Com incerteza sobre ajuste fiscal, empresas adiam ofertas de ações para 2027
Para analistas, movimentações ficarão em compasso de espera até que haja sinais claros de austeridade fiscal e estabilização cambial do governo

Passada a eleição presidencial, as empresas aguardam sinais de como será a política econômica no governo Lula 4, incluindo o novo ministro da Fazenda e o tamanho do ajuste fiscal. Diante da incerteza, colocaram em compasso de espera possíveis ofertas subsequentes de ações (os chamados follow-ons) na Bolsa brasileira, segundo analistas de mercado.
Levantamento da Bloomberg aponta que ao menos R$ 30 bilhões em operações como essas poderiam se concretizar nos seis meses seguintes ao segundo turno, caso Flávio Bolsonaro (PL) tivesse ganhado nas urnas, mas, com a reeleição do presidente Luís Inácio Lula da Silva, a maré virou.
Logo após o primeiro turno das eleições, a aposta predominante entre agentes financeiros era de uma vitória de Flávio Bolsonaro, cuja promessa de um forte ajuste fiscal sinalizava, na visão de analistas, um ambiente de negócios mais favorável para captação de recursos. A expectativa era que se abrisse uma janela de oportunidade para oferecer ações ao mercado já entre novembro e dezembro deste ano.
Bancos de investimento já tinham propostas para operações de follow-on, que seriam protocoladas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em breve, segundo um executivo de banco. Um banqueiro disse ao GLOBO que, com juros elevados, aguardava-se que diversas empresas fossem buscar recursos no mercado de capitais através dessa oferta de ações secundária logo depois da definição da eleição presidencial.
Estabilidade do câmbio
Mas, com a confirmação da vitória de Lula, a Bolsa teve a maior queda desde 2020, período da pandemia, no dia seguinte ao resultado, com recuo de mais de 13%, e o dólar subiu mais de 8%, maior alta em 23 anos. Com essa volatilidade, os especialistas apontam que as ofertas das companhias, agora, devem levar mais tempo, com as captações sendo empurradas para 2027 ou até que haja sinais claros de austeridade fiscal e estabilização cambial.
Antes do desfecho eleitoral, entre as empresas que, segundo analistas, poderiam fazer oferta de ações no mercado (embora ainda não houvessem sinalizado formalmente) estavam Movida, EcoRodovias, Equatorial, Guararapes e Taesa.
Além disso, também havia crescido a expectativa de que a melhora das previsões poderia trazer a volta das aberturas de capital (IPOs, da sigla em inglês), com novas empresas chegando à Bolsa. Entre elas a Aegea, que atua no setor de saneamento, e o banco BV são citados pelos analistas, já que ambas vêm planejando sua oferta inicial de ações há tempos, mas adiaram por razões diversas: desde o cenário macroeconômico mais negativo até mesmo uma baixa contábil (no caso da Aegea), que não afetou o caixa, mas elevou a percepção de alavancagem. Procuradas, a Aegea e o BV não comentaram o assunto.
— Os IPOs são mais difíceis de destravar do que os follow-ons, pois a entrada de uma nova empresa na Bolsa exige maior grau de confiança e previsibilidade do investidor em relação ao cenário macroeconômico de longo prazo — diz Guilherme Filardi, sócio do DDSA Advogados, especialista em direito societário.
Desde setembro de 2021, a Bolsa brasileira está numa “seca” de IPOs. Não há registro de nova operação de abertura de capital desde então.
Segundo Bruna Sales, advogada da área de direito societário do Fonseca Brasil Serrão Advogados, embora seja cedo para estabelecer um calendário definitivo, a expectativa predominante no mercado é que operações relevantes de oferta de ações sejam postergadas para 2027. Essa reabertura, diz ela, está condicionada à expansão da previsibilidade fiscal, à trajetória dos juros e à estabilização do câmbio.
