Futuro presidente da Aprosoja-MT defende fim do Fethab II e diz que produtores não conseguem mais pagar contribuição
Em entrevista ao PodOlhar, Luiz Pedro Bier afirmou que o endividamento e a queda das margens de lucro tornam a cobrança insustentável e também criticou a imagem de ostentação associada ao agronegócio

O futuro presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Luiz Pedro Bier, defendeu o encerramento da cobrança do Fundo Estadual de Transporte e Habitação (Fethab II), previsto para 2027. Segundo ele, a situação financeira dos produtores rurais não permite a continuidade da contribuição, mesmo diante da necessidade de investimentos em infraestrutura rodoviária. O dirigente também contestou a imagem de riqueza e ostentação frequentemente associada ao agronegócio, afirmando que ela não representa a realidade da maioria dos agricultores.
Em entrevista ao PodOlhar, videocast do Olhar Direto, Bier afirmou que o governador Otaviano Pivetta (Republicanos) reafirmou recentemente o compromisso de encerrar a cobrança do Fethab II. De acordo com o dirigente, os recursos provenientes da contribuição já não aparecem na previsão orçamentária apresentada pelo governo estadual.
Embora reconheça que o fundo foi importante para financiar obras de infraestrutura e melhorar as condições de escoamento da produção, Bier avalia que o atual cenário de endividamento e redução das margens de lucro impede que os agricultores continuem arcando com o custo.
"Contribuir com o Estado quando as obras são feitas, que foi o que aconteceu, para nós é ótimo. Aumenta a eficiência logística. Eu não gosto de andar no pó, ninguém gosta. Frete caro. O problema é que na situação que estamos não cabe discussão. A conta já não fecha", declarou.
Para ilustrar as dificuldades enfrentadas no campo, o produtor citou sua experiência em Gaúcha do Norte, município onde mantém uma propriedade rural. Segundo ele, a primeira ligação asfáltica completa da cidade foi concluída há apenas quatro meses. Mesmo com o avanço, ainda precisa utilizar duas rotas sem pavimentação para transportar a produção e enfrenta problemas recorrentes com pontes danificadas.
"Volta e meia eu fico sem ponte para levar a minha soja que está sendo colhida para o armazém. Acontece com frequência, porque a ponte cai, estraga, aí tem que arrumar", relatou.
Apesar de conviver com problemas de infraestrutura, Bier afirmou que a prioridade, neste momento, deve ser reduzir os custos dos produtores. Ele destacou que o Fethab II incide sobre o faturamento da atividade, e não sobre o lucro, o que aumenta o peso da cobrança em um período de rentabilidade menor.
"Quando a fazenda não tem dinheiro, eu não compro trator. Se a agricultura não tem dinheiro para pagar asfalto, não faz asfalto da maneira que estava fazendo", comparou.
O futuro presidente da Aprosoja-MT também mencionou o empréstimo de R$ 1,5 bilhão contratado pelo governo estadual como uma alternativa para ajudar a compensar a redução dos recursos destinados às obras de infraestrutura.
"Não pode sangrar o produtor nesse momento. E quem está falando é um produtor que tem duas saídas sem asfalto", reforçou.
Imagem de ostentação não representa maioria dos produtores
Durante a entrevista, Bier também questionou a percepção de que o agronegócio é formado majoritariamente por grandes proprietários rurais com elevado poder aquisitivo. Para ele, o próprio setor contribuiu, em parte, para construir essa imagem, que não corresponde ao cotidiano da maioria dos agricultores de Mato Grosso.
"Talvez até um pouco da culpa é do setor. Não só do setor, mas criou-se uma imagem que o agro é rico, que só tem milionário, e não é a realidade", afirmou.
O dirigente apontou as redes sociais como um dos fatores que reforçam essa percepção, especialmente pela exposição de veículos de luxo e demonstrações de riqueza, conteúdos que costumam gerar maior repercussão e engajamento.
"E o Instagram, gente, hoje em dia, ele dá uma falsa impressão de muita coisa. Aí vê caminhonetona, vê ostentação do agro, é o que gera like, né? Mas não é a realidade", criticou.
Em contraponto, Bier descreveu o perfil dos produtores com quem convive, destacando a simplicidade dos trabalhadores que acompanham diretamente as atividades nas propriedades, mesmo em um setor que exige investimentos constantes em tecnologia e maquinário.
"O agricultor que eu conheço é o agricultor que vai trabalhar de chinelo, shorts do Palmeiras. É, vai lá em cima do trator, cara. Assim, é uma pessoa simples, é um cara que trabalha muito", declarou.
Bier também defendeu a eficiência da agricultura mato-grossense e afirmou que os produtores devem receber uma remuneração compatível com os resultados alcançados pelo setor. Segundo ele, as grandes distâncias entre as regiões produtoras e os centros urbanos contribuem para que parte da população não compreenda as dificuldades enfrentadas no campo.
"Não é tanto a agro ostentação assim. Isso tem, mas são menos", concluiu.
Eleição da Aprosoja-MT
Luiz Pedro Bier é o candidato à presidência da Aprosoja-MT na eleição marcada para 9 de novembro. Atual vice-presidente da entidade, ele lidera a chapa única Aprosoja Decidida, que tem Diego Francisco Bertuol como candidato a vice-presidente. Mais de 9 mil associados estão aptos a participar da votação. Caso eleito, Bier comandará a associação no triênio 2027/2029.
No episódio do PodOlhar, o dirigente também aborda o endividamento rural, as dificuldades de acesso ao crédito e os riscos climáticos para a safra 2026/2027. Outro assunto tratado é a relação da Aprosoja com os governos estadual e federal.
Bier ainda responde às críticas sobre a politização da entidade e defende a manutenção do diálogo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mesmo diante das divergências ideológicas de parte dos produtores em relação ao governo federal.
A entrevista completa está disponível no canal do Olhar Direto no YouTube e nas principais plataformas de podcast.
Publicado originalmente em infoverus.com.br



