Depoimento de testemunha protegida sustenta operação do Gaeco contra suposto esquema na Câmara de VG
Relato sigiloso descreveu ao Ministério Público suposta articulação política, pagamento de “mensalinho” e mecanismos de intimidação entre vereadores investigados

O Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) deflagrou, na terça-feira (20), a Operação Cathedra Venalis, que cumpriu 30 mandados de busca e apreensão contra 15 vereadores e outros alvos investigados por suspeita de integrar uma organização criminosa voltada à extorsão, corrupção e cooptação política na Câmara de Várzea Grande.
Entre os elementos utilizados para fundamentar o pedido das medidas cautelares está o depoimento sigiloso de uma “testemunha sem rosto”. O depoente protegido relatou aos investigadores detalhes sobre o suposto funcionamento do esquema e pediu que sua identidade fosse preservada por razões de segurança.
As informações foram colhidas durante as investigações do Procedimento Investigatório Criminal e registradas sob sigilo em um Relatório de Informação. O conteúdo passou a integrar a representação judicial apresentada pelo Ministério Público para embasar as medidas autorizadas pela Justiça.
Suposta articulação para manter presidência
Segundo o relato da testemunha protegida, o grupo investigado articulava ações para assegurar a permanência e a hegemonia do vereador Wanderley Cerqueira na presidência da Câmara Municipal de Várzea Grande.
A suposta cooptação de apoio político envolveria a distribuição de cargos públicos e a promessa de pagamentos periódicos em dinheiro. Conforme consta na representação judicial do Ministério Público, a estrutura investigada previa o pagamento mensal de vantagens indevidas aos vereadores, chamado de “mensalinho”, em valor aproximado de R$ 10 mil.
As informações fazem parte das suspeitas apresentadas na investigação e ainda serão submetidas à análise do material apreendido durante a operação.
Cartas de renúncia seriam usadas como garantia
O depoimento também apontou a existência de mecanismos de intimidação que, segundo a testemunha, seriam utilizados para assegurar a manutenção dos votos previamente acordados entre parlamentares.
Durante reuniões realizadas entre o final de 2024 e o início de 2025, vereadores que teriam sido cooptados assinado cartas de renúncia ao mandato sem data preenchida. De acordo com o relato, os documentos permaneciam sob custódia do grupo e serviriam como uma espécie de garantia de fidelidade.
A testemunha ainda relatou que os investigados teriam criado uma estrutura clandestina de captação de áudio e vídeo para registrar encontros e supostas entregas de dinheiro em espécie.
Parte desse material, conforme as declarações, estaria armazenada em dispositivos eletrônicos sob responsabilidade de servidoras da Câmara. O conteúdo teria sido utilizado pelos investigados como instrumento de constrangimento contra outros vereadores.
Mais de 200 policiais participaram da operação
Para cumprir as ordens judiciais, mais de 200 policiais de diferentes corporações foram mobilizados. As buscas ocorreram em residências, gabinetes e veículos relacionados aos alvos da investigação.
Por determinação do Juízo das Garantias, também foi autorizado o afastamento do sigilo telemático e a preservação de dados armazenados em nuvem vinculados às contas de e-mail de 20 investigados. A medida abrange informações referentes ao período de 1º de janeiro de 2024 até a data do cumprimento das ordens.
O material apreendido durante as buscas será submetido a auditoria e perícia técnica pela Subcoordenadoria de Tecnologia e Informação do Gaeco.
Perícia vai confrontar dados da investigação
A análise das mídias apreendidas, o cruzamento dos dados extraídos dos dispositivos e a apuração de eventuais movimentações financeiras deverão fornecer novos elementos para a investigação.
A partir desse trabalho, o Ministério Público de Mato Grosso avaliará se existem elementos suficientes para eventual oferecimento de denúncia criminal perante a Justiça.
Até o momento, as informações apresentadas pela testemunha protegida integram o conjunto de elementos utilizados para justificar as medidas cautelares. A perícia e a análise do material apreendido serão responsáveis por verificar e confrontar as suspeitas levantadas durante a investigação.
Publicado originalmente em infoverus.com.br



