Quase 70 anos após primeira deputada, mulheres terão apenas 2 das 24 cadeiras na Assembleia de MT
Eleição de Samantha do Abilio e Alessandra Ferreira renova a presença feminina na próxima legislatura, mas mantém baixa participação das mulheres no Parlamento estadual

Quase sete décadas separam a eleição de Oliva Enciso, primeira mulher a conquistar uma cadeira na Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), da chegada de Samantha do Abilio (PL) e Alessandra Ferreira (Podemos) ao Parlamento estadual. Eleitas no último domingo (4), as duas ocuparão, a partir de 2027, apenas duas das 24 cadeiras da Casa, um retrato da baixa presença feminina nos espaços de poder político no estado.
Oliva foi eleita em 1958, 26 anos depois da conquista do direito ao voto feminino no Brasil. Professora, com atuação nas áreas de educação e assistência social, ela também havia sido vereadora de Campo Grande antes de chegar à Assembleia para a 4ª Legislatura, entre 1959 e 1963, período em que Mato Grosso ainda não havia sido dividido.
A trajetória das mulheres na política mato-grossense, no entanto, começou a se desenhar antes da eleição de Oliva. A historiadora Dejenana Keila Oliveira Campos explica que, nas décadas de 1920 e 1930, a luta por direitos sociais e políticos já contribuía para ampliar a participação feminina na vida pública. Organizações de mulheres, educação e imprensa ajudaram a construir esse espaço, embora a conquista do voto não tenha garantido acesso imediato aos cargos eletivos.
Segundo a pesquisadora, a estrutura política estadual foi historicamente marcada pelo coronelismo, pelas relações familiares e por uma organização patriarcal. Enquanto a participação masculina na política era tratada como algo natural, as mulheres precisavam conquistar reconhecimento público por caminhos como a educação, a escrita e a atuação social.
A coordenadora do Núcleo de Estudos sobre a Mulher e as Relações de Gênero da Universidade Federal de Mato Grosso (Nuepom-UFMT), Madalena Rodrigues, também relaciona a baixa representação feminina às estruturas sociais construídas ao longo do tempo. “A política de Mato Grosso é uma política patriarcal, cercada pelos homens”, afirma. Para ela, as barreiras não se limitam ao gênero e também envolvem fatores de classe e raça.
Caminhos diferentes até a Assembleia
Ao longo das décadas, as mulheres chegaram à política por trajetórias distintas. De acordo com Dejenana, uma das portas de entrada em Mato Grosso foi o capital político familiar, com candidaturas impulsionadas pela trajetória de pais, maridos ou outros homens da família. A educação, os movimentos sociais e sindicais, a atuação profissional e os mandatos municipais também abriram caminhos para a disputa eleitoral.
A trajetória da ex-deputada estadual Vera Araújo, conhecida como Verinha, é ligada à educação e ao movimento sindical. Professora e dirigente do Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público de Mato Grosso (Sintep-MT), ela foi eleita vereadora de Cuiabá em 2000 e, dois anos depois, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa. Naquele pleito, foi a única mulher entre os 24 deputados estaduais eleitos.
Verinha conta que ocupar um espaço predominantemente masculino significava enfrentar questionamentos sobre sua capacidade. A cobrança, segundo ela, era diferente daquela imposta aos homens, que não precisavam justificar da mesma forma sua presença no poder.
“Se você faz essa opção, essa decisão de disputar o poder, você tem que provar que você dá conta, que você é competente. Senão eles vêm, dizem: ‘Ah, não deu conta porque é mulher'”, afirma.
Mulheres enfrentam cobrança dentro e fora da política
Além da disputa por espaço institucional, Verinha relata que a vida familiar também pesava durante sua atuação política. Mãe de três filhos, ela temia que qualquer dificuldade em casa fosse atribuída à decisão de ocupar um cargo público, como se a participação na política representasse uma falha no cumprimento das responsabilidades familiares.
“Eu sempre me preocupei muito com isso, porque eu percebo que, quando a mulher faz essa disputa de poder, ela acaba carregando com ela essa culpa de que nada dê errado com seus filhos, com a sua casa, com a sua família. Porque, se alguma coisa dá errado, ela vai ser culpada porque saiu para o espaço público”, relata.
Mesmo quando os cuidados com os filhos e as tarefas domésticas eram divididos com o companheiro, a preocupação permanecia. Para a ex-deputada, as mulheres continuam submetidas a uma cobrança dupla: precisam demonstrar competência na vida pública e, ao mesmo tempo, evitar que a atuação política seja vista como prejuízo à família.
