Liquidante do Master liga mansões de Daniel Vorcaro nos EUA a lavagem de R$ 2 bilhões
Pedido à Justiça americana aponta movimentações financeiras no exterior e solicita indisponibilidade de três imóveis de luxo em Aspen e Miami; operações envolveriam fundos ligados a intermediários

O liquidante do Banco Master informou à Justiça dos Estados Unidos ter identificado movimentações de mais de R$ 2,15 bilhões, em valores atualizados, que teriam saído da instituição financeira e circulado por fundos no exterior. Em pedido protocolado nesta quarta-feira (7), a EFB Regimes Especiais de Empresas solicitou o bloqueio de três mansões nos Estados Unidos que, segundo a investigação, foram adquiridas por Daniel Vorcaro com recursos desviados do banco.
O documento, apresentado ao Tribunal de Falências do Sul da Flórida, tem 54 páginas e contém diversos trechos sob sigilo. A peça descreve operações financeiras internacionais e pede a indisponibilidade dos imóveis, avaliados em conjunto em centenas de milhões de reais.
Parte das transações apontadas pelo liquidante teria contado com a participação de Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro. Ele também é citado em outra investigação envolvendo a transferência de US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 69 milhões, para o fundo americano Havengate, administrado por um advogado próximo do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). O dinheiro supostamente financiaria o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro.
Embora o pedido apresentado pela EFB não trate diretamente dessa investigação, ele descreve operações que também envolveram transferências de recursos de Vorcaro para fundos nos Estados Unidos por meio de empresas ligadas a Mineiro. Recentemente, o Ministério Público de São Paulo apontou que o Grupo Entre, controlado por ele, teria se especializado em operações de lavagem de dinheiro.
Caminho dos recursos
Segundo o liquidante, uma das rotas financeiras começou com aportes de centenas de milhões de dólares do Banco Master em fundos offshore nas Bahamas. Em uma das primeiras operações, o fundo Liquidity Strategies recebeu US$ 187,5 milhões.
Os recursos foram posteriormente direcionados aos fundos OGP LatAm e Entre Investments, ambos controlados por Mineiro. Outra parte do dinheiro teria seguido por um caminho diferente, passando pelos fundos Jaguar Cayman e Phoenix, ligados a Benjamin Botelho de Almeida, da Sefer Investimentos.
As duas rotas teriam convergido para o Mosaic Short Duration Fund, nas Bahamas, que recebeu ao todo US$ 430 milhões — aproximadamente R$ 2,15 bilhões na cotação atual. Desse montante, US$ 350 milhões foram emprestados à empresa Mosaic Group LLC.
Na sequência, a Mosaic Group transferiu os valores para duas companhias registradas em Delaware, nos Estados Unidos: Clear River Properties LLC e Goldbeach Properties LLC. Segundo o liquidante, essas empresas foram utilizadas na aquisição das mansões em Aspen, no Colorado, e em Miami, na Flórida.
Imóveis de luxo
A propriedade de Aspen foi comprada em 11 de abril de 2024 por US$ 77 milhões, equivalentes a R$ 385 milhões na época. O imóvel é apontado como a casa mais cara já adquirida no estado americano do Colorado.
Conforme o documento, o contrato inicial de compra e venda foi assinado em nome de Vorcaro. Posteriormente, os direitos sobre a propriedade foram transferidos para a Clear River Properties, em uma operação que, segundo o liquidante, teria sido feita para evitar que o banqueiro aparecesse formalmente como proprietário.
A empresa firmou então um contrato de aluguel de dez anos com Vorcaro, que teria direito ao uso da mansão. O liquidante afirma, porém, que o banqueiro nunca pagou os valores previstos e que a companhia também não cobrou os aluguéis.
Para a EFB, a ausência de pagamentos e de cobranças é um dos indícios de que o contrato seria fictício e de que o imóvel continuaria, na prática, pertencendo a Vorcaro. A suspeita é de que a compra tenha sido financiada com recursos retirados indevidamente do Banco Master, prejudicando correntistas e credores.
Em janeiro de 2025, a Goldbeach Properties adquiriu outra mansão, em Miami, por US$ 85 milhões, cerca de R$ 525 milhões na cotação da época. Assim como no caso de Aspen, Vorcaro teria firmado um contrato de aluguel por dez anos para utilizar o imóvel com exclusividade, mas nunca teria pago pelo uso.
Quando foi questionado pela Polícia Federal sobre a propriedade em Miami, conforme revelou o Metrópoles, o banqueiro afirmou que não possuía uma mansão na cidade, mas apenas alugava uma.
Um mês depois, a mesma empresa comprou uma segunda casa na região, localizada do outro lado da rua. O imóvel, de valor inferior aos anteriores, custou US$ 6,9 milhões, aproximadamente R$ 42 milhões na época.
Além das aquisições, as duas empresas teriam recebido outros US$ 56 milhões, equivalentes a R$ 280 milhões em valores atuais, destinados a obras, melhorias e manutenção das propriedades. Parte dos recursos também teria sido utilizada na compra de obras de arte.
Investigação continua
O pedido encaminhado ao Tribunal de Falências do Sul da Flórida não esclarece, nos trechos disponíveis sem tarjas, qual foi o destino de todo o dinheiro enviado pelo Banco Master ao Mosaic Short Duration Fund entre 2023 e 2025. O liquidante ressalta que as apurações sobre as movimentações financeiras continuam.
A coluna responsável pela publicação procurou a defesa de Daniel Vorcaro para comentar as informações, mas não recebeu resposta.
Publicado originalmente em infoverus.com.br


