‘Apoio a Flávio é peça central de projeção de poder dos EUA’
Ex-diplomata e sênior fellow do Cebri, Philip Yang avalia ao ‘Nexo’ os significados e as consequências da fuga do senador para os Estados Unidos, onde afirma que pretende liderar a oposição ao governo Lula
Por Marcelo Montanini14 min de leitura

A fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos após a derrota eleitoral expõe a contradição de um movimento que se diz nacionalista, mas depende de um protetor estrangeiro para sobreviver politicamente. Essa é a avaliação ao Nexo de Philip Yang, sênior fellow do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) e Instituto Urbem (Urbanismo e Estudos para a Metrópole).
“É um paradoxo enorme”, afirmou ao Nexo o ex-diplomata de carreira do Itamaraty, que serviu em missões do Brasil em Genebra, Pequim e Washington.
Depois de perder a eleição presidencial, Flávio chegou nesta quarta-feira (28) a Miami, com anuência do governo Donald Trump, após deixar o Brasil pela fronteira com a Argentina, governada por Javier Milei. Os três são alinhados ideologicamente.
Para Yang, o apoio a aliados estrangeiros de extrema direita tornou-se uma peça central da estratégia de projeção de poder dos Estados Unidos sob Trump. “O gesto dos EUA é um subproduto dessa vertente americana de projetar poder pelo mundo, sem medir as consequências”, disse.
Nesta entrevista ao Nexo, Yang avalia os contornos políticos, geopolíticos e diplomáticos da fuga de Flávio para os EUA e explica como esse episódio pode afetar as relações do país americano com o Brasil.
O que a fuga de Flávio e o acolhimento do governo Trump diz sobre a atuação da extrema direita americana como um todo?
PHILIP YANG O acolhimento do governo Trump expõe uma extrema direita americana que opera com uma rede de proteção transnacional unida por uma narrativa comum de perseguição política e fraude eleitoral. Essas já se tornaram bandeiras velhas da extrema direita. Mas não sei quanto tempo isso dura, já que elas parecem perder legitimidade e apelo à medida que essas realidades se repetem no mundo.
Em suma, esse caso demonstra que o movimento Maga [Make America Great Again, ou Faça a América Grande Novamente, slogan de campanha que se tornou o movimento trumpista] não vê fronteiras nacionais como limites para a solidariedade ideológica. O apoio a aliados estrangeiros passa a ser uma peça central de estratégia de projeção de poder dos Estados Unidos.
Quais os riscos e as possíveis consequências do apoio do governo dos EUA à fuga de Flávio?
PHILIP YANG Podemos pensar em algumas dimensões principais de risco. Primeiro, é um risco diplomático: o gesto de conceder visto e sinalizar asilo a um foragido da Justiça brasileira é um ato claro de desrespeito à soberania judicial do Brasil. Isso cria um precedente perigoso e pode levar a um aprofundamento da crise entre os dois países, especialmente se o Brasil fizer um pedido de extradição e os EUA ignorarem. O Planalto já admite que esse episódio pode desgastar a relação bilateral.
Outro risco é o de essa medida enfraquecer a cooperação jurídica internacional. Se o Brasil, por exemplo, acionar a Interpol com pedido de difusão vermelha ou emitir solicitação formal de extradição, uma recusa política dos EUA pode enfraquecer os acordos bilaterais de assistência mútua. Isso cria um precedente ruim, porque o status de imigração ou de asilo passa a ser ditado por afinidade partidária, o que contamina acordos em temas mais sensíveis, como combate ao crime organizado e comércio. Então, criar esse antecedente coloca em risco a seriedade da aplicação técnica desses acordos.
Embora tenha descumprido um mandato judicial, Flávio não está sendo considerado por ora como foragido…
PHILIP YANG É verdade. Ele será considerado um foragido na medida em que vier a ser condenado.
Mas aí entramos na discussão sobre a precocidade da decisão do [ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de] Moraes de pedir a apreensão dos passaportes. No fundo, de fato, foi uma decisão tomada muito precocemente, se pensarmos que foi tomada sete minutos depois do anúncio da confirmação do resultado [eleitoral].
Por outro lado, havia sinalizações de familiares de que havia um plano em curso e, de fato, a rota da fuga é uma demonstração de que foi premeditada. Você não consegue realizar uma operação com um trajeto como ele percorreu, com furos em pontos de saída de baixo monitoramento e sem os controles migratórios usuais. Tudo isso leva a crer que essa operação foi premeditada — o que aumenta, digamos assim, a legitimidade da medida adotada pelo Supremo na pessoa do Alexandre de Moraes.
