Da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro: por que o próximo presidente terá de governar em um mundo imprevisível
Eleições nos Estados Unidos, na França e na Argentina podem alterar o equilíbrio internacional em 2027

O próximo presidente do Brasil deverá assumir o governo em um cenário internacional mais complexo, marcado por mudanças políticas em potências globais, disputas entre diferentes correntes ideológicas e relações diplomáticas cada vez menos previsíveis. A avaliação é do economista Otaviano Canuto, professor da Elliott School of International Affairs, da George Washington University, nos Estados Unidos, e ex-vice-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Segundo Canuto, a conjuntura global que o próximo chefe do Executivo encontrará nos próximos meses será mais difícil do que a atual. O cenário representa um desafio tanto para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto para Flávio Bolsonaro (PL), cujas possíveis aproximações internacionais são associadas a grupos políticos distintos.
Embora Lula mantenha relações com governos e partidos de esquerda, enquanto Flávio Bolsonaro esteja mais próximo de lideranças conservadoras, o alinhamento ideológico pode não ser suficiente para orientar a política externa brasileira. As transformações previstas para 2027 tendem a exigir respostas adaptadas a um ambiente internacional em constante mudança.
Eleições podem alterar o equilíbrio internacional
Um dos principais fatores de instabilidade será o resultado das eleições legislativas dos Estados Unidos, conhecidas como midterms, marcadas para 3 de novembro. A disputa poderá modificar a composição do Congresso norte-americano e afetar a capacidade de Donald Trump de conduzir sua agenda até o fim do mandato, em 2029.
As sondagens mencionadas no texto apontam para a possibilidade de o Partido Democrata conquistar maioria no Congresso. Caso isso se confirme, Trump poderá enfrentar mais resistência parlamentar, ampliando as tensões políticas internas e influenciando a condução de decisões com repercussão internacional.
O calendário eleitoral de 2027 também inclui disputas presidenciais na França, entre abril e maio, e na Argentina, em outubro. Na Espanha, uma eleição parlamentar prevista para agosto poderá reorganizar as forças políticas do país. Os resultados desses processos podem alterar prioridades diplomáticas e econômicas, tornando mais difícil antecipar como os governos irão se posicionar diante de questões internacionais.
Alianças ideológicas podem não garantir previsibilidade
Para Vinícius Mariano de Carvalho, professor do Departamento de Estudos de Guerra do King's College, em Londres, o cenário atual representa uma distorção do conceito de realpolitik, tradicionalmente associado à condução das relações internacionais a partir dos interesses concretos dos países.
O pesquisador utiliza o termo surrealpolitik para descrever um ambiente em que as relações entre governos deixam de seguir padrões considerados previsíveis. Nesse contexto, afinidades ideológicas e alianças tradicionais não garantem necessariamente comportamentos coerentes ou duradouros.
“O presidente eleito pode esquecer qualquer ideia de ter relações lógicas com os outros países”, afirma Carvalho. Para ele, o padrão geopolítico atual é marcado pela falta de coerência e de regulação, o que torna mais difícil antecipar decisões e estabelecer estratégias diplomáticas de longo prazo.
Próximo governo terá de lidar com um cenário em transformação
A combinação de disputas eleitorais, mudanças na composição dos parlamentos e possíveis alterações nas prioridades de governos estrangeiros deverá exigir flexibilidade da próxima administração brasileira. Independentemente de quem vencer a eleição presidencial, a política externa terá de considerar um cenário em que relações e interesses podem mudar rapidamente.
A análise de Canuto e Carvalho aponta, assim, para um desafio que vai além das diferenças entre Lula e Flávio Bolsonaro. O próximo presidente terá de formular sua atuação internacional em meio a mudanças que não dependem apenas das escolhas de Brasília, mas também de decisões políticas tomadas em outros países.
Nesse ambiente, a capacidade de adaptação poderá ser tão importante quanto as afinidades ideológicas na construção de relações diplomáticas. A imprevisibilidade internacional, segundo a análise apresentada, tende a limitar a possibilidade de o Brasil contar com alianças estáveis como garantia de apoio em disputas políticas, econômicas e estratégicas.
Publicado originalmente em infoverus.com.br



