Grupo Scheffer mira 100 mil hectares na Colômbia e aposta em ‘Mato Grosso colombiano’
Grupo agrícola já cultiva 6 mil hectares no país e pretende ampliar operação em uma região vista como nova fronteira para soja e milho

O Grupo Scheffer, um dos maiores grupos agrícolas do Brasil, está ampliando sua aposta na Colômbia e estabeleceu uma meta ambiciosa para os próximos anos: chegar a 100 mil hectares de soja e milho cultivados no país em uma década. A companhia, que já possui mais de 230 mil hectares de área cultivada em Mato Grosso e no Maranhão, iniciou a operação colombiana em 2020.
A expansão está concentrada no departamento de Vichada, no leste da Colômbia, na região da Orinoquia, uma área de savana próxima à fronteira com a Venezuela. Atualmente, o grupo cultiva cerca de 6 mil hectares no local, mas avalia que existe espaço para transformar a operação em uma nova fronteira agrícola de grande escala.
“O que a Scheffer fez no Brasil, queremos fazer lá também”, resumiu Guilherme Scheffer, diretor financeiro e comercial do grupo e um dos herdeiros da empresa.
Região é vista como nova fronteira agrícola
A estratégia da família Scheffer ocorre em meio ao movimento de grandes produtores brasileiros que passaram a buscar novas áreas fora do país. Depois da expansão pelo Cerrado nas últimas décadas, grupos agrícolas começaram a olhar para regiões com potencial produtivo e custos de terra mais baixos.
Na Colômbia, entretanto, o desafio é maior do que em países como Bolívia e Paraguai, que já recebem há anos produtores, empresas e investidores brasileiros. O país ainda possui uma produção relativamente pequena de soja e milho e depende de importações para abastecer o mercado interno.
Na safra 2025/2026, foram semeados 370 mil hectares de milho e 50 mil hectares de soja na Colômbia, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). No ano passado, o país importou 552,6 mil toneladas de soja e derivados e 7,3 milhões de toneladas de milho, conforme dados da Federação Nacional de Produtores de Cereais, Leguminosas e Soja (Fenalce).
Para Scheffer, a expansão exigirá praticamente a construção de toda uma estrutura ao redor das propriedades, desde estradas e assistência técnica até mão de obra e maquinário.
“Tem que fazer estrada. Não tem assistência técnica. Não tem mão de obra qualificada. Você tem que fazer tudo, começar do zero”, afirmou.
‘Mato Grosso colombiano’
A região onde o Grupo Scheffer está instalado ganhou ainda mais atenção com a chegada de Abelardo de la Espriella à Presidência da Colômbia. Segundo o texto, o novo governo demonstrou interesse em transformar a Orinoquia em uma espécie de “Mato Grosso colombiano”, aproveitando o potencial agrícola da região.
Espriella chegou a visitar a operação dos Scheffer no fim de julho, conhecendo as áreas onde a empresa produz soja e milho. Em encontros realizados posteriormente, também teria tido contato com propostas de desenvolvimento de longo prazo para a região, inspiradas na transformação agrícola de Mato Grosso.
O projeto prevê uma expansão gradual da produção de soja e milho na Orinoquia. Na primeira etapa, entre 2026 e 2030, a proposta estima alcançar 3 milhões de toneladas. Entre 2030 e 2034, a produção chegaria a 8 milhões de toneladas e, no horizonte de 2045, poderia atingir 20 milhões de toneladas.
Para Guilherme Scheffer, o novo governo colombiano criou um ambiente mais favorável para investimentos. Ele avalia que a gestão de Espriella demonstra maior disposição para atrair capital e oferecer segurança jurídica aos investidores.
“A gente acredita que o novo presidente é muito mais, vamos dizer, ‘business friendly’. Independentemente se é direita ou esquerda, é muito mais amigável. Está atraindo muito capital, muito investidor e está com algumas propostas para dar mais segurança jurídica aos investidores, não só os internacionais, mas investidores em geral”, afirmou.
Segurança da terra é desafio
Apesar do potencial, a segurança jurídica sobre a propriedade da terra aparece como um dos principais obstáculos para a expansão agrícola. Segundo Scheffer, a existência de áreas com informalidade na posse e regras específicas para exploração dificulta investimentos de longo prazo.
Entre os instrumentos existentes estão as Unidades Agrícolas Familiares (UAF), criadas para estabelecer a quantidade de terra considerada necessária para que uma família camponesa desenvolva sua atividade produtiva.
“Se você não tem segurança do título da terra, você não investe. Você não investe num negócio que pode não ser seu, que você pode perder”, afirmou.
O executivo acompanha, por isso, os movimentos do governo colombiano relacionados à política fundiária. Entre as diretrizes anunciadas pelo Ministério da Agricultura estão o aumento da produção, ampliação do crédito, financiamento de mecanização e irrigação e reorganização da política de terras.
Uma das metas é incorporar 1,5 milhão de hectares à área produtiva nos próximos quatro anos. O governo também pretende estabelecer um sistema especial para a região da Orinoquia.
Scheffer também amplia área em Mato Grosso
Enquanto constrói a operação colombiana, o Grupo Scheffer mantém o plano de expansão no Brasil. Em Mato Grosso, a companhia já iniciou mais uma safra de grãos e prevê crescimento de aproximadamente 10% na área plantada neste ciclo, considerando a safra de verão e a safrinha.
O início do plantio da soja, porém, ocorreu com atraso em relação à temporada anterior por causa da menor ocorrência de chuvas. Segundo Guilherme Scheffer, no mesmo período do ano passado o plantio estava em cerca de 35%, enquanto neste ano chegou a aproximadamente 25%.
“No ano passado, nessa mesma época, o plantio estava em 35%. E, neste ano, está em uns 25%”, disse. “Não está aquela chuva geralzona ainda. As chuvas estão ‘manchadas’, como a gente fala.”
Ainda não é possível estimar a produtividade da safra, segundo o executivo. O cenário climático, porém, pode afetar também o calendário do milho de segunda safra caso as chuvas não se regularizem.
“Daqui a 15, 20 dias, se não chover geral, pode atrasar o plantio de milho. A segunda safrinha pode ficar um pouquinho fora da janela se continuar seco.”
Enquanto a operação brasileira segue em expansão, a aposta colombiana representa um projeto de longo prazo para o grupo: transformar os atuais 6 mil hectares cultivados em Vichada em uma operação de até 100 mil hectares, reproduzindo na nova fronteira agrícola parte da trajetória construída pela família no Cerrado brasileiro.
Publicado originalmente em infoverus.com.br