Tem também uma dimensão interna, que é o fato de que a fuga fortalece a narrativa bolsonarista de que a Justiça brasileira atua de forma política. Ao mesmo tempo, isso cria um fato bastante consumado, que pode constranger o governo Lula a adotar uma postura mais dura.
Qual é a aposta de Flávio ao ir para os EUA?
PHILIP YANG Imagino que a aposta dele seja, em primeiro lugar, transformar uma derrota judicial e eleitoral em capital político. Ele quer transformar isso numa bandeira.
Além disso, há três elementos. O primeiro é o mais óbvio é preservar a sua liberdade — evitar uma possível prisão que parecia ser iminente no Brasil, já que ele já tinha descumprido uma ordem judicial e teve seus passaportes cancelados.
A segunda aposta tem a ver com a possibilidade de consolidar a narrativa de perseguição. No momento em que obtém asilo ou visto num país governado por um aliado ideológico, ele busca provar que é um perseguido político e não um réu comum. Isso alimenta a tese de fraude eleitoral que ele e o próprio Trump defendem.
Consolidando essa narrativa de perseguição, também podemos pensar que ele quer se manter como uma liderança da oposição. Do exterior, com o respaldo de uma potência, ele tentaria se projetar como a voz legítima da oposição, buscando influenciar a política brasileira de fora para dentro. Um fenômeno que o bolsonarismo vem abraçando, inclusive pelo próprio irmão [o ex-deputado Eduardo Bolsonaro], que tem feito isso com bastante vigor.
Trump disse que aprova a entrada de Flávio nos EUA e afirmou mais de uma vez que as eleições brasileiras foram fraudadas, algo que não se sustenta com fatos. Como isso se conecta com o momento de Trump internamente?
PHILIP YANG Internamente, o apoio a Flávio serve a diferentes propósitos. Primeiro, ele busca um reforço da base eleitoral própria. Ao “salvar um aliado” da “perseguição da esquerda”, o presidente Trump alimenta a narrativa de que é o líder global da direita e o protetor dos valores conservadores contra “regimes tiranos”.
Por outro lado, ele gera uma distração: desvia a atenção de problemas domésticos e projeta uma imagem de dominância e força na América Latina, aliando-se à retórica de política externa agressiva e de confrontos com governos de esquerda.
No momento em que, sem provas, Trump afirma que a eleição brasileira foi fraudada, ele usa o caso brasileiro como um eco, como uma validação para suas próprias alegações infundadas sobre as eleições americanas de 2020. De alguma forma, ele já prepara o terreno [para as midterms] e reforça o argumento de que o sistema eleitoral é corrupto no mundo inteiro.
Esse caso de fuga pós-derrota eleitoral de Flávio pode se tornar um teste dos limites da internacionalização dos conflitos políticos domésticos?
PHILIP YANG Sem dúvida, é um teste de estresse para a ordem internacional baseada em regras. O caso coloca em xeque princípios como a soberania nacional e a não interferência em assuntos internos.
Quanto à legitimidade da oposição bolsonarista, podemos ler o fato de duas maneiras: como um ato de desespero e de fraqueza, já que ele foge em vez de enfrentar a Justiça, ou como um ato de resistência. O tempo vai dizer qual narrativa vai prevalecer. O fato é que a oposição passa a ter uma liderança em solo estrangeiro e dependente de apoio externo, o que pode ser explorado pelos adversários do bolsonarismo como um sinal de falta de compromisso com o país.
Para as instituições brasileiras, o caso testa a capacidade de fazer valer decisões judiciais diante de uma potência que parece disposta a ignorá-las. O Brasil tem feito bem esse papel, fazendo prevalecer as suas decisões judiciais independentemente das suas condições. O caso de Jair Bolsonaro é claro: houve o tarifaço, atrelado à mudança de sentença, e o Brasil deu de ombros. O Brasil tem provado que tem capacidade de fazer prevalecer suas decisões judiciais em função da força das suas instituições.
Quanto à relação entre soberania e alianças ideológicas, o caso expõe a contradição de um movimento que se diz nacionalista e, curiosamente, depende de um protetor estrangeiro para sobreviver politicamente. É um paradoxo enorme entre o nacionalismo, normalmente associado à independência e à autonomia, e essa profunda dependência de um líder estrangeiro para poder sobreviver politicamente. É difícil sustentar isso no longo prazo.
