As ferramentas de Lula e Flávio para o 2º turno: redes, alianças e disputa no Congresso
Lula e Flávio disputam eleitorado no 2º turno com novas estratégias digitais, alianças políticas e propostas sobre trabalho e reformas

Principais pontos
- Lula reformula comunicação digital, aproxima-se de novas lideranças da esquerda e aposta no fim da escala 6x1 para tentar ganhar votos no segundo turno.
- Flávio Bolsonaro amplia frente de apoio político com partidos do centrão e nomes da direita, além de explorar a força do novo Congresso para defender mudanças na Constituição.
- Propaganda eleitoral recomeça nesta sexta-feira, 9, com os dois candidatos tendo o mesmo tempo no rádio e na TV até 23 de outubro; votação será no dia 25.
A eleição presidencial brasileira entra, nesta sexta-feira, 9, em uma fase decisiva. O presidente Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) voltam ao rádio e à televisão para disputar os eleitores que não os escolheram no primeiro turno, mas chegam à reta final com estratégias diferentes para tentar conquistar eleitores.
Flávio terminou a primeira etapa na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do incumbente. A partir desta sexta, porém, a disputa ganha uma característica diferente: os dois terão exatamente o mesmo espaço na propaganda eleitoral, ao contrário do primeiro turno, quando a distribuição do tempo era determinada pela representação partidária no Congresso.
Serão dez minutos por bloco no rádio e na televisão, divididos igualmente entre os candidatos, além das inserções ao longo da programação. A questão, portanto, é o que cada campanha fez nos quatro dias entre a apuração do primeiro turno e o início oficial da nova etapa.
Lula muda rota em busca dos eleitores jovens
O primeiro movimento de Lula foi reconhecer que a estratégia adotada no primeiro turno não funcionou como esperado. Em reunião com parlamentares jovens eleitos e reeleitos, o presidente afirmou que sua campanha ficou “aquém da capacidade” e que foi uma das menos organizadas de sua trajetória eleitoral.
Entre os participantes estavam Ana Elisa (PT-MG), de 21 anos, eleita deputada federal com cerca de 520 mil votos, além de Guilherme Cortez (PSOL-SP) e Fábio Felix (PSOL-DF). A conversa teve como um dos principais objetivos discutir como a esquerda pode melhorar sua comunicação nas redes sociais.
A mudança já apareceu na prática. Aos 80 anos, o petista publicou seus primeiros vídeos gravados em formato de selfie, uma linguagem mais associada a TikTok, Reels e outras plataformas de vídeo curto. A estratégia é aproximar o presidente do eleitor sem a estética tradicional de uma peça produzida por equipe de comunicação.
A deputada Ana Elisa, uma das jovens lideranças ouvidas pelo presidente, afirmou que Lula está disposto a ampliar sua atuação nas redes e utilizar formatos mais próximos daqueles usados pelos candidatos que tiveram maior desempenho entre o público jovem.
A campanha também pretende ampliar o uso de grupos regionais de WhatsApp, influenciadores e artistas, além de intensificar a comunicação de realizações do governo de acordo com as características de cada região.
Aposta dobrada no fim da 6x1
Outro eixo escolhido por Lula é uma pauta com forte apelo entre trabalhadores: o fim da escala 6x1. A proposta em discussão no Senado reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, estabelece dois dias de descanso remunerado e prevê uma transição para a nova jornada, sem redução salarial. A PEC já passou pela Câmara e pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado e começou a ser discutida no plenário nesta semana.
Lula passou a cobrar publicamente que parlamentares, inclusive adversários, assumam posição sobre a proposta. Em vídeos publicados nas redes, o presidente desafiou Flávio e o PL a apoiarem a PEC, explorando a popularidade da pauta.
O assunto também criou uma situação eleitoralmente delicada para a oposição. Senadores ligados a Flávio tentaram evitar que a proposta avançasse antes do segundo turno, sob o argumento de que sua aprovação poderia beneficiar Lula. A votação, no entanto, foi mantida pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil).
Flávio, por sua vez, classificou a discussão no momento atual como “oportunista” e favorável a Lula. Seu programa de governo prevê outra abordagem: maior flexibilidade na jornada e negociação das condições de trabalho entre empregados e empregadores.
