“Voltar à época da escravidão”, diz empresário que já adotou escala 5x2 em hotel de Cuiabá sobre pagamento por hora

Aos 77 anos, o empresário e arquiteto Aluísio Arruda acredita que um negócio não se sustenta apenas com paredes, móveis, reservas e contas no azul. Para ele, existe uma estrutura invisível, mas que é decisiva para as boas avaliações que o Brisas Flat Hotel, no bairro Duque de Caxias, em Cuiabá, coleciona: os trabalhadores que fazem tudo funcionar. Foi com essa convicção que o arquiteto decidiu adotar a escala de trabalho 5x2, antes mesmo de uma eventual mudança na legislação tornar a medida obrigatória. Nessa quarta-feira (15), senadores aprovam fim da escala 6x1 e redução da jornada para 40 horas, na maior mudança trabalhista desde 1988.
"Tudo conversa fiada. Acho que os empresários que são contra não estão sabendo fazer as contas direitinho. O que quebra a empresa é não saber administrar direito. Se souber administrar direito, você não quebra a empresa. Se você dá direito e deixa o trabalhador mais satisfeito, mais feliz, ele te dá retorno. Então, aí que fica mais difícil quebrar a empresa. É o contrário", criticou Aluísio sobre as falas de que a mudança na jornada de trabalho pode prejudicar os lucros.
Aos 54 anos, Benedito Juarez Rondon, que trabalha no local desde a inauguração, avalia que a escala 5x2 trouxe mais qualidade de vida ao permitir dois dias consecutivos de folga. Segundo ele, antes, o tempo livre acabava consumido pelas tarefas domésticas, sem espaço suficiente para descansar.
“A gente hoje folga dois dias. No primeiro dia você faz os deveres, aí no segundo dia você descansa”, conta. Para Benedito, a mudança beneficiou os funcionários justamente por permitir conciliar as responsabilidades de casa com um período maior de descanso.
Enquanto parte do empresariado manifesta preocupação com os custos de ampliar o descanso semanal, Aluísio escolheu antecipar a adaptação. A decisão, segundo ele, não nasceu de uma obrigação legal, mas da compreensão de que trabalhadores mais descansados e valorizados podem oferecer um serviço melhor.
A aposta também contraria uma lógica que, na avaliação dele, ainda predomina em muitos negócios: a de enxergar os direitos trabalhistas como despesas, e não como investimentos.
“Se eu dou dois dias de folga, ele vai descansar mais, ele vai voltar na segunda-feira tranquilo, entende? Satisfeito. E onde que ele vai preferir trabalhar? Aqui no nosso estabelecimento, que tem 5x2 ou no outro que tem 6x1? Eu estou com fila de gente aqui querendo vir para cá. Toda hora perguntando: 'Tem vaga? Tem vaga?'. Por quê?”, questiona.
A resposta, para Aluísio, aparece na procura por vagas e nas avaliações dos hóspedes. O hotel oferece, além dos dois dias de descanso, gratificações, auxílio-transporte, auxílio-alimentação e participação nos lucros. A combinação de benefícios, afirma, ajuda a manter a equipe satisfeita e reduz a rotatividade, um problema que pode representar custos elevados para as empresas.
“Se o funcionário não trabalha numa empresa que ele não está satisfeito, a primeira chance que ele encontra, ele sao. A rotatividade é muito alta e isso também tem um custo. Já a minha rotatividade é muito baixa, o meu custo cai. Quando você faz essas contas, você vê que você não está no prejuízo.”
A convicção foi construída também a partir de sua própria trajetória profissional. Depois de anos trabalhando com projetos e construções, Aluísio decidiu investir em um empreendimento que pudesse gerar renda mensal para a família. O que começou como um projeto de flats foi se transformando em hotel, inaugurado há cerca de dois anos e meio.
A ideia era construir um patrimônio que não dependesse apenas da valorização de um imóvel, mas que continuasse produzindo renda para as próximas gerações. Pai de quatro filhos, avô e bisavô de duas crianças, ele pensou no negócio como um projeto familiar de longo prazo. O mesmo raciocínio que o levou a construir o hotel passou a orientar a maneira como enxerga a gestão de pessoas.
"Gera emprego é bom para a economia. Em um país onde tem muita gente desempregada, a economia afunda. Em um país de pleno emprego, a economia floresce bastante, porque todo mundo gasta, todo mundo compra. O comércio progride, as empresas progridem, as indústrias progridem. Mas é uma coisa histórica, sempre que o trabalhador que avançar um pouquinho, eles apresentam histórias terríveis".
Custo de valorizar quem trabalha
O empresário explica que na hotelaria, a mudança exige planejamento, já que o ramo funciona 24 horas e precisa manter serviços em operação durante toda a semana. Para organizar a escala 5x2, ele distribuiu as folgas e dimensionou a equipe de modo que o atendimento não seja interrompido.
No hotel de Aluísio, a adaptação foi implantada nos setores de limpeza, atendimento e manutenção. Na área de alimentação, que envolve o café da manhã, o restaurante e o delivery, ainda está em fase de implantação.
O empresário reconhece que a folha de pagamento pode aumentar. A diferença está na maneira como interpreta esse custo: em vez de considerá-lo uma perda inevitável, vê a contratação de mais trabalhadores e a ampliação dos benefícios como parte de uma estratégia para melhorar o serviço e fortalecer o negócio.
