Direita alcança melhor resultado presidencial desde 1989 e chega ao 2º turno com vantagem no Congresso
Desempenho de Flávio Bolsonaro no primeiro turno foi acompanhado por avanço do bolsonarismo nos Estados e enfraquecimento de partidos de centro e da esquerda fora do Nordeste

A direita alcançou no primeiro turno da eleição presidencial de 2026 seu melhor desempenho desde a redemocratização, em 1989. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) terminou a primeira etapa da disputa com 47% dos votos válidos, à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que obteve 45,2%. O resultado levou os dois ao segundo turno, marcado para 25 de outubro, e consolidou uma vantagem do campo bolsonarista que também apareceu nas disputas para o Senado e os governos estaduais.
A votação de Flávio ficou 3,8 pontos percentuais acima do resultado alcançado por Jair Bolsonaro em 2022 e um ponto acima do desempenho do bolsonarismo em 2018. O avanço presidencial, porém, não ocorreu de forma isolada. O PL terminou o primeiro turno com uma bancada de 28 senadores, a maior do Senado, enquanto candidatos bolsonaristas ou aliados táticos de Flávio venceram em primeiro turno em 14 Estados.
Esse número ainda pode chegar a 15, dependendo da decisão da Justiça Eleitoral sobre a situação do Rio de Janeiro. Caso os votos de Anthony Garotinho (Republicanos) sejam considerados anulados, Douglas Ruas (PL) será considerado governador eleito. O cenário mostra uma expansão da direita também nas disputas estaduais, reforçando o resultado obtido na corrida presidencial.
Segundo turno mais polarizado
A força do campo lulista nas eleições estaduais ficou mais restrita. Candidatos alinhados ao presidente conseguiram a reeleição em primeiro turno em apenas cinco Estados. Ao mesmo tempo, o segundo turno para os governos estaduais ficou restrito a sete disputas — ou seis, caso a situação do Rio de Janeiro seja resolvida como prevê o cenário envolvendo Garotinho.
É o menor número de disputas em segundo turno para governos estaduais desde 1990. O resultado reforça o grau de concentração das eleições de 2026 e reduz o espaço ocupado por candidaturas intermediárias tanto na corrida presidencial quanto nas disputas locais.
Na eleição para presidente, os candidatos que ficaram fora da segunda etapa também apresentaram desempenho majoritariamente associado à direita. Augusto Cury (Avante) terminou com 2,9%, enquanto Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD) tiveram 2,2% cada. Romeu Zema (Novo) registrou 0,3%. Os quatro candidatos de esquerda considerados nanicos somaram 0,17%, enquanto os candidatos nanicos da direita não chegaram a 0,1%.
A soma dos candidatos intermediários ficou em 7,8%, o menor percentual desde 1945. Em 2022, os candidatos eliminados no primeiro turno haviam somado 8,4%, enquanto em 2006, outra eleição marcada pela forte polarização, o índice havia sido de 9,5%.
O resultado indica um cenário de forte afunilamento da disputa entre Flávio e Lula. Com uma parcela reduzida do eleitorado distribuída entre os demais candidatos, a campanha para o segundo turno começa com menos espaço para migrações significativas de votos entre diferentes campos políticos.
Sudeste impulsiona avanço bolsonarista
Um dos principais fatores para a vantagem de Flávio está no Sudeste, justamente a região considerada decisiva para a derrota de Jair Bolsonaro em 2022. Em Minas Gerais, Flávio alcançou 48,4%, praticamente repetindo o percentual obtido por Lula no Estado quatro anos antes. Desta vez, o petista ficou com 43,1%, abaixo dos 43,6% conquistados por Jair Bolsonaro em 2022.
Em São Paulo, a vantagem do bolsonarismo também cresceu. Se na eleição anterior a dianteira havia sido de sete pontos percentuais, agora chegou a 14 pontos. No Rio de Janeiro, a diferença também passou de 11 para 14 pontos, ampliando o desempenho do campo bolsonarista em um dos principais colégios eleitorais do país.
Em Minas Gerais e, principalmente, em São Paulo, parte desse resultado pode ser associada à força dos governadores eleitos, Cleitinho Azevedo e Tarcísio de Freitas, ambos do Republicanos. Mas o desempenho dos candidatos ligados à direita também indica uma força eleitoral própria.
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) foi reeleito com cerca de 3 milhões de votos, o equivalente a aproximadamente 20% do eleitorado apto de Minas Gerais. Em São Paulo, o vereador Lucas Pavanato (PL) recebeu votação praticamente semelhante, correspondente a cerca de 9% do eleitorado paulista apto.
No Rio de Janeiro, o movimento ocorreu em sentido semelhante, mas com a força do bolsonarismo contribuindo diretamente para impulsionar Douglas Ruas. A candidatura, segundo o cenário apresentado, enfrentou dificuldades para se consolidar durante a campanha, mas acabou beneficiada pela força do campo político no Estado.
Lula perde força entre aliados no Sudeste
A frente ampliada da esquerda construída em torno da candidatura de Lula perdeu força em relação a 2022. A presença de Geraldo Alckmin na chapa presidencial havia sido considerada fundamental quatro anos atrás para reduzir a diferença no Sudeste, mas o mesmo movimento não se repetiu desta vez.
Lula também não conseguiu atrair para sua candidatura o mesmo grau de formadores de opinião e segmentos empresariais observado anteriormente. O discurso de que Flávio Bolsonaro representaria uma ameaça à democracia, utilizado em relação a Jair Bolsonaro na eleição anterior, não teria produzido a mesma aderência.
