneceu em 11,1%.
A pressão também aparece nos balanços dos grandes bancos. Durante a apresentação dos resultados do terceiro trimestre, antes do segundo turno das eleições, o presidente-executivo do Bradesco, Marcelo Noronha, afirmou que o ambiente econômico está mais difícil, independentemente dos fatores eleitorais, e que o aumento da inadimplência atinge todo o setor financeiro.
“Vejo um horizonte de maior pressão, mas tenho segurança que nossa carteira é muito mais controlada do que o mercado”, comentou.
No Bradesco, a inadimplência chegou a 4,6% em setembro. Em junho, estava em 4,3%, enquanto em setembro do ano passado era de 4,1%.
No Santander, o indicador passou de 3,3% em junho para 3,4% em setembro. Um ano antes, estava em 2,8%. O banco informou que a piora foi mais concentrada entre clientes de baixa renda e no agronegócio.
Segundo o vice-presidente financeiro da instituição, Carlos Muñiz, a deterioração nos cartões de crédito, que antes estava concentrada nos consumidores de menor renda, começa a atingir também parte da faixa de renda intermediária.
“Em alta renda PF e também em empresas, temos tido um comportamento razoavelmente bom.”
Juros e cenário fiscal entram no radar
A decisão do Copom na próxima quarta-feira ganhou ainda mais atenção diante da piora dos indicadores de crédito. O economista Leandro Padulla, do ASA, considera que o Banco Central ainda pode reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual, levando a taxa para 13,5%. No entanto, a deterioração recente dos ativos financeiros, em reação à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), aumentou a possibilidade de manutenção dos juros.
Segundo ele, a chance de o BC interromper o ciclo de cortes cresceu significativamente.
“Caso confirme o corte, esperamos que o Comitê adote um tom mais cauteloso, reconhecendo que a piora das condições financeiras reduziu o espaço para a continuidade da flexibilização monetária. Nesse cenário, a sinalização mais provável seria uma pausa em dezembro.”
Para Sardenberg, da Febraban, a evolução da inadimplência em 2027 dependerá do desempenho da economia e das decisões do novo governo Lula, principalmente em relação à política fiscal.
Ele observa que a atividade econômica está perdendo força, o que pode afetar o emprego, enquanto as famílias já destinam uma parcela elevada da renda ao pagamento de dívidas. Por outro lado, os bancos adotam uma postura mais cautelosa e reduzem o ritmo de concessão de linhas consideradas arriscadas.
“Estamos em um contexto em que a economia está desacelerando, não há dúvidas sobre isso, e pode ter efeito sobre o emprego, sendo que o comprometimento de renda das famílias já está bastante elevado. Por outro lado, os bancos estão cautelosos, e linhas mais arriscadas estão desacelerando. Então, se o governo der um endereçamento para a questão fiscal, podemos ter uma piora na inadimplência que vai se reduzindo na margem. Agora, se houver um cenário em que o mercado continua precificando uma curva de juros muito alta, aí pode ter uma piora adicional importante [na inadimplência]”.
Nubank pode ser afetado por novas regras
As perspectivas de piora no crédito também levaram o Itaú BBA a revisar suas projeções para o Nubank. Em análise divulgada na quarta-feira (28), a instituição reduziu as estimativas de lucro da fintech para 2027. O relatório aponta que as condições do crédito para pessoas físicas continuam se deteriorando e que os consumidores de baixa renda e as operações sem garantia, segmentos nos quais o Nubank tem maior presença, devem sentir mais os efeitos.
O banco também destacou o risco de novas medidas macroprudenciais em estudo pelo Banco Central. Entre as possibilidades estão exigências mais rigorosas para determinados produtos de crédito, fiscalização mais próxima da capacidade de pagamento dos clientes e critérios mais rígidos para avaliar se o consumidor tem condições financeiras de assumir uma dívida.
“As medidas em avaliação incluem requisitos prudenciais mais rigorosos para determinados produtos de crédito, um monitoramento mais atento da capacidade de pagamento dos tomadores e uma ênfase maior na adequação e na viabilidade financeira (capacidade de arcar com o pagamento) no momento da concessão do crédito”.
Um executivo do setor financeiro avalia que a aplicação das novas regras exigirá mudanças operacionais complexas, mas considera provável que o BC avance com restrições. Uma das alternativas discutidas é elevar o fator de ponderação de risco (FPR) aplicado às operações de cartão de crédito.
“ O FPR está na mesa, sim, mas tenho dúvidas sobre a eficácia. Se você aumenta o custo, isso pode ter de um lado uma redução na oferta, mas de outro um aumento do preço para o consumidor final. É uma equação que não é simples.”
Publicado originalmente em infoverus.com.br



