Gaeco investiga suposto esquema de propina de R$ 500 mil a vereadores que envolve DAE, União Transportes e reeleição de Wanderley Cerqueira
Inquérito aponta possível esquema para controlar o DAE e manter contrato do transporte coletivo; investigação também cita supostas ameaças, gravações clandestinas e cartas de renúncia usadas para pressionar parlamentares

O presidente da Câmara de Várzea Grande, Wanderley Cerqueira (MDB), é investigado sob suspeita de oferecer R$ 500 mil a cada vereador em troca de apoio à reeleição para a presidência da Mesa Diretora. Conforme denúncias reunidas no inquérito da Operação Cathedra Venalis, o suposto esquema teria como objetivo garantir influência sobre o Departamento de Água e Esgoto de Várzea Grande (DAE/VG) e sobre o transporte coletivo operado pela União Transportes e Turismo Ltda.
“Eu vou exonerar a Prefeita, vender o DAE e nós vamos repartir o dinheiro”, teria afirmado Wanderley, segundo os relatos reproduzidos no inquérito. As acusações fazem parte da investigação deflagrada nesta terça-feira (20), que tem como alvos 13 vereadores de Várzea Grande e dois parlamentares de Cuiabá: Alex Rodrigues e Ilde Taques, ambos do Podemos.
Conforme reportagem do Olhar Direto, que teve acesso ao inquérito assinado pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), o DAE aparece como peça central do que os investigadores classificam como “loteamento político de cargos estratégicos e a obtenção de vantagens econômicas indevidas”. A suspeita é de que o grupo tenha articulado a permanência de Wanderley no comando da Câmara para preservar interesses políticos e econômicos.
Um vereador que prestou depoimento e não figura entre os alvos da operação relatou que Wanderley demonstrava interesse no processo de concessão ou privatização do DAE. Segundo ele, o presidente da Câmara teria mencionado a possibilidade de distribuir aproximadamente R$ 500 mil a cada parlamentar caso a operação fosse concretizada.
O depoimento também menciona o vereador Tião da Zaeli, que teria procurado o denunciante para pedir apoio à reeleição de Wanderley. Na ocasião, segundo o relato, foi mencionada a possibilidade de cassação da prefeita Flávia Moretti (PL), o que poderia levar o presidente da Câmara a assumir posteriormente o comando do Executivo municipal.
O trecho do inquérito reproduzido na investigação registra: “Afirmou que Tião da Zaeli teria lhe solicitado apoio à reeleição de Wanderley e mencionado a perspectiva de cassação da Prefeita Flávia Moretti, circunstância que, segundo o depoente, poderia conduzir Wanderley, posteriormente, à chefia do Poder Executivo Municipal. Relatou, ainda, que Wanderley manifestava interesse na concessão ou privatização do DAE e teria mencionado a possibilidade de distribuição de valores aos vereadores, estimando a quantia de aproximadamente R$ 500.000,00 para cada parlamentar, caso a operação fosse concretizada”.
O depoimento foi acompanhado por um pen-drive com documentos que, segundo o denunciante, dariam suporte às declarações. O material inclui notas fiscais, vídeos e extrações bancárias.
Entre os elementos considerados pelo Gaeco para aprofundar a apuração está um vídeo em que Rogério França Martins, conhecido como “Rogerinho da Dakar” (PSDB), então diretor-presidente do DAE/VG, aparece recebendo maços de dinheiro em espécie das mãos de outra pessoa, em um escritório. O episódio foi apontado como possível recebimento de vantagem indevida e levou à exoneração de Martins pela prefeita Flávia Moretti. Depois de deixar a autarquia, ele retornou à Câmara e passou a exercer a função de líder do governo municipal. Diante dos indícios, também foi incluído entre os investigados.
O inquérito ainda descreve uma reunião realizada na virada de 2024 para 2025, na chácara do vereador Miguel Claros Paz Júnior. De acordo com o depoimento, os participantes teriam discutido o apoio à eleição de Wanderley para a Mesa Diretora e assinado cartas de renúncia como garantia dos votos acertados. Os investigadores também apuram possíveis locais e formas de entrega dos valores.
Outra parte da investigação trata de supostas tentativas de cooptação de parlamentares durante a disputa pela Mesa Diretora, em maio de 2026. Segundo o denunciante, propostas teriam sido apresentadas no escritório de Wanderley, que supostamente estaria preparado para gravar clandestinamente os vereadores dispostos a receber dinheiro.
O Gaeco aponta que esses registros e as cartas de renúncia teriam sido utilizados posteriormente para pressionar os parlamentares. Conforme o inquérito, “as gravações e as cartas de renúncia anteriormente assinadas teriam sido posteriormente utilizadas como instrumentos de constrangimento e pressão política (extorsão), com o objetivo de assegurar os votos necessários à reeleição à mesa diretora e, por conseguinte, a continuidade do apoio ao grupo.”
A investigação também identificou diálogos que, segundo o Gaeco, sugerem um acordo direto entre Wanderley e Rômulo Botelho, sócio da União Transportes. A suspeita é de que o entendimento buscasse garantir a continuidade do contrato da empresa e impedir o avanço de propostas legislativas de fiscalização ou questionamentos sobre os serviços prestados.
Um dos denunciantes afirmou que o grupo ligado ao presidente da Câmara teria atuado para barrar a abertura e o andamento de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a investigar o transporte coletivo e a atuação da União Transportes. Em agosto, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) acolheu um pedido de Wanderley e suspendeu os procedimentos da comissão.
Além das suspeitas envolvendo a privatização do DAE e o contrato do transporte público, a apuração examina possíveis pagamentos mensais de R$ 10 mil que teriam sido oferecidos por Wanderley a vereadores, além de uma suposta garantia de R$ 100 mil em uma casa de apoio para assegurar sua reeleição à presidência da Câmara.
As medidas judiciais autorizadas pelo juiz Cassio Leite Barros Netto têm como finalidade reunir novas provas para aprofundar as investigações. O Gaeco justificou os pedidos com base nos depoimentos dos denunciantes, que afirmaram que tanto os investigados quanto eles próprios teriam registros de conversas, áudios, vídeos e capturas de tela capazes de comprovar as acusações.
Para o Ministério Público, o grupo investigado pode ter atuado na obtenção de vantagens indevidas, incluindo propinas, cooptação de agentes públicos, corrupção, extorsão e ameaças. As suspeitas envolvem possíveis interferências no funcionamento da administração pública municipal.
Entre os vereadores de Várzea Grande citados como alvos da operação estão Raul Curvo (Republicanos), Braz Jaciro (PSDB), Cilcinho (PV), Wender Madureira (Republicanos), Sargento Galibert (PSB), Dr. Miguel Junior (Cidadania), Lucélia Oliveira (Agir), Feitoza (PSB), Enfermeiro Emerson (PP), Wanderley Cerqueira (MDB), Alessandro Moreira (MDB) e Gisa Barros (Podemos). A investigação também alcança os vereadores de Cuiabá Alex Rodrigues e Ilde Taques, ambos do Podemos.
A operação mobilizou mais de 200 policiais e contou com equipes do Comando Regional I, Comando Regional II, Diretoria da Agência Central de Inteligência, Batalhão de Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas (Rotam), Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), Regimento de Policiamento Montado (Cavalaria), Batalhão de Polícia Militar de Proteção Ambiental, RAIO e Grupos de Apoio.
As acusações descritas no inquérito são objeto de investigação e ainda precisam ser apuradas pelas autoridades competentes.
Publicado originalmente em infoverus.com.br



