Gaeco investiga R$ 3,1 milhões movimentados por Dr. Miguel e repasses ligados a empresa da família
Relatório financeiro aponta transferências entre contas próprias, pagamentos ao pai e movimentações com empresários

O vereador Miguel Júnior, conhecido como Dr. Miguel (Cidadania), movimentou R$ 3,17 milhões em sua conta pessoal entre julho e dezembro de 2025, segundo relatório financeiro analisado no âmbito da Operação Cathedra Venalis. A investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) também examina transferências envolvendo o parlamentar, familiares e empresários, além de possíveis repasses relacionados à empresa CEMED-VG, ligada ao núcleo familiar do vereador.
Dr. Miguel também é investigado por sua participação em encontros realizados em uma chácara no Distrito da Guia, onde parlamentares de Várzea Grande teriam se reunido às vésperas da eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal. A apuração busca esclarecer se houve negociação de apoio político mediante vantagens indevidas para viabilizar a reeleição de Wanderley Cerqueira (MDB) à presidência do Legislativo.
Relatório aponta movimentação de R$ 3,17 milhões
O levantamento financeiro analisou 15 indexadores em nome de Miguel Júnior, incluindo saques em dinheiro. No período de 1º de julho a 31 de dezembro de 2025, a conta pessoal do vereador movimentou exatamente R$ 3.170.953,00.
Entre os fluxos identificados estão R$ 802 mil em transferências entre contas próprias, R$ 585 mil em movimentações bilaterais com o empresário identificado pelas iniciais R.P.C. e R$ 98 mil em transações bilaterais com a CEMED-VG. O relatório também registra R$ 62 mil enviados ao pai do parlamentar, o ex-vereador Miguel Angel.
Outras movimentações incluem R$ 155 mil recebidos de C.A.S.J., R$ 102 mil provenientes da empresa Sky Limit e R$ 200 mil enviados a J.O.G. Os valores integram o conjunto de operações financeiras examinadas pelos investigadores para identificar a origem e a destinação dos recursos.
A movimentação financeira, por si só, não comprova a prática de crime. A apuração busca esclarecer a natureza das transações e verificar se há relação entre os valores identificados, os vínculos familiares e empresariais e as suspeitas investigadas pelo Gaeco.
Gaeco apura repasses envolvendo empresa da família
Outro eixo da investigação envolve a CEMED-VG, empresa apontada como ligada ao núcleo familiar de Miguel Júnior. O Gaeco apura se a companhia recebeu recursos públicos relacionados a fundos de saúde, organizações sociais e entidades do terceiro setor, além de examinar pagamentos que teriam sido direcionados ao vereador, ao pai dele e a empresários.
A empresa venceu, em 2020, uma licitação municipal de aproximadamente R$ 2 milhões, conforme os dados apresentados na investigação. Os investigadores procuram esclarecer se existe conexão entre recursos recebidos pela companhia e as movimentações financeiras identificadas nas contas de pessoas relacionadas ao parlamentar.
O inquérito ressalta, porém, que a proximidade entre valores e os vínculos familiares não são suficientes, isoladamente, para demonstrar que se trata dos mesmos recursos.
“A proximidade dos valores e o vínculo familiar são elementos relevantes, mas não demonstram, isoladamente, que se tratava dos mesmos recursos [...] Os apontamentos sobre possível triangulação, confusão patrimonial, movimentação em benefício de terceiros, atividade financeira informal, evasão fiscal, desvio de finalidade e movimentações relacionadas a licitações correspondem às avaliações das instituições comunicantes”, registra o documento.
Vereador foi alvo de busca e apreensão
Com base nos indícios reunidos durante a apuração, o juiz Cassio Leite Barros Netto autorizou mandados de busca e apreensão domiciliar, pessoal e veicular contra Miguel Júnior. As medidas foram cumpridas na terça-feira (20), durante a deflagração da Operação Cathedra Venalis.
O magistrado também autorizou o afastamento do sigilo telemático e a preservação de dados armazenados em nuvem vinculados às contas de e-mail institucional e pessoal do vereador. As diligências têm como objetivo reunir elementos que permitam esclarecer as suspeitas e individualizar a eventual participação dos investigados.
A operação alcança parlamentares de diferentes municípios. Ao todo, 13 vereadores de Várzea Grande e dois de Cuiabá estão entre os investigados, segundo as informações divulgadas sobre a ofensiva do Ministério Público.
Drone monitorou reunião em chácara no Distrito da Guia
Além das movimentações financeiras, a investigação envolve encontros realizados em uma propriedade rural de Miguel Júnior, no Distrito da Guia. Parlamentares de Várzea Grande permaneceram reunidos no local nos dias que antecederam a eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal, realizada em 14 de maio.
Durante o período, policiais do Gaeco monitoraram a movimentação por meio de um drone. Imagens obtidas pelo Olhar Direto mostram pessoas e veículos circulando dentro da propriedade, além de parlamentares em diferentes pontos da área externa da chácara.
A reunião ocorreu em meio à disputa pelo comando do Legislativo municipal no biênio 2027/2028. Wanderley Cerqueira disputava a presidência da Câmara com Lucas do Chapéu do Sol (PL), e o encontro teria como objetivo negociar apoio para a reeleição de Cerqueira, apontado no relato como organizador da reunião.
Na votação de maio, Wanderley venceu por 12 votos a 11. O resultado, entretanto, passou a ser contestado judicialmente e permanece travado no Judiciário. Segundo as informações fornecidas, a eleição foi anulada pelo Supremo Tribunal Federal por ter ocorrido de forma antecipada, e a definição sobre o pleito segue pendente.
Operação investiga suspeita de compra de apoio político
As suspeitas relacionadas ao encontro na chácara passaram a integrar a investigação que resultou na Operação Cathedra Venalis, deflagrada em 20 de outubro. O Gaeco apura a possível negociação de apoio político mediante vantagens indevidas durante a eleição interna da Câmara de Várzea Grande.
A operação cumpriu mandados de busca e apreensão em Cuiabá, Várzea Grande e Chapada dos Guimarães, a cerca de 65 quilômetros da capital. De acordo com informações divulgadas pelo Ministério Público, a finalidade é reunir provas para esclarecer as circunstâncias da disputa pela Mesa Diretora e identificar a eventual participação de cada investigado.
No caso de Dr. Miguel, a apuração reúne duas frentes centrais: a análise das movimentações financeiras e dos possíveis repasses ligados à CEMED-VG e a investigação sobre os encontros entre vereadores antes da votação. Até que os fatos sejam esclarecidos, os apontamentos permanecem no campo das suspeitas investigadas pelas autoridades.
Publicado originalmente em infoverus.com.br

