Da derrota de Wellington à força do bolsonarismo: como Ananias Filho vê o fim do espaço para o Centrão
Presidente do PL em Mato Grosso atribui derrota de Wellington Fagundes à aliança com o MDB, defende alinhamento integral ao bolsonarismo

O presidente estadual do PL, Ananias Filho, avalia que a política brasileira caminha para uma polarização cada vez mais concentrada entre direita e esquerda, com redução do espaço para partidos e lideranças que tentam ocupar posições intermediárias. Em entrevista ao PodOlhar, videocast do Olhar Direto, ele defendeu que o bolsonarismo continuará ditando as principais pautas da direita e afirmou que os eleitores exigirão posicionamentos mais claros dos candidatos nas próximas disputas.
Na avaliação do dirigente, o país se aproxima de um modelo semelhante ao dos Estados Unidos, onde diferentes partidos disputam espaço, mas dois grandes campos políticos concentram a maior parte da força eleitoral. Nesse cenário, siglas como União Brasil, PP, PSD e MDB poderiam enfrentar dificuldades caso não apresentem uma identidade ideológica mais definida.
“Olha, o Brasil não volta mais e não quer mais o Centrão. Os eleitores estão conscientes disso. Eu já praticava isso e falava isso. Que nós estamos indo para um bipartidarismo à la Estados Unidos. Que tem vários partidos, mas que dois comandam o país. É a direita e a esquerda”, afirmou.
Bolsonarismo como referência para a direita
Ananias considera que o bolsonarismo deixou de ser apenas uma corrente política dentro da direita e passou a definir a agenda defendida por esse campo. Para ele, a identificação ideológica terá peso crescente na relação entre candidatos e eleitores, especialmente entre aqueles que se reconhecem no movimento liderado pela família Bolsonaro.
“O bolsonarismo dentro da direita é ela que dá o tom. Ela que dá a magnitude da agenda que quer ser defendida e implementada. Isso não pode deixar de ser reconhecido”, declarou.
O presidente do PL também rejeitou a ideia de que discursos moderados ou posições intermediárias sejam suficientes para conquistar apoio eleitoral. Segundo ele, os políticos precisarão apresentar publicamente suas prioridades e demonstrar compromisso com as pautas que defendem.
“Não existe discurso ponderado. Discurso você vai ter que ser o seguinte, posicionamento. O meu posicionamento é esse, esse e esse. E a agenda que se defende é essa e eu vou defender essa agenda. Não se pode ficar no ‘nhem nhem nhem’”, disse.
Questionado se essa exigência poderia estimular o extremismo, Ananias respondeu que considera mais importante a clareza do posicionamento político. “Não é extremismo, mas é o posicionar. A pauta é de extrema, pode ser até de extrema, mas você tem que se posicionar”, afirmou.
Na avaliação dele, candidatos que tentarem transitar entre os dois campos poderão ser vistos como pouco comprometidos por eleitores de ambos os lados. “Se você pisar na faixa, você vai ser considerado um cara morno. E morno nem a esquerda vai aceitar e nem a direita”, acrescentou.
Aliança com MDB voltou a levantar dúvidas sobre Wellington
Ananias relacionou essa leitura da política nacional à derrota de Wellington Fagundes (PL) na disputa pelo Governo de Mato Grosso. Segundo ele, a aliança eleitoral com o MDB, que teve Janaína Riva como candidata ao Senado, reavivou questionamentos de parte do eleitorado conservador sobre o posicionamento político do senador.
Durante a campanha, Wellington voltou a ser chamado de “melancia”, expressão usada por críticos para questionar sua identificação com a direita e fazer referência a alianças anteriores com o PT. Para Ananias, a aproximação com o MDB contribuiu para que essas críticas voltassem a ganhar força, apesar da atuação recente de Wellington no Congresso.
“Olha, aí tudo voltou por causa da aliança. Se não tivesse a aliança, não voltava nada disso. Porque o povo já estava confiando nele na forma de ele agir, que ele é uma pessoa de direita. Ele tem formação de direita, ele é empresário, ele defende a classe empresarial, foi presidente da Associação Comercial e Industrial de Rondonópolis”, afirmou.
O dirigente também argumentou que a aproximação de Wellington com o PT ocorreu em um período no qual o próprio PL participava de alianças com os petistas. Segundo ele, o senador respeitou as decisões partidárias ao longo da trajetória política, mas acabou enfrentando consequências eleitorais de alianças anteriores em um cenário no qual a identidade ideológica ganhou maior importância.
Ananias sustentou ainda que a defesa de pautas conservadoras, isoladamente, pode não ser suficiente para garantir a confiança do eleitor bolsonarista. Questionado sobre a necessidade de fidelidade pessoal à família Bolsonaro, ele afirmou que o compromisso deve ser com o movimento político como um todo.
“Tem que ser fidelidade 100% ao movimento de direita e 100% ao bolsonarismo”, declarou.
Eleitorado dividido e disputa entre Lula e Flávio
Ao projetar o comportamento dos eleitores, Ananias estimou que direita e esquerda concentram, cada uma, entre 40% e 45% do eleitorado, enquanto cerca de 10% poderiam mudar de posição entre as disputas. Os percentuais foram apresentados como avaliação pessoal do dirigente, sem indicação de uma pesquisa específica.
Ele comparou esse grupo aos chamados swing states dos Estados Unidos, estados em que a disputa entre Republicanos e Democratas costuma ser mais equilibrada e o resultado pode ser decisivo para a eleição presidencial.
Na avaliação de Ananias, os eleitores que não se identificam de forma permanente com um dos dois campos poderão ter papel importante no segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). O presidente estadual do PL demonstrou confiança na vitória do candidato de seu partido.
“Você pode ter certeza, Flávio Bolsonaro é o nosso próximo presidente da República. Eu não tenho nem dúvida sobre isso”, afirmou.
Ananias argumentou que parte dos eleitores que apoiaram Lula anteriormente poderá optar por Flávio, motivada pela avaliação que fazem do governo federal. A declaração, porém, representa a expectativa política do dirigente, e não um resultado eleitoral consolidado.
Medeiros, Balbinotti e Abilio são apontados como lideranças
Em Mato Grosso, Ananias indicou o senador eleito José Medeiros (PL), o empresário Odílio Balbinotti, primeiro suplente de Medeiros, e o prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), como nomes que poderão conduzir a direita no Estado nos próximos anos.
“José Medeiros, Odílio Balbinotti, o prefeito Abilio, são pessoas que estão na crista hoje para liderar o processo da direita no Mato Grosso. Não tem nem dúvida sobre isso”, afirmou.
O presidente do PL espera que o fortalecimento dessas lideranças seja acompanhado pelo surgimento de novos nomes nos municípios, ampliando a presença do partido nas próximas disputas eleitorais. Ao comentar os resultados recentes, destacou o desempenho de Medeiros e Balbinotti, além da posição de Abilio na política estadual.
“Medeiros sai muito fortalecido, Odílio Balbinotti muito fortalecido e Abilio muito fortalecido”, completou.
A avaliação de Ananias ocorre após uma eleição em que o PL conquistou três cadeiras na Câmara dos Deputados e ampliou de duas para quatro sua bancada na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, mas não conseguiu eleger Wellington Fagundes para o governo estadual. Para o dirigente, o resultado reforça a importância que a identidade política e as alianças partidárias podem assumir na disputa pelo eleitorado conservador.
Fonte Olhar Direto
Publicado originalmente em infoverus.com.br



