Investimento em infraestrutura e aumento da produtividade são desafios para Lula 4
Equilíbrio das contas públicas deve ser acompanhado de ações de longo prazo, como investimento para ampliar competitividade, dizem especialistas

Além dos problemas fiscais, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva terá o desafio, em seu quarto mandato, de encaminhar medidas para aumentar a produtividade do país e a abertura comercial, assim como melhorar a infraestrutura e reduzir a insegurança jurídica, avaliam especialistas. Em paralelo, será necessário também atuar para reduzir o endividamento da população, retomando agendas do mercado de crédito.
Analistas entendem que a disparada do dólar e a queda da Bolsa após o resultado das eleições refletem mais uma reversão de expectativas de curto prazo do que problemas nos fundamentos da economia. Ainda assim, fica clara a cobrança do mercado pelo ajuste fiscal. Com isso, iniciativas voltadas para o equilíbrio das contas públicas são urgentes, pedindo direcionamento ainda neste ano.
Em relação ao alto endividamento da população, o plano já está traçado com a compra de dívidas por meio do Desenrola 3.0. Existe ainda uma outra dimensão da discussão sobre crédito que o governo terá de retomar, como a sobre os elevados spreads, que mantêm alto o juro cobrado do consumidor mesmo em momentos de queda da taxa básica de juros, a Selic.
Também a manutenção da trajetória de queda da Selic — na qual já é esperada uma pausa ao menos neste mês — dependerá de sinalizações mais firmes do governo para organizar a agenda fiscal.
Desburocratização
O economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, avalia que, caso o país consiga vencer o desafio das contas públicas de curto prazo, investimento pesado em infraestrutura será necessário para criar as bases de um crescimento mais sustentável:
— Essa agenda avançou. Antes desse governo, chegou a ficar parada. Mas existe algum preconceito com investimento privado e essa agenda é pouco priorizada, avança muito lentamente — destaca ele. — Tem uma urgência para que as coisas aconteçam. Estados que são importantes para a agroindústria precisam ter competitividade portuária, por exemplo.
Outra prioridade é avançar em produtividade para impulsionar o desenvolvimento. Mesmo o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, já disse que o modelo de crescimento baseado no estímulo ao consumo se esgotou.
Lula apostou nessa receita para manter a economia aquecida em meio à campanha eleitoral, com diferentes programas de crédito com juros subsidiados — convivendo com uma Selic baixando a conta-gotas. A tendência, agora, dizem os especialistas, é que programas criados no ano das eleições sejam encerrados, a exemplo do Move Brasil, para compra de veículos por motoristas de táxi e de aplicativos.
Flávio Serrano, economista-chefe do Banco BMG, menciona a necessidade de menor intervenção setorial, como a feita com programas de crédito subsidiado, que não deveriam ser renovados. Outros temas importantes, diz ele, são a reforma administrativa e a maior abertura comercial:
— É necessário ainda uma agenda de Parcerias Público-Privadas (PPPs), para fomentar a infraestrutura, e desburocratizar alguns setores.
Educação e estatais
Para Livio Ribeiro, sócio da consultoria BRCG e pesquisador associado do Ibre/FGV, é preciso investir na qualidade da educação, em vez de apenas na quantidade. Ele destaca que todo país que superou a armadilha da renda média fez investimentos maciços nessa área.
Na mesma linha, Cristiano Oliveira, diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, recomenda ampliar o ensino técnico, aproximar os currículos das necessidades das empresas e criar programas de requalificação profissional em tecnologia, automação e inteligência artificial (IA).
— O governo precisa ter uma agenda própria de IA, voltada a aumentar a eficiência da administração federal, reduzir a burocracia e melhorar a prestação dos serviços públicos — ressaltou, incluindo ainda estabelecer prazos para as decisões administrativas, além de dar maior estabilidade às regras das agências reguladoras.
Na equipe econômica, um dos focos é avançar em empreendedorismo em bases digitais, IA e novas tecnologias, mobilidade urbana e descarbonização, considerando os fundos de apoio já existentes. Outro tema é a Reforma Tributária, que no quarto mandato vai mirar na implementação das mudanças dos impostos sobre o consumo e da taxação da renda corporativa.
Ribeiro destaca a instabilidade das regras para implementação do novo regime tributário, criticando a indefinição sobre a alíquota da Contribuição de Bens e Serviços (CBS), que vai valer em 2027:
— Como fazer o planejamento para 2027 sem saber qual é o imposto que se vai pagar? Temos hoje incerteza de coisas super básicas para poder avaliar um projeto de investimento.
Padovani, do Banco BV, também observa que, dado o cenário geopolítico adverso, especialmente com o protecionismo dos EUA, o Brasil deveria ampliar mais os acordos comerciais internacionais.
Parte dos interlocutores do governo diz que será preciso um olhar mais atento para as estatais, revendo a governança e a gestão de empresas públicas com problemas, a exemplo dos Correios.
Publicado originalmente em oglobo.globo.com

