Gaeco aponta Tião da Zaeli em articulação com Wanderley para tirar Flávia Moretti da Prefeitura
Depoimento de vereador relata conversas sobre a cassação da prefeita e proposta de dinheiro para apoio à Mesa Diretora

O Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de Mato Grosso (MPE), aponta o vice-prefeito e empresário Sebastião dos Reis Gonçalves, conhecido como Tião da Zaeli, como um dos possíveis articuladores externos de um grupo político que teria atuado para viabilizar a cassação da prefeita de Várzea Grande, Flávia Moretti. Conforme os elementos reunidos na investigação, a movimentação estaria ligada à tentativa de fortalecer o grupo liderado pelo vereador Wanderley Cerqueira e abrir caminho para que ele assumisse o comando do Executivo municipal.
Tião da Zaeli ocupava o cargo de vice-prefeito na gestão de Flávia Moretti, mas renunciou em março e, posteriormente, assumiu a presidência da Fecomércio. As suspeitas envolvendo seu nome aparecem em depoimentos colhidos no Procedimento Investigatório Criminal que apura possíveis práticas de extorsão, corrupção passiva e coação na Câmara Municipal de Várzea Grande. Os relatos indicam que as articulações políticas investigadas não estariam restritas à disputa pela presidência do Legislativo, mas também envolveriam a possibilidade de mudança no comando da Prefeitura.
Vereador relata conversa sobre cassação de Flávia
Entre os depoimentos citados na investigação está o do vereador Caio Cezar Cordeiro de Almeida. Aos promotores de Justiça e delegados do Gaeco, ele relatou ter sido procurado por Tião da Zaeli para apoiar a reeleição de Wanderley Cerqueira à presidência da Câmara Municipal.
Segundo o relato incorporado aos autos, durante as conversas políticas também foi mencionada a possibilidade de cassação do mandato de Flávia Moretti. O depoimento relaciona essa hipótese à eventual ascensão de Wanderley ao Executivo municipal, indicando que a retirada da prefeita do cargo teria sido considerada uma alternativa para alterar o comando político da cidade.
O trecho reproduzido no Procedimento Investigatório Criminal registra que foi “mencionado a perspectiva de cassação da Prefeita Flávia Moretti, circunstância que, segundo o depoente, poderia conduzir Wanderley, posteriormente, à chefia do Poder Executivo Municipal”.
A informação integra os elementos reunidos pelo Ministério Público para investigar a atuação de agentes políticos e particulares nas articulações. O conteúdo dos depoimentos, porém, representa relatos e suspeitas sob apuração, não uma conclusão judicial definitiva sobre a responsabilidade dos citados.
Depoimento menciona proposta de dinheiro a vereador
Além da possível articulação para alterar o comando da Prefeitura, a investigação reúne relatos sobre supostas ofertas de vantagens financeiras a parlamentares para assegurar apoio à composição da Mesa Diretora da Câmara. Um dos episódios descritos por Caio Cordeiro teria ocorrido na residência da mãe de Wanderley Cerqueira, durante uma reunião com integrantes do grupo político.
De acordo com o termo de depoimento mencionado na peça investigativa, o vereador afirmou ter conversado diretamente com Wanderley e Tião da Zaeli. Na ocasião, segundo sua versão, teria sido apresentada a possibilidade de receber dinheiro em troca de apoio, proposta que ele declarou ter recusado.
O documento registra que o parlamentar “afirmou ter conversado diretamente com Wanderley e Tião da Zaeli, oportunidade em que lhe teria sido aventada a possibilidade de recebimento de dinheiro, proposta que afirmou ter recusado”.
O relato é um dos pontos utilizados para sustentar a apuração sobre possíveis negociações financeiras envolvendo vereadores. O Ministério Público busca esclarecer se as tratativas tinham como finalidade assegurar votos na eleição interna da Câmara e consolidar a influência do grupo sobre as decisões do Legislativo municipal.
Gaeco investiga mensalinho e mecanismos de pressão
Os relatórios da investigação descrevem uma suposta estrutura de sustentação política baseada em pagamentos mensais a parlamentares, prática conhecida como “mensalinho”. Conforme os elementos reunidos pelo Gaeco, os valores seriam de aproximadamente R$ 10 mil por vereador.
A apuração também aponta suspeitas de exigência de cartas de renúncia assinadas em branco e utilização de gravações ocultas como instrumentos de pressão e chantagem política. Esses mecanismos, segundo a linha investigativa, poderiam servir para manter parlamentares alinhados ao grupo e ampliar o controle sobre as decisões da Câmara.
Ao apresentar a estrutura que está sob investigação, o Ministério Público atribuiu a Wanderley Cerqueira a posição central no grupo e mencionou o suposto apoio de outros agentes políticos e particulares, entre eles Tião da Zaeli.
“O grupo teria como figura central o vereador Wanderley Cerqueira e contaria com a participação e o apoio de outros agentes políticos e particulares, dentre eles Sebastião dos Reis Gonçalves, conhecido como Tião da Zaeli”, aponta o relatório ministerial.
A investigação procura esclarecer como funcionaria essa rede de relações, quais seriam os papéis desempenhados pelos envolvidos e se as suspeitas de pagamentos e coação estariam relacionadas às articulações para a eleição da Mesa Diretora e à possível cassação da prefeita.
Ministério Público pede buscas e acesso a dados eletrônicos
Diante dos indícios reunidos sobre possíveis crimes contra a Administração Pública, o Ministério Público solicitou ao Juízo das Garantias de Cuiabá a expedição de mandados de busca e apreensão pessoal, veicular e domiciliar contra os investigados. Também pediu o afastamento do sigilo telemático e a extração de informações armazenadas em contas de e-mail e serviços de nuvem, incluindo Google Drive, iCloud e Outlook.
As medidas têm como objetivo recolher aparelhos eletrônicos, documentos e outros elementos que possam contribuir para esclarecer a circulação de dinheiro em espécie, as comunicações entre os suspeitos e a eventual participação de outras pessoas nas condutas investigadas.
O material apreendido poderá ajudar a verificar os relatos apresentados nas oitivas e reconstruir as articulações descritas pelo Gaeco. A apuração busca esclarecer se houve uma estrutura organizada de negociação de apoio político, pressão sobre parlamentares e tentativa de interferência no comando do Executivo de Várzea Grande.
Publicado originalmente em infoverus.com.br



