Moraes e PF discutiram operação do Rio em reunião que provocou atrito no STF

A reunião da cúpula da Polícia Federal (PF) com Alexandre de Moraes no gabinete dele no Supremo Tribunal Federal (STF), no último dia 6, provocou apreensão em Brasília e motivou o pedido do ministro Luiz Fux para ter acesso à íntegra do inquérito das fake news – negado por Edson Fachin. Moraes é um dos principais alvos de escrutínio no caso do Banco Master por conta de suas ligações com Daniel Vorcaro, sobre as quais há inclusive um relatório da PF que está em análise no Supremo. Mas, de acordo com interlocutores do diretor-geral da Pol, Andrei Rodrigues, o assunto não era fake news e nem Master, e sim o planejamento de novas diligências da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 635, a chamada ADPF das Favelas.
A ADPF das Favelas é a ação relatada por Moraes que provocou abalos na política fluminense no último ano, com operações de busca e apreensão sobre o ex-governador Cláudio Castro (PL) e a prisão dos deputados estaduais Rodrigo Bacellar (União Brasil) e TH Joias (MDB), ambos acusados de envolvimento com o Comando Vermelho; Thiago Rangel (Avante), gravado negociando cargos na Secretaria estadual de Educação para parentes de um traficante, e Márcio Canella (União Brasil), detido preventivamente após um fuzil ser encontrado em seu carro durante uma busca e apreensão. Nesta quinta-feira, Canella e o ex-chefe da Polícia Civil do Rio Marcus Amim foram presos em mais uma etapa da investigação, agora sob a suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis para lavar dinheiro.
Além de Andrei, estavam na reunião com Moraes os diretores da Divisão de Crime Organizado (Dicor), Dennis Cali, de Inteligência (DIP), Leandro Almada, e subordinados das respectivas áreas. Apesar de pedidos de esclarecimento sobre o encontro, nem a PF nem o gabinete de Moraes explicaram o que foi discutido. Segundo fontes da PF, o assunto da reunião não foi divulgado por se tratar de inquérito sigiloso.
Quem conhece o andamento da investigação aposta que as próximas etapas da operação devem trazer dor de cabeça para o governador eleito do Rio de Janeiro, Douglas Ruas (PL), e sua futura base na Assembleia. Mas só depois do segundo turno da eleição presidencial. Em razão do período eleitoral e das críticas ao comportamento político de ministros do Supremo, as operações acabaram postergadas para depois da segunda rodada, marcada para o próximo dia 25.
‘ADPF dos Palácios’
A ADPF das Favelas foi ajuizada pelo PSB em 2019, mas ganhou notoriedade nacional em junho de 2020, quando o relator à época, Edson Fachin, concedeu a liminar que suspendeu operações policiais em comunidades do Rio durante a pandemia de Covid-19.
A ação foi assumida por Alexandre de Moraes em outubro de 2025, depois que Fachin se tornou presidente do tribunal e distribuiu parte dos seus processos.
A mudança ocorreu logo após a Operação Contenção, que deixou 122 mortos nos Complexos do Alemão e da Penha, quando Moraes determinou que a PF abrisse novas frentes de trabalho na tentativa de conter o crime organizado no Rio.
Um desses braços é a Operação Unha e Carne, que teve a primeira fase deflagrada no ano passado para apurar o vazamento de investigações sigilosas para o Comando Vermelho.
Em agosto passado, Andrei Rodrigues mencionou a prisão de deputados no bojo dessa investigação e chegou a declarar que a ADPF das Favelas havia se tornado a “ADPF dos Palácios”.
Reação de Fux
Nos bastidores do STF, a reunião foi interpretada por ministros alinhados a André Mendonça, relator do caso do Banco Master, como uma possível tentativa de reverter a decisão do presidente da Corte, Edson Fachin, de assumir o inquérito das fake news, que era relatado por Moraes até 9 de setembro.
Em reação, Luiz Fux solicitou ter acesso à íntegra dos autos da investigação e deu 48 horas para que a Secretária Judiciária da Corte atendesse o pleito.
O pedido acabou negado por Fachin, que alegou que diversas diligências mantidas sob sigilo estão em curso. O presidente do Supremo, porém, acenou na direção do arquivamento definitivo do inquérito.
O impasse ocorre um mês após o ápice da crise interna do STF, deflagrada pelo avanço das investigações do caso do Banco Master e a descoberta de mensagens e contratos do grupo de Daniel Vorcaro não apenas com Moraes, mas também com Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli.
Publicado originalmente em oglobo.globo.com