A avaliação do governo na região também pesou no resultado. O desempenho sofrível da administração ao longo do mandato, sobretudo depois da eleição municipal de 2024, acabou cobrando seu preço nas urnas.
Outro Estado decisivo foi o Rio Grande do Sul. Em 2022, o bolsonarismo havia aberto uma vantagem de sete pontos percentuais. Agora, a diferença chegou a 20 pontos. No quinto maior colégio eleitoral do país, a direita ainda conseguiu uma vitória no primeiro turno para o governo estadual, com Luciano Zucco (PL), em um resultado que ficou fora do radar das pesquisas de opinião.
Além disso, a direita conquistou as duas vagas do Estado para o Senado. Com isso, a esquerda ficou sem representante na bancada gaúcha pela primeira vez desde 1974.
Rio Grande do Sul expõe fracasso de alianças
O resultado gaúcho também é apontado como um exemplo da dificuldade do governo Lula em ampliar sua aliança política. Em 2022, Eduardo Leite (PSD) conquistou o governo estadual em uma situação considerada única no país, derrotando simultaneamente candidatos da direita e da esquerda.
Dois anos depois, em 2024, o Estado foi atingido por uma catástrofe climática. Em vez de construir uma aliança com Leite, o governo federal optou por marcar diferenças políticas, criando um ministério extraordinário para atuar na ajuda ao Rio Grande do Sul e entregando o comando da estrutura ao PT.
A escolha contribuiu para evidenciar a dificuldade de Lula em ampliar sua base política em um Estado no qual a direita conseguiu aumentar expressivamente sua vantagem eleitoral em relação a 2022.
Abstenção pode pesar no segundo turno
A abstenção chegou a 21,07% no primeiro turno, ligeiramente acima dos 20,95% registrados quatro anos atrás. O índice, porém, foi proporcionalmente menor no Nordeste, região em que Lula voltou a vencer em todos os Estados.
Os maiores índices apareceram em Estados nos quais Flávio Bolsonaro terminou na liderança: Rio de Janeiro, com 23,8%; Mato Grosso do Sul, com 23,9%; Minas Gerais, com 22,8%; e São Paulo, com 22,5%.
Em 2022, ocorreu pela primeira vez na história uma queda da abstenção no segundo turno em relação ao primeiro. Caso o mesmo movimento se repita agora, o resultado poderá afetar especialmente redutos bolsonaristas. Após a divulgação dos resultados, Lula afirmou que haverá esforço para tentar reduzir o número de eleitores ausentes na segunda etapa.
PT sofre derrota fora do Nordeste
A derrota do PT foi mais ampla do que a enfrentada pela própria candidatura de Lula. O partido saiu das urnas enfraquecido principalmente nas regiões Sudeste, Sul, Norte e Centro-Oeste, que juntas concentram 36 das 54 cadeiras do Senado em disputa.
Nesse conjunto, Marília Campos, ex-prefeita de Contagem (MG), foi a única candidata do PT eleita para o Senado. O partido, por outro lado, consolidou sua força no Nordeste, onde manteve os governos da Bahia, Piauí e Ceará, além de disputar o segundo turno no Rio Grande do Norte.
Na Bahia, o PT também conquistou as duas vagas ao Senado. O partido ainda reelegeu Humberto Costa (PE) e Rogério Carvalho (SE) e elegeu Samanda Alves (RN). A esquerda ampliou o resultado regional com as reeleições de Cid Gomes (PSB-CE) e as eleições de Luizianne Lins (Rede-CE), João Azevêdo (PSB-PB) e Marília Arraes (PDT-PE).
O desempenho, contudo, foi considerado insuficiente diante da dimensão nacional da disputa e da perda de espaço registrada nas demais regiões.
Centro perde espaço no Senado e nos Estados
Os partidos de centro menos alinhados ao bolsonarismo também tiveram desempenho abaixo do esperado. O PSD, que possuía 14 senadores, caiu para cinco e perdeu os governos de Minas Gerais, Rondônia, Rio Grande do Sul e Paraná.
O MDB teve uma redução menor, passando de nove para oito senadores, mas também sofreu derrotas relevantes. Renan Calheiros (AL) não conseguiu se reeleger, enquanto a deputada Roseana Sarney (MA) fracassou na tentativa de retornar ao Senado.
No PSDB, a derrota de Aécio Neves (MG) encerrou uma carreira parlamentar de quatro décadas, considerada a mais longa do Congresso Nacional. Em Goiás, o ex-governador Marconi Perillo terminou em terceiro lugar na disputa pelo Senado.
No Ceará, o ex-governador Ciro Gomes (PSDB), mesmo tendo se aproximado do bolsonarismo, não conseguiu retornar ao governo estadual. Com o resultado, acumulou a quarta derrota eleitoral consecutiva.
Entre os nomes do centro que conseguiram preservar espaço está a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD). Em uma aliança tática com o bolsonarismo, ela conseguiu se reeleger após uma campanha marcada por uma disputa dura contra João Campos, presidente nacional do PSB.
O primeiro turno, assim, deixa um mapa eleitoral marcado pela expansão da direita, pelo enfraquecimento dos partidos de centro e pela concentração da esquerda no Nordeste. Com Flávio Bolsonaro e Lula separados por menos de dois pontos percentuais, a disputa pelo segundo turno começa em um cenário no qual o campo bolsonarista chega fortalecido não apenas pela votação presidencial, mas também pelo desempenho obtido nas eleições para o Senado e os governos estaduais.
Publicado originalmente em infoverus.com.br



