De vereadores a empresários: quem é quem na investigação que abalou a Câmara de VG
Wanderley Cerqueira aparece como principal personagem das articulações investigadas

A Operação Cathedra Venalis, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco) na terça-feira (20), colocou vereadores, assessores, dirigentes do Legislativo e empresários no centro de uma investigação sobre suspeitas de corrupção, extorsão, compra de votos e interferência em contratos públicos. O principal foco das apurações é a disputa pela presidência da Câmara Municipal de Várzea Grande para o biênio 2027/2028, mas os documentos também apresentam suspeitas envolvendo o transporte coletivo, o Departamento de Água e Esgoto (DAE) e interesses empresariais na administração municipal.
Wanderley Cerqueira aparece como principal personagem das articulações investigadas. Segundo depoimentos reunidos pelo Gaeco, ele teria oferecido R$ 100 mil ao vereador Caio Cordeiro em troca de voto, articulado pagamentos mensais de R$ 10 mil para manter apoio político e utilizado cargos e possíveis ameaças para assegurar sua permanência na presidência da Câmara. Uma denúncia também aponta que gravações clandestinas e cartas de renúncia poderiam ser utilizadas para pressionar parlamentares. Wanderley é citado ainda em relatos sobre interesses na concessão ou privatização do DAE e sobre uma possível tentativa de afastamento da prefeita Flávia Moretti. As acusações permanecem sob investigação.
Kleberton Feitoza é mencionado em denúncias sobre reuniões reservadas e supostas ameaças a outros vereadores. Um denunciante afirmou que o parlamentar teria revelado informações sobre o financiamento político da eleição da Câmara e interesses de empresas no município. Kleberton também foi citado pela vereadora Rosi Prado, que registrou boletim de ocorrência relatando ameaças de divulgação de vídeos e informações comprometedoras. A existência do registro policial está documentada, mas as ameaças atribuídas ao vereador ainda dependem de apuração.
Miguel Angel Claros Paz Júnior, o Dr. Miguel, aparece na investigação por ser apontado como proprietário da chácara no Distrito da Guia onde vereadores teriam se reunido às vésperas da eleição da Mesa Diretora. Diligências do Gaeco identificaram movimentação de parlamentares na propriedade. O inquérito também examina transferências financeiras entre Miguel e Caio Cordeiro, apresentadas em arquivos relacionados a empréstimos. A reunião e as transações, isoladamente, não comprovam compra de votos.
Os vereadores Braz Jaciro Ferreira de França, Émerson Cezar de Campos Magalhães e Denival Rodrigues Galibert aparecem nas diligências sobre a movimentação de parlamentares na chácara. Outros nomes incluídos na relação de alvos de buscas são Cilço da Cruz Filho, Alecsand Moreira da Silva, Wender Silva Campos Madureira dos Santos, Lucélia de Oliveira Moreira e Gisele Aparecida de Barros. A decisão judicial autoriza medidas investigativas contra essas pessoas, mas não individualiza, nos trechos examinados, uma oferta ou recebimento de propina para cada uma delas.
Cilço da Cruz Filho, conhecido como Cilsinho, também é citado em uma denúncia sobre possível favorecimento de empresa em obras da Secretaria Municipal de Educação. O relato menciona uma reforma de telhado de creche que teria sido paga integralmente, apesar de suposta execução incompleta. A denúncia levanta ainda a hipótese de utilização de uma estrutura empresarial para movimentar recursos do mensalinho. O material não comprova que a empresa pertença ao vereador nem que tenha havido desvio de recursos.
Os vereadores de Cuiabá Ilde Taques e Alex Rodrigues passaram a integrar a investigação após diligências relacionadas a uma reunião política no Distrito da Guia. Os dois estavam em um Volkswagen T-Cross, acompanhados do assessor Vanderlúcio Rodrigues da Silva Júnior, quando foram abordados pela Rotam. Durante a ação, foram encontrados aproximadamente R$ 40 mil em espécie, sem comprovação documental imediata de sua origem. A apreensão motivou aprofundamento das investigações, mas não demonstra que o dinheiro seria destinado à compra de votos.
Entre os integrantes da estrutura administrativa citados estão Lorineide Aparecida Trindade Inhan, conhecida como Lori, e William Ribeiro Cerqueira, filho de Wanderley. Segundo depoimento de Caio, Lori poderia ter acesso a contratos e documentos relevantes. Outra denúncia sugere que um notebook ligado a ela poderia conter vídeos utilizados para pressionar vereadores. William é mencionado em relatos sobre reuniões políticas e possível apoio financeiro à articulação. Também aparece nos autos Samir Bosso Katumata, citado em relatos e incluído entre os alvos de buscas. É importante distinguir esse nome do secretário identificado apenas como Samyr na denúncia sobre entregas de dinheiro em um Corolla blindado: os trechos examinados não permitem afirmar que sejam a mesma pessoa.
O vereador Rogério França Martins, conhecido como Rogerinho da Dakar, é mencionado em denúncia sobre um vídeo que supostamente registraria recebimento de dinheiro. Segundo o relato, a gravação teria sido divulgada após seu afastamento político de Wanderley. O documento não esclarece a natureza da possível entrega de valores nem comprova que tenha ocorrido corrupção. Já o vereador Flávio de Oliveira Silva, o Flavinho da VG, aparece em análise financeira que identificou um depósito de R$ 100 mil, realizado em 2022, em conta conjunta de Nilton Borges Borgato e Gheysa Maria Bonfim Borgato. A finalidade dessa operação não foi esclarecida, e não há comprovação de vínculo com a suposta compra de votos de 2026.
Fora da Câmara, o ex-vice-prefeito Tião da Zaeli é citado em denúncia de suposto financiamento da eleição de Wanderley para favorecer interesses empresariais. O empresário Rômulo Cesar Botelho aparece em relatos sobre possível apoio político e interesses ligados ao transporte coletivo e à construção civil. As empresas União Transporte e Turismo, WR Cerqueira Construtora e Construtora Nhambiquaras são mencionadas como possíveis beneficiárias de uma articulação política, segundo um denunciante. O relatório não comprova financiamento ilícito ou favorecimento dessas empresas.
O vereador Caio Cordeiro, por sua vez, figura como um dos principais depoentes da investigação. Ele relatou propostas financeiras, ameaças, exoneração de servidores indicados por seu gabinete e dificuldades para fiscalizar o transporte coletivo. Também entregou arquivos eletrônicos analisados pelo Gaeco. Os relatórios registram que Caio manteve alinhamento político com Wanderley durante parte do período investigado e participou de tratativas envolvendo uma possível parceria entre a Câmara e a TV Cidade Verde, antes do rompimento entre os dois.
A investigação foi conduzida para esclarecer se houve uma atuação organizada destinada a controlar o Legislativo, influenciar a administração municipal e obter vantagens financeiras. A Justiça autorizou buscas e acesso a dados eletrônicos para aprofundar as apurações. Ser citado em depoimento, aparecer em um relatório financeiro ou ser alvo de busca e apreensão não equivale a condenação. As responsabilidades de cada pessoa dependem da confirmação das provas e da individualização de eventuais condutas criminosas.
Publicado originalmente em en.com.br