Qual o papel do Itamaraty agora?
PHILIP YANG Podemos pensar em vários cenários. O papel do Itamaraty agora é desdramatizar e despolitizar o caso, tratando-o como uma questão de justiça e não como um conflito de governo a governo. Sua reação inicial deve ser evitar que o episódio se transforme numa crise diplomática de alto nível.
Quero crer que a postura também seja a de preservar os canais de diálogo e manter aberta a porta das negociações com Washington em temas de interesse nacional, como o acordo de tarifas em curso e a cooperação em segurança pública. O objetivo seria impedir que o caso de um indivíduo contamine toda a agenda bilateral.
Além disso, o Itamaraty tem uma habilidade que exerce muito bem: a de não reagir a provocações. O governo Lula e o Itamaraty têm optado por não responder de imediato às declarações de Trump sobre fraude eleitoral, porque uma reação intempestiva pode ser contraproducente e atender aos interesses da ala mais ideológica e radical de Washington.
No terreno jurídico, o Brasil deve estar avaliando as opções legais, incluindo um eventual pedido de extradição, caso Flávio seja formalmente acusado e condenado. Seria uma linha de ação normal de um aparelho de Estado.
O que pode acontecer com Flávio se Trump perder as eleições de meio de mandato em novembro e, em 2028, o Partido Republicano perder as eleições presidenciais?
PHILIP YANG Pensando primeiro em 2028, se os republicanos perderem, a situação de Flávio se torna extremamente precária. O visto e qualquer outra proteção concedida pelo governo Trump são de natureza política e absolutamente discricionária. Uma nova administração democrata pode revisar ou revogar o status migratório dele e da família, abrindo caminho para a extradição, caso o Brasil a solicite formalmente.
Sua posição política também se enfraqueceria, porque ele perderia a principal plataforma de legitimidade externa. Sua presença se tornaria, muito provavelmente, um fardo político e um risco jurídico para os EUA, que poderiam preferir resolver a questão entregando-o às autoridades brasileiras.
No curto prazo, nas eleições de meio de mandato, é importante entender os limites e as possibilidades do Congresso. Ele não pode revogar o visto, pois a concessão e a anulação cabem ao Executivo. A lei americana confere ao secretário de Estado autoridade discricionária para conceder e revogar vistos a qualquer momento, sem necessidade de justificativa e com pouquíssima margem de revisão judicial. Portanto, o Congresso não pode simplesmente anular o visto por votação. Flávio tem, assim, um seguro válido por dois anos, até 2028.
Mesmo assim, o caso pode causar grande dor de cabeça ao Executivo. O deputado Joaquin Castro, democrata do Texas e membro do Comitê de Relações Exteriores da Câmara, já está afirmando que o governo Trump deve explicações ao Congresso sobre seu papel em ajudar Flávio a fugir do Brasil. Num Congresso de maioria democrata, essa exigência se tornaria ação concreta: convocações para depoimentos, convocação do secretário de Estado ou de outros altos funcionários para explicar a decisão sobre o visto, audiências públicas sobre a legalidade e a moralidade da concessão, pedidos de documentos e pressão política e pública. Tudo isso geraria um desgaste enorme para o governo.
Os últimos anos foram marcados por crises diplomáticas entre Brasil e EUA, posteriormente amenizadas pela relação pessoal entre Lula e Trump. O que isso projeta para a relação entre Brasil e EUA para os próximos anos?
PHILIP YANG Muito provavelmente, a relação vai ser marcada por uma coexistência tensa e pragmática, como tem sido.De um lado, há a dimensão ideológica, com atritos políticos como o caso de Flávio e as declarações de Trump, que criarão ruído constante. De outro, há a realpolitik entre duas nações soberanas. O Brasil não é um país irrelevante: tem poder de manobra e um poder comercial importante. As ruas mostraram a legitimidade do governo. Isso, somado a interesses econômicos nada pequenos, empurrará os dois países para a cooperação em áreas de interesse mútuo — sempre lembrando que vivemos sob o manto de uma grande guerra comercial provocada pelo tarifaço.
A expectativa do Planalto é que, se o Partido Republicano perder espaço nas eleições de meio de mandato, em novembro próximo, a ala mais pragmática de Washington ganhe força, o que poderia facilitar a relação [com o Brasil].