A estratégia petista é transformar a escala 6x1 em uma comparação direta entre os dois projetos — e levar o adversário a assumir uma posição sobre uma pauta com grande potencial de mobilização popular.
Presidente busca endurecer discurso
A reformulação não ficou restrita à comunicação. Depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio, Lula passou a abordar com mais frequência temas que haviam produzido desgaste para seu governo, principalmente segurança pública, STF e o escândalo do Banco Master.
O mandatário defendeu a adoção de um novo lema: "Para o trabalhador, proteção; para o bandido, prisão". Passou ainda a defender abertamente mudanças na forma de escolha dos ministros do Supremo e a reforma do Judiciário. O movimento representa uma mudança em relação ao discurso adotado durante boa parte do primeiro turno e procura dialogar com um eleitorado que demonstrou, nas urnas, postura crítica às instituições.
Outra frente é a tentativa de reduzir a abstenção. A campanha calcula que os mais de 30 milhões de eleitores que não compareceram às urnas podem ser decisivos em uma disputa apertada e pretende combinar mobilização territorial com comunicação digital.
Flávio constrói a própria 'frente ampla'
Se Lula passou os primeiros dias depois do primeiro turno reformulando a campanha, o candidato do PL concentrou esforços na construção de uma ampla frente política, em movimento similar ao que o próprio petista construiu na eleição de 2022, quando ganhou o apoio dos derrotados Simone Tebet (então no MDB) e Ciro Gomes (então no PDT).
O candidato recebeu apoios de Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), que terminaram derrotados no primeiro turno, além do ex-presidente Michel Temer (MDB). Temer afirmou que o resultado das urnas expressou um desejo de mudança e relacionou o desempenho de Flávio à nova composição do Congresso.
Na sequência, Flávio conquistou o apoio do Novo, da federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, e do Republicanos. Nesta quinta-feira (8), o Podemos também oficializou adesão à candidatura.
A lista tem importância que vai além da propaganda eleitoral. Os partidos que aderiram a Flávio controlam uma parcela expressiva do novo Congresso e podem fornecer ao candidato uma estrutura política e territorial maior para a reta final.
O Republicanos, por exemplo, tem entre suas principais lideranças o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que participou das articulações para aproximar a legenda de Flávio.
Capacidade de mudar a Constituição
Uma das principais armas retóricas de Flávio será justamente o resultado das eleições legislativas. O PL elegeu 121 deputados federais e ampliou sua presença no Senado, enquanto partidos que apoiam o candidato também conquistaram bancadas expressivas. O 'Zero Um' passou a apresentar o resultado como uma demonstração de que o eleitor não escolheu apenas um presidente, mas também um Congresso à direita.
Na terça-feira, 6, após receber o apoio de Caiado, o presidenciável afirmou que teria condições de alterar a Constituição, caso fosse eleito, já que teria maioria para isso no Legislativo. Entre as mudanças mencionadas estão uma reforma do Judiciário, a redução da maioridade penal, o fim da reeleição presidencial e alterações na reforma tributária.
Há, porém, uma limitação importante: uma PEC exige três quintos dos votos da Câmara e do Senado, em dois turnos— 308 deputados e 49 senadores. Portanto, embora o PL tenha crescido e Flávio conte com uma coalizão maior, a aprovação de mudanças constitucionais dependeria de negociações adicionais com outras siglas.
A mensagem eleitoral de Flávio, assim, combina duas ideias: a possibilidade de uma mudança de governo e a promessa de que ele teria condições políticas de implementá-la, algo que o desempenho de seu grupo nas eleições para o Congresso reforça.
Cordão de governadores
Outro ativo importante é a quantidade de governadores eleitos no primeiro turno que já aderiram à candidatura. Além de Tarcísio, Flávio recebeu apoios de Dr. Daniel (Podemos), eleito no Pará, e Cleitinho Azevedo (Republicanos), eleito em Minas Gerais.
Minas e o Nordeste aparecem como alvos prioritários. No estado sudestino, Nikolas Ferreira (PL-MG), que se tornou o deputado federal mais votado da história do país, foi colocado na coordenação da campanha de Flávio no estado. No Nordeste, a estratégia passa por ampliar a presença de aliados e explorar o resultado do primeiro turno para reduzir a vantagem de Lula na região. .
Publicado originalmente em globalsouthworld.com.br



