Reunião de Moraes com seis integrantes da PF amplia desconfiança no STF em meio a investigações sensíveis
Encontro não foi incluído na agenda oficial e reuniu dirigentes de áreas responsáveis por inquéritos como os casos Master, INSS e investigações envolvendo Jair Bolsonaro

A reunião do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), com integrantes da cúpula da Polícia Federal (PF) provocou desconforto entre magistrados e ampliou as dúvidas sobre os objetivos do encontro. Realizada nesta semana, a conversa contou com o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, e dirigentes de áreas estratégicas da instituição. A informação de que outros dois delegados também participaram aumentou a desconfiança entre setores da Corte.
Além de Rodrigues, estiveram presentes Dennis Cali, diretor da Divisão de Crime Organizado, e Leandro Almada, responsável pela área de Inteligência da PF. Também participaram Vitor Arruda, chefe da Coordenação de Inquéritos Especiais (Cinq), e Guilhermo Catramby, coordenador de Contrainteligência. Os dois últimos são subordinados às diretorias da corporação.
O encontro não constava na agenda oficial, e nem o STF nem a Polícia Federal divulgaram o motivo da reunião. Segundo informações dos bastidores relatadas pelo Estadão, a presença de dirigentes ligados a investigações de grande repercussão aumentou o questionamento entre ministros sobre o propósito da conversa e sobre a possibilidade de interferência no andamento de apurações.
Presença de delegados levanta dúvidas sobre investigações
Um dos pontos que alimentaram a desconfiança é a atuação dos setores representados no encontro. A Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado (Dicor) é responsável por inquéritos relacionados aos casos Master e INSS e abriga a área de inquéritos especiais. Esse setor deverá fornecer ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, informações sobre o envolvimento de magistrados com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Entre os integrantes da Polícia Federal presentes na reunião está Vitor Arruda, um dos signatários do relatório apresentado pelo ministro André Mendonça que aponta a troca de 52 mensagens entre Moraes e Vorcaro. A informação contribuiu para ampliar os questionamentos sobre a presença de responsáveis por investigações sensíveis no encontro com o ministro.
Nos bastidores do Supremo, segundo o relato, há integrantes que levantam a possibilidade de uma tentativa de “fazer um filtro” nas informações relacionadas aos casos. Trata-se, porém, de uma suspeita atribuída a interlocutores da Corte, sem confirmação de que tenha ocorrido qualquer interferência nas apurações.
A Diretoria de Inteligência Policial (DIP), que inclui a área de contrainteligência, também esteve representada. O setor atuou em investigações envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro, entre elas os inquéritos das Fake News, das milícias digitais, das vacinas e dos atos golpistas.
Arquivamento de investigação sobre os Estados Unidos também entrou no debate
A reunião ocorreu antes de uma decisão do diretor-geral da PF que acrescentou um novo elemento às discussões políticas. Na quarta-feira (7), um dia depois do encontro, Andrei Rodrigues arquivou o pedido de investigação sobre uma suposta interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras.
Conforme informações publicadas pela Coluna do Estadão, a medida buscaria evitar a interpretação de que estaria sendo preparada uma “fraude judicial” e sinalizar uma aproximação com o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). A investigação havia sido solicitada pelo ministro Flávio Dino, e não por Moraes.
Para alguns interlocutores que circulam pelo STF, o episódio pode ter desviado a atenção do encontro entre Moraes e os dirigentes da PF. Essa avaliação se baseia, principalmente, na participação de responsáveis por áreas ligadas a investigações que envolvem o sistema financeiro, autoridades públicas e episódios relacionados ao governo Bolsonaro.
Inquérito das Fake News e acesso a documentos sigilosos
A reunião também ocorreu em meio a movimentações envolvendo o inquérito das Fake News. O procedimento passou para as mãos de Edson Fachin, que determinou uma revisão do processo, composto por mais de uma centena de casos vinculados. O sigilo dos autos continua mantido, enquanto o presidente do Supremo analisa as peças antes de encaminhar o procedimento para encerramento.
Segundo o relato, a eventual divulgação dos documentos poderá permitir o acesso aos atos praticados ao longo da investigação, que tramita há mais de sete anos. A revisão do material passou a integrar o contexto de tensão em torno da atuação de Moraes e dos limites das apurações conduzidas sob sigilo.
Foi depois da reunião com a cúpula da PF que o ministro Luiz Fux solicitou à área técnica do Supremo acesso a investigações sigilosas que estavam sob a relatoria de Moraes. Nesta sexta-feira (9), Fachin negou o acesso imediato e afirmou que analisa os documentos antes de arquivar o inquérito das Fake News.
Na manifestação, Fachin indicou que o encerramento deverá ocorrer com garantia de publicidade dos atos e acesso integral aos documentos solicitados por Fux. A decisão, portanto, não representou uma liberação imediata do material, mas apontou a possibilidade de acesso após a conclusão da análise e o encaminhamento para arquivamento.
Ação do PP também envolve disputa sobre investigações
O pedido de Fux foi apresentado no âmbito de uma ação do Progressistas (PP), partido que apoia a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. O processo chegou ao Supremo em 2024 e questiona a legalidade das investigações sobre a tentativa de golpe atribuída a Jair Bolsonaro.
A coincidência entre essas movimentações, a revisão do inquérito das Fake News e a reunião de Moraes com dirigentes da Polícia Federal ampliou o clima de desconfiança descrito nos bastidores do tribunal. Até o momento, contudo, não houve explicação oficial sobre o encontro, e as suspeitas relatadas por interlocutores não comprovam que a reunião tenha sido convocada para interferir em investigações ou direcionar procedimentos.
Publicado originalmente em infoverus.com.br