— As companhias não precisam necessariamente aguardar uma queda efetiva da Selic para voltar ao mercado. Uma sinalização consistente de melhora macroeconômica e redução de volatilidade já pode reabrir a janela — diz a advogada, citando como exemplo o ano de 2007, recorde de IPOs (64 no total), mesmo com a Selic acima de 11%, porém em trajetória de queda.
Ritmo contido
Até mesmo no mercado de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês), o atual cenário deve ditar um ritmo mais contido de fechamento de negócios. Segundo Alexandre Pierantoni, líder da prática de investment banking da Kroll na América Latina, o volume de transações de M&A no país este ano já acumulava queda de 30% (passando de 1,4 mil operações no ano passado para um número projetado de 1,1 mil operações) antes mesmo das eleições. Trata-se de um percentual de redução bastante representativo num período pré-eleição, diz Pierantoni. Ele lembra, entretanto, que o volume financeiro estava mais alto em 15%.
— A expectativa agora é de continuidade desse cenário mais cauteloso. O investidor brasileiro e o internacional vão esperar entre seis e oito meses para se definirem, a não ser que apareça um negócio de oportunidade — diz Pierantoni, ressaltando que negócios continuam acontecendo em setores específicos, como mineração, tecnologia, energia, infraestrutura e finanças.
Para Denis Morante, sócio-fundador da Fortezza Partners, assessoria em M&As, negócios de porte como o anunciado pelo Itaú, que comprou na semana passada a NeoSpace AI, uma startup de inteligência artificial de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, por R$ 2,9 bilhões, tornaram-se escassos e isolados neste momento.
— Isso ilustra a retração geral do mercado brasileiro de fusões e aquisições, que pode fechar o ano abaixo da marca histórica de mil transações — prevê o especialista.
Além disso, diz Morante, operações em setores como varejo e agro tendem a ser mais prejudicadas.
— Varejo, em razão do elevado endividamento das famílias e da perda de poder de compra diante de juros altos. E o agronegócio enfrenta forte pressão pelo avanço do endividamento das empresas do setor e alavancagem elevada, reduzindo a atividade de compra e venda convencional — explica ele, lembrando também que o agro enfrenta forte movimento de empresas entrando em recuperação judicial.
Ordem é prudência
Nesse cenário, analistas apontam que as discussões da Azzas envolvendo a venda da Farm, marca brasileira de moda e estilo de vida, poderiam ser postergadas. Uma fonte próxima ao negócio, entretanto, diz que o interesse pela Farm se mantém elevado, considerando que 40% da receita vem do exterior e é atrelada ao dólar, aumentando a atratividade da empresa.
Nos bastidores, a informação é que mais de uma dezena de propostas já foi feita pela Farm, seja por fundos de investimento ou por grandes corporações internacionais, embora a aquisição ainda não esteja concretizada. O valor estimado da Farm fica entre R$ 3,5 bilhões e R$ 5 bilhões.
— O adiamento de uma oferta de ações não representa necessariamente o abandono dos projetos. Em muitos casos, é uma decisão de prudência, que preserva o valor da companhia, e evita operações realizadas em condições financeiras desvantajosas — diz a advogada Daniela Poli Vlavianos, sócia do Poli, Porto & Andreghetto Advogados e especialista em direito empresarial.
Procurada, a Movida informou que mantém o foco na execução de seu planejamento, que tem sustentado um desenvolvimento consistente mesmo diante de diferentes cenários macroeconômicos. A estratégia segue pautada pela eficiência operacional, disciplina financeira e geração de valor para seus acionistas, diz.
A Taesa informou que não comenta especulações de mercado e qualquer informação relacionada a esse ou a qualquer outro tema de interesse do mercado será feita via os canais oficiais da companhia. A empresa reforçou seu compromisso de manter o mercado informado na forma da legislação e da regulamentação atualmente em vigor. A Guararapes informou que não comenta especulações de mercado e reiterou que não possui oferta de ações em curso. EcoRodovias e Equatorial não fizeram comentários.
Publicado originalmente em oglobo.globo.com