Como equilibrar os interesses comerciais de parte a parte e o peso geopolítico de os EUA abrigarem um líder de oposição que se diz perseguido no Brasil?
PHILIP YANG Tenho duas reflexões. A primeira, ortodoxa e talvez mais convencional, é equilibrar os interesses comerciais e o peso geopolítico dos EUA, promovendo uma separação cirúrgica entre as agendas. De um lado, negociar de forma técnica os temas comerciais, as tarifas, os acordos e a segurança, sem vinculá-los a questões ideológicas como o caso Flávio. A essa compartimentação soma-se o multilateralismo. O Brasil pode se apoiar em blocos como o Mercosul e em fóruns internacionais para negociar com os EUA, além de buscar contrapesos, aprofundando a parceria com a China e com outros parceiros estratégicos.
A segunda forma de pensar, que pessoalmente preconizo, é radicalizar a postura brasileira diante do tarifaço, com uma atitude mais altiva e agressiva. Diria que o Brasil deveria responder não com reciprocidade, mas com retaliação, taxando exportações de produtos que os EUA isentam porque querem que cheguem a preços competitivos. Estou falando do nióbio, do suco de laranja, do café, dos itens da carne brasileira, etc. Esses itens estão isentos porque interessa tê-los baratos nos EUA.
Mas isso não poderia trazer um dano econômico ao Brasil?
PHILIP YANG Quero crer que não. Primeiro, porque se trata de uma ameaça, um teste para ver até onde vai a resistência dos EUA. Quando a ameaça é feita, os setores internos americanos também se mobilizam. Por isso, ela precisa ser crível.
Segundo, porque o poder de barganha do Brasil não é pequeno. Os EUA dependem do Brasil para 97% do fornecimento de nióbio, e a aviação regional norte-americana depende em grande medida da indústria aeronáutica brasileira. Isso pode ser usado como ameaça para abrir uma mesa de negociação que hoje não existe. A negociação em curso é mais formal do que efetiva e não aponta para uma redução das tarifas.
Pode haver impacto na economia, mas creio que mínimo. Por outro lado, há um impacto sobre a imagem e a altivez do Brasil.
Alguns setores sofreriam, e eles têm muita força no Congresso e junto ao Executivo, como a indústria da carne e a do nióbio. Eles exerceriam uma enorme pressão sobre o governo, mas sofreriam por alguns meses. Do ponto de vista do interesse comercial global do Brasil, o impacto recairia sobre exportações já muito diversificadas entre parceiros do mundo todo. O Brasil não é como o Canadá, dependente dos EUA. Nossa pauta exportadora, no conjunto, não depende deles, então não temos a vulnerabilidade que outros países têm.
Só a ameaça e uma postura altiva fazem os EUA ouvir e abrir espaço de negociação. Os países que se curvaram não receberam tratamento favorável, enquanto os que mantiveram a altivez, como China, Canadá e Índia, conseguiram espaço para negociar. É importante que o Brasil, caso as linhas de conciliação e aproximação falhem, tenha em mente que é plausível negociar de forma dura. Há condições de radicalizar, porque hoje, mais do que em qualquer década anterior, é nítido o declínio relativo do poder geopolítico americano.
Esse movimento do governo dos EUA empurra o Brasil ainda mais em direção à China?
PHILIP YANG Certamente, embora a atração da China como polo de gravitação já tenha feito isso com muita força. Ela já é nosso principal parceiro comercial.
Conjunturalmente, esse movimento faz parte de uma série de erros estratégicos geopolíticos dos EUA. A expansão da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte], de 10 membros originais para mais 30 membros, empurrou a Rússia para os braços da China. Abraçar Flávio Bolsonaro e a extrema direita brasileira é um subproduto dessa vertente americana de projetar poder pelo mundo sem medir as consequências da superextensão de seus poderes, o que vai de encontro aos próprios interesses do país.
Assim como jogaram a Rússia no colo da China, os EUA empurram o Brasil para ainda mais perto dela, que já é muito próxima e vem ampliando seus investimentos aqui. Uma ruptura com os EUA não está no horizonte, mas o episódio é um claro incentivo para que o Brasil reduza sua vulnerabilidade em relação a Washington e ao dólar. A China, por sua vez, se apresenta como o principal contrapeso disponível no cenário internacional. O gesto americano funciona como acelerador de um movimento que já está em curso.
Publicado originalmente em nexojornal.com.br


