Vorcaro diz que Kassab receberia comissão por investimentos no Banco Master
Em tentativa de delação, ex-banqueiro afirmou que presidente nacional do PSD prometia estimular aplicações de regimes previdenciários municipais

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em uma tentativa de acordo de colaboração premiada com a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR), que o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, seria o destinatário final de parte de comissões pagas pelo Banco Master em operações envolvendo investimentos de fundos previdenciários públicos. Segundo o relato, Kassab teria prometido incentivar administrações municipais comandadas pelo PSD ou aliadas à sigla a aplicar recursos de seus regimes de previdência nos produtos financeiros oferecidos pela instituição.
Kassab negou as acusações em nota e classificou o relato como “absolutamente fantasioso”. O político afirmou que nunca atuou em favor de fundos previdenciários para beneficiar o Master ou qualquer outra instituição financeira, além de negar ter tratado de doações com Vorcaro ou representantes do banco.
A tentativa de colaboração do ex-banqueiro já teve três propostas rejeitadas pela PF e pela PGR. Segundo as informações divulgadas, os órgãos apontaram omissões sobre fatos que já haviam sido descobertos durante as investigações. Vorcaro está preso preventivamente desde 4 de março, quando foi alvo da terceira fase da Operação Compliance Zero, e permanece na Papudinha, no Complexo da Papuda, em Brasília.
Banco buscou ampliar captação com fundos previdenciários
De acordo com o relato atribuído a Vorcaro, o Banco Master decidiu ampliar, a partir de 2023, a oferta de letras financeiras a fundos previdenciários de estados e municípios. A estratégia teria ocorrido em meio a dificuldades para captar recursos por meio de Certificados de Depósito Bancário (CDBs), especialmente para substituir aplicações que estavam vencendo.
Naquele período, segundo o relato, a instituição enfrentava obstáculos para renovar os CDBs, enquanto parte expressiva dos recursos captados era direcionada a fundos de investimento, precatórios e direitos creditórios de baixa liquidez.
O banco também patrocinou iniciativas no Congresso Nacional para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que à época era de R$ 250 mil, para R$ 1 milhão. A proposta, no entanto, não avançou.
As letras financeiras têm uma característica importante para os investidores: não contam com a proteção do FGC. Em caso de liquidação da instituição emissora, os detentores desses títulos passam a ser credores e podem perder os valores aplicados.
Segundo Vorcaro, os contatos entre o Banco Master e Kassab eram feitos por meio de Augusto Lima, ex-sócio do banqueiro e interlocutor do presidente nacional do PSD.
Fundos públicos investiram R$ 1,88 bilhão
Os regimes próprios de previdência social administram recursos destinados ao pagamento de aposentadorias e pensões de servidores públicos efetivos. O dinheiro é formado por contribuições dos próprios trabalhadores e dos governos e pode ser aplicado no mercado financeiro, dentro das regras estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional e sob fiscalização do Ministério da Previdência.
Dados do governo federal citados no relato apontam que 21 regimes previdenciários de estados e municípios investiram, juntos, R$ 1,88 bilhão em letras financeiras do Banco Master entre 2023 e 2024.
O maior volume foi aplicado pelo fundo de previdência dos servidores do estado do Rio de Janeiro, com R$ 970 milhões. Na sequência aparecem o fundo dos servidores do Amapá, com R$ 400 milhões; o de Maceió (AL), com R$ 97 milhões; o de São Roque (SP), com R$ 93,1 milhões; e o de Cajamar (SP), com R$ 87 milhões.
As aplicações desses fundos passaram a integrar investigações da Polícia Federal. Desde o início das apurações relacionadas ao caso Master, a corporação realizou pelo menos oito operações que tiveram como alvo investimentos previdenciários em letras financeiras do banco.
Entre os casos investigados estão as aplicações do Rio de Janeiro, alvo da oitava fase da Operação Compliance Zero; de Macapá, investigadas na Operação Zona Cinzenta; de Maceió, na Compliance 82; e de Cajamar, na Operação Off-Balance.
Mensagens citam pedido para retirar críticas ao investimento
O nome de Kassab também aparece em mensagens encontradas no celular de Vorcaro. Segundo o material relatado, em outubro de 2024 o ex-banqueiro pediu ao então sócio Augusto Lima que procurasse o dirigente político.
O objetivo seria conseguir que Kassab interviesse junto ao deputado estadual Luiz Paulo (PSD-RJ) para que ele apagasse das redes sociais um vídeo com críticas à aplicação de recursos do RioPrevidência no Banco Master. De acordo com as informações divulgadas, o pedido não foi atendido.
Essa é a segunda ocasião em que Kassab é mencionado na tentativa de colaboração de Vorcaro. Conforme reportagem do UOL citada no material, o ex-banqueiro também teria relatado doações eleitorais em 2022, intermediadas pelo político, para manter em funcionamento no governo paulista o Credcesta, cartão de crédito consignado ligado a empresas do grupo Master.
Tanto Kassab quanto o governo de São Paulo negaram esse relato.
Kassab nega relação com Vorcaro
Em nota, o presidente nacional do PSD contestou integralmente as declarações atribuídas ao ex-banqueiro. Kassab negou ter qualquer relação com Vorcaro, afirmou que nunca conversou com ele pessoalmente ou por telefone e rejeitou ter recebido recursos ou participado de doações relacionadas ao caso.
“Trata-se de um relato absolutamente fantasioso, o qual refuto com veemência. Nunca tratei de doações com Daniel Vorcaro, representantes do banco Master, e nunca autorizei ninguém a falar em meu nome nestes temas”, afirmou.
O dirigente também negou ter recebido dinheiro em espécie ou realizado qualquer articulação em favor do Banco Master junto a fundos de previdência. Ao final, declarou que desconhece a origem das acusações e que elas não teriam sustentação factual.
As afirmações sobre o suposto pagamento de comissões e a atuação de Kassab fazem parte do relato apresentado por Vorcaro em uma tentativa de colaboração premiada. Kassab nega as acusações, e as propostas de delação do ex-banqueiro foram rejeitadas pela PF e pela PGR.
Fonte Metrópoles
Publicado originalmente em infoverus.com.br