“No início, a gente tira um pouco do lucro, porque está tirando para investir. Investir no funcionário, que a gente sabe que isso dá retorno, isso fideliza”, afirma.
A avaliação de Aluísio é de que o investimento na equipe se reflete diretamente na experiência de quem se hospeda no local. Ele cita as notas recebidas nas plataformas digitais: o hotel registra avaliação de 4,9 em uma escala de cinco pontos no Google e índices próximos da pontuação máxima em plataformas de reservas. O atendimento, segundo ele, é um dos quesitos mais bem avaliados.
“Por que que nós temos as melhores notas? Por que que o atendimento nosso é 9.9, 9.8, 9.7? Porque os funcionários estão satisfeitos, estão felizes”, afirma.
O empresário também diz que mais da metade do faturamento já vem de hóspedes que retornam ou chegam por indicação, sem depender exclusivamente das plataformas de reserva. Na visão dele, a fidelização é resultado de uma experiência que começa nas condições de trabalho e termina na percepção do cliente.
Aos 49 anos, o chef Ricardo Leão, formado em Gastronomia e pós-graduado, também defende a escala 5x2 como uma forma de melhorar as condições de trabalho na cozinha. Sergipano, ele vive em Mato Grosso há 15 anos, dos quais oito foram em Rondonópolis e sete em Cuiabá.
Com experiência em grandes restaurantes e passagem pelo próprio negócio, ele chegou ao hotel há cinco meses como colaborador, depois de dois anos atuando como consultor. A oportunidade também o atraiu pela liberdade criativa e pela valorização da cultura regional, com pratos inspirados nos biomas mato-grossenses.
Para Ricardo, o descanso tem impacto direto na disposição dos profissionais e na qualidade do que chega à mesa dos hóspedes. “Funcionário descansado, com a mente descansada, produz mais. Ele consegue atingir as metas, consegue fazer um bom trabalho”, afirma.
Na avaliação do chef, a possibilidade de passar mais tempo com a família e organizar a própria rotina pode contribuir para a saúde mental, a qualificação profissional e a melhoria do serviço. “O funcionário descansado, o funcionário bem, ele vai passar isso para o alimento. O alimento é vida”, resume.
Crítica ao pagamento por hora
A defesa dos direitos trabalhistas também aparece quando Aluísio comenta propostas de adoção de modelos de contratação baseados no pagamento por hora. Ele teme que, em uma negociação marcada pela desigualdade entre patrões e empregados, o trabalhador tenha pouca força para garantir condições que preservem sua renda e seu tempo de descanso.
“Isso é voltar à época da escravidão, pelo jeito. Esse que foi eleito agora como senador [o ex-governador Mauro Mendes] não deixou nem esfriar, já veio com essa proposta de copiar modelo americano que é trabalhar por hora. 'Ah, porque o empregado negocia com o patrão'. Mas como que negocia? O empregado tem força para impor o que é bom para ele? Vai ser imposto o que é bom para o patrão, certo? E ele vai ficar pior do que hoje, essa proposta piora a condição de vida do trabalhador".
O empresário também lamenta a resistência de parte do setor empresarial à ampliação dos direitos. Segundo ele, a hotelaria é um ramo conservador, com funcionamento contínuo e receitas sujeitas a oscilações. Em Cuiabá, afirma, o movimento depende principalmente da atividade comercial, e os períodos de férias podem reduzir a procura por hospedagem. Por conta disso, Aluísio reforça que uma boa administração é ainda mais necessária.
"[Os outros empresários me falam] Para, para com esse discurso. A primeira coisa que eles falam é que vai quebrar. 'Esse besta aí vai quebrar'. Chamam a gente de besta. Não ligo, deixo para lá, porque não vou ficar distucindo à toa. Deixa a realidade ir mostrando. Então, eu não discuto muito essas coisas, porque eu sei que não adianta perder tempo. Nosso setor é bastante conservador, infelizmente".
Para Aluísio, a redução da jornada de trabalho não beneficia apenas os funcionários, mas também a economia do país. Ele avalia que trabalhadores com mais tempo para descansar e se qualificar contribuem para o desenvolvimento e movimentam o comércio.
“Um país onde os trabalhadores trabalham com tranquilidade, com mais tempo para estudar, para se qualificar, contribui para o desenvolvimento, para o progresso do país”, afirma.
Na avaliação do empresário, reduzir o poder de compra da população pode produzir o efeito contrário ao desejado. “Vai ser menos dinheiro no comércio, menos dinheiro na indústria. O país, em vez de avançar, vai para trás. Quem avança é meia dúzia de explorador que quer explorar.”
Hotel que transborda arte
O hotel aposta na arte e na identidade regional como parte da experiência dos hóspedes. Cada andar tem um canto decorado com referências a diferentes paisagens e territórios de Mato Grosso, como o Pantanal, o Araguaia, a Amazônia e o centro antigo de Cuiabá.
A temática também aparece nos quartos, que reúnem objetos decorativos e obras relacionados a cada ambiente, criando uma conexão com os biomas e a cultura local. Ao todo, o hotel abriga cerca de 350 obras de arte catalogadas, distribuídas por diferentes espaços, incluindo corredores e área do café da manhã, onde os hóspedes podem apreciar as peças durante a estadia.
Fonte: Olhar Direto
Publicado originalmente em infoverus.com.br