“Quando a mulher faz essa opção de sair para disputa do espaço de poder, ela acaba sendo responsabilizada duplamente”, acrescenta.
Durante o mandato, Verinha participou de iniciativas relacionadas à educação, à saúde e à fiscalização do poder público. Entre as propostas estão a legislação sobre o tempo de espera nas filas de bancos, uma medida de combate ao nepotismo e a lei que instituiu o Dia Estadual de Controle à Anemia Falciforme. Outra proposta transformada em lei garantiu meia-entrada a professores da rede pública estadual em estabelecimentos de lazer, entretenimento e difusão cultural.
Número de candidatas não garante acesso ao poder
A cientista política Christiany Fonseca avalia que a maioria feminina no eleitorado não se converte automaticamente em representação proporcional nos espaços políticos. Para chegar a um mandato, as mulheres precisam ter acesso aos partidos, recursos para a campanha, redes de apoio e condições reais de competir com outros candidatos.
“É preciso conseguir entrar, competir, vencer e depois permanecer na política”, resume.
A pesquisadora ressalta que a quantidade de candidaturas registradas, isoladamente, não revela as condições efetivas de participação. Uma mulher pode estar formalmente na disputa sem receber do partido o mesmo tratamento ou prioridade destinada a candidaturas consideradas competitivas. A divisão das responsabilidades de cuidado, a disponibilidade de tempo e as redes construídas ao longo da trajetória também influenciam as possibilidades de eleição e permanência na vida pública.
Nas eleições gerais de 2026, as mulheres representaram 34% das candidaturas registradas em Mato Grosso, o mesmo percentual de 2022. Apesar dessa participação nas disputas, apenas duas mulheres ocuparão as 24 cadeiras da Assembleia na próxima legislatura.
A eleição de Samantha do Abilio e Alessandra Ferreira ocorre 16 anos depois de outro pleito em que duas mulheres foram eleitas simultaneamente para mandatos titulares na Casa. Em 2010, Luciane Bezerra e Teté Bezerra conquistaram vagas para a 17ª Legislatura, que correspondeu ao período de 2011 a 2015.
Mulheres que passaram pela Assembleia de Mato Grosso
Desde a eleição de Oliva Enciso, em 1958, outras mulheres ocuparam cadeiras na Assembleia Legislativa, seja por eleição direta, seja como suplentes. A relação histórica inclui parlamentares que exerceram mandatos em diferentes períodos e representa os avanços e as oscilações da presença feminina na Casa.
- 4ª Legislatura (1959–1963): Oliva Enciso.
- 9ª Legislatura (1979–1983): Sarita Baracat.
- 11ª Legislatura (1987–1991): Thaís Bérgo Duarte Barbosa.
- 12ª, 13ª e 14ª Legislaturas (1991–2003): Serys Slhessarenko.
- 12ª Legislatura (1991–1995): Malba Varjão, como suplente.
- 13ª Legislatura (1995–1999): Zilda Pereira Leite, como suplente.
- 15ª Legislatura (2003–2007): Vera Lúcia Araújo e Ana Carla Muniz.
- 16ª Legislatura (2007–2011): Chica Nunes e Vilma Moreira, como suplente.
- 17ª Legislatura (2011–2015): Luciane Bezerra e Teté Bezerra.
- 18ª, 19ª e 20ª Legislaturas (2015–2027): Janaína Riva.
- 20ª Legislatura (2023–2027): Marildes Ferreira, Profa. Graciele, Valdeníria Dutra, Sheila Klener, Sandy de Paula, Priscila Dourado, Edna Sampaio e Eliane Xunakalo, todas como suplentes. Eliane foi a primeira mulher indígena a assumir temporariamente uma cadeira na história da Assembleia.
Os períodos indicados correspondem às legislaturas, não necessariamente ao tempo de exercício de cada parlamentar.
Quase 70 anos depois da eleição de Oliva Enciso, a chegada de Samantha do Abilio e Alessandra Ferreira representa mais um capítulo na história da participação feminina na política mato-grossense. O número de cadeiras destinadas às mulheres, porém, mostra que a ampliação da presença feminina ainda convive com obstáculos históricos, sociais e partidários que dificultam o acesso e a permanência nos espaços de poder.
Publicado originalmente em infoverus.com.br



