Fim das bets pode estar levando dinheiro de volta aos supermercados, aponta Assaí
Executivos identificam sinais de melhora no consumo no quarto trimestre, sobretudo no interior e em bairros de menor renda

O Assaí Atacadista já identifica sinais de melhora no consumo neste quarto trimestre e avalia que as restrições às apostas online podem estar contribuindo para aliviar o orçamento das famílias. A percepção é de que parte do dinheiro antes destinado às bets pode voltar a circular no comércio, inclusive na compra de alimentos e produtos de uso cotidiano nos supermercados.
A avaliação foi apresentada pelo CEO da companhia, Belmiro Gomes, pelo diretor financeiro, Rafael Sachete, e pela gerente de relações com investidores, Gabrielle Helu, durante encontro com analistas do BTG Pactual. Segundo relatório do banco, a administração da rede observa sinais de recuperação especialmente em cidades do interior e bairros de menor renda, segmentos nos quais o orçamento doméstico tem peso importante nas decisões de consumo.
O movimento é observado após um terceiro trimestre difícil para o varejo alimentar. Com o dinheiro mais curto, consumidores passaram a priorizar produtos baratos e reduzir gastos em determinadas categorias. Segundo os executivos, essa mudança de comportamento perdeu força, embora ainda afete segmentos como o de produtos de limpeza.
Supermercados podem sentir efeitos das restrições
Na avaliação dos analistas do BTG Pactual, os supermercados podem estar entre os primeiros setores beneficiados caso as famílias reduzam os gastos com apostas e direcionem uma parcela maior da renda para compras essenciais. A hipótese é que a diminuição das despesas com jogos online abra espaço no orçamento para produtos que haviam perdido prioridade diante da pressão financeira.
A percepção dos executivos, porém, não significa que já seja possível atribuir a melhora das vendas exclusivamente às restrições às bets. O cenário também depende da renda disponível, dos preços dos produtos e da disposição dos consumidores para ampliar o volume de compras.
Os analistas avaliam que uma recuperação mais consistente do consumo em 2027 exigirá melhora do poder de compra e crescimento efetivo do volume vendido. Assim, embora os primeiros sinais sejam acompanhados pelo setor, a continuidade desse movimento ainda depende de fatores econômicos mais amplos.
Restrições às bets alteram movimentação financeira
A proibição das bets no Brasil entrou em vigor em 25 de setembro, por meio de uma medida provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A partir da vigência da medida, as plataformas ficaram impedidas de receber novos depósitos e, desde 6 de outubro, tiveram de retirar seus sites e aplicativos do ar.
A medida também estabeleceu prazo até esta quarta-feira para que bancos e instituições financeiras devolvam cerca de R$ 1,3 bilhão que permaneceu nas contas de 26,5 milhões de apostadores. A mudança interfere diretamente na movimentação financeira ligada às plataformas, mas ainda é necessário observar como seus efeitos se distribuem entre consumo, poupança e outras despesas das famílias.
Para o varejo alimentar, a questão central é se uma eventual redução dos gastos com apostas se converterá em maior demanda por produtos básicos. Os sinais observados pelo Assaí indicam uma possibilidade nessa direção, mas ainda não demonstram, isoladamente, uma relação direta de causa e efeito.
Pesquisa aponta pressão das apostas sobre pequenos negócios
O impacto das apostas online sobre o orçamento dos consumidores também aparece em um levantamento recente do Sebrae. A pesquisa, realizada com 1.028 donos de pequenos negócios e divulgada em outubro, mostrou que 33% dos entrevistados perceberam redução no poder de compra dos clientes. Outros 26% relataram queda no faturamento que associam ao avanço dos jogos.
Os resultados refletem a percepção dos empresários sobre as dificuldades enfrentadas pelo comércio diante da disputa pela renda das famílias. Quando uma parcela maior do orçamento é direcionada a apostas, sobra menos dinheiro para outras despesas, o que pode afetar as compras em estabelecimentos de diferentes segmentos.
O levantamento, contudo, não mediu os efeitos das restrições às bets sobre as vendas nem permite calcular quanto do dinheiro anteriormente destinado às apostas poderá retornar ao consumo. Por isso, os dados ajudam a dimensionar a preocupação dos comerciantes, mas não comprovam que a mudança nas regras já tenha provocado uma recuperação do varejo.
Publicado originalmente em infoverus.com.br



