A eleição de 2026 redesenhou o mapa político de Mato Grosso. Ao definir os ocupantes dos principais cargos a partir de 2027, o resultado das urnas reorganizou alianças, fortaleceu lideranças, encerrou ciclos e abriu novos espaços de poder.
Otaviano Pivetta (Republicanos) foi reeleito governador no primeiro turno com 1.128.099 votos, 60,77% dos votos válidos. A diferença para Wellington Fagundes (PL), segundo colocado, foi de 37,58 pontos percentuais. Doutora Natasha (PSD) terminou em terceiro.
É uma vitória expressiva e que dá a Pivetta uma posição confortável para iniciar o novo mandato. A trajetória ajuda a explicar a força construída nas urnas. Antes de chegar ao Governo, Pivetta ganhou projeção como prefeito de Lucas do Rio Verde, município que se tornou referência nacional pelos indicadores de desenvolvimento e pelo crescimento do Produto Interno Bruto.
Como vice-governador, participou da gestão estadual e acumulou experiência justamente em uma das áreas mais estratégicas para Mato Grosso: infraestrutura e logística. Agora, para o novo mandato, um dos principais compromissos que apresenta é avançar na chegada da ferrovia ao Estado, ampliando as alternativas para o escoamento da produção de grãos e reduzindo a dependência do transporte rodoviário.
A expansão ferroviária também está diretamente ligada a outro desafio que pesa sobre Mato Grosso: melhorar as condições de segurança nas rodovias, pressionadas pelo intenso fluxo de caminhões que transportam a produção agrícola. É nesse ponto que a experiência de Pivetta no desenvolvimento de Lucas do Rio Verde se encontra com o projeto que pretende levar para o Estado: transformar crescimento econômico em infraestrutura capaz de sustentar a próxima etapa do agronegócio mato-grossense.
Mas o desenho político que surge das urnas é maior do que o Palácio Paiaguás.
Mauro Mendes (União Brasil), depois de oito anos à frente do Estado, troca o Executivo pelo Senado. Foi o candidato mais votado para a Casa, com 1.187.352 votos, e leva para Brasília o peso de uma liderança que continuará diretamente ligada à política mato-grossense.
A mudança ganha outra dimensão com a eleição de Virginia Mendes (União Brasil).
Ex-primeira-dama, ela conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados com 102.120 votos. A partir de 2027, Mauro estará no Senado e Virginia na Câmara. O casal passa a ter dois mandatos eletivos, em Casas diferentes do Congresso. É uma configuração inédita para o grupo político.
Virginia chega ao Legislativo depois de anos de atuação pública concentrada especialmente na área social. Agora terá de transformar essa trajetória em mandato parlamentar, construir espaço próprio na Câmara e definir a identidade política que pretende imprimir à sua atuação.
A votação mostra que ela chega com capital eleitoral suficiente para ocupar esse espaço.
A bancada federal de Mato Grosso também revela a dimensão da mudança produzida pelas urnas.
Coronel Fernanda (PL) foi a deputada federal mais votada, com 205.064 votos. O PL elegeu três dos oito representantes do Estado na Câmara e ainda garantiu uma cadeira no Senado, com Zé Medeiros (PL).
Zé Medeiros (PL) retorna ao Senado com 977.777 votos, consolidando a presença do partido na representação federal de Mato Grosso.
A nova bancada federal será formada por Coronel Fernanda (PL), Professora Rosa Neide (PT), Fábio Garcia (União Brasil), Coronel Assis (PL), Virginia Mendes (União Brasil), Juarez Costa (Republicanos), Thiago Boava Hey Roy (PL) e Coronel Roveri (Podemos).
O União Brasil terá duas cadeiras; o PL, três; e PT, Republicanos e Podemos, uma cada.
Nesse cenário, Professora Rosa Neide (PT) representa uma das principais vozes da esquerda. Com 140.351 votos, ela garantiu uma das cadeiras do Estado na Câmara e impede que a bancada federal seja formada exclusivamente por representantes da direita e centro-direita.
No Legislativo estadual, o equilíbrio também mudou.
Max Russi (Podemos) foi o deputado estadual mais votado, com 86.934 votos, praticamente empatado com Lúdio Cabral (PT), que recebeu 86.107.
A diferença está na força partidária. O Podemos terá seis das 24 cadeiras da Assembleia Legislativa e chega à próxima legislatura como a maior bancada da Casa. PL e Republicanos terão quatro cadeiras cada, enquanto o MDB ficará com três.
Isso coloca Max Russi (Podemos) e seu partido no centro das articulações que deverão definir a presidência da Assembleia, as comissões e a relação com o Executivo.
Na Assembleia Legislativa, a renovação será pontual, mas politicamente significativa. Dos 24 deputados que chegam à legislatura 2027-2030, 18 já ocupam cadeira na Casa e seis serão novidades na composição: Samantha Iris (PL), Léo Bortolin (MDB), Alessandra Ferreira (Podemos), Alcino Barcelos (PL) e Adelcino Lopo (Podemos) e retorna para a Assembleia o deputado Ulysses Moraes (Podemos).
Entre os atuais parlamentares que ficam pelo caminho estão Eduardo Botelho (MDB), Júlio Campos (União Brasil), Paulo Araújo (Republicanos), Elizeu Nascimento (Novo) e Juca do Guaraná (PSDB), derrotados na tentativa de reeleição. A mudança representa uma renovação de 25% da Assembleia e, ao mesmo tempo, preserva três quartos da atual composição, garantindo continuidade em meio à mudança do equilíbrio partidário.
A disputa pelo comando da ALMT será, portanto, um dos primeiros capítulos da política pós-eleitoral.
Enquanto alguns grupos avançaram, outros sofreram derrotas com consequências mais profundas.
Janaína Riva (MDB), que deixou a disputa pela Assembleia para concorrer ao Senado, terminou em terceiro lugar, com 519.434 votos. A derrota também foi acompanhada pelo insucesso de sua irmã, Jéssica Riva (MDB), na disputa por uma cadeira na ALMT.
O resultado reduz a presença direta da família Riva no Legislativo estadual e interrompe, pelo menos por enquanto, uma trajetória de forte presença do grupo na Assembleia.
Wellington Fagundes (PL) também terá de reorganizar seu projeto político. Ao trocar a disputa pela renovação no Senado pela candidatura ao Governo, terminou em segundo lugar, com 430.442 votos.
A derrota para o Governo, porém, não tira Wellington do cenário institucional. Ele permanece senador por Mato Grosso até 2031 e passará a dividir a bancada com Mauro Mendes e Zé Medeiros.
Outro símbolo de mudança é a família Campos.
Jayme Campos (União Brasil) encerra seu mandato no Senado sem novo mandato, enquanto Júlio Campos (União Brasil) não conseguiu permanecer na Assembleia Legislativa. A ausência dos dois na próxima legislatura representa uma perda de espaço de uma das famílias mais tradicionais da política de Mato Grosso.
O resultado, porém, não significa que os grupos derrotados tenham desaparecido. Política não funciona assim. O que mudou foi o lugar que cada um ocupa na mesa de negociação.
E esse talvez seja o principal recado das urnas.
Pivetta (Republicanos) sai fortalecido no Executivo. Mauro Mendes (União Brasil) mantém protagonismo, agora no Senado. Virginia Mendes (União Brasil) abre uma nova frente para o grupo Mendes na Câmara. O PL amplia sua presença no Congresso. Max Russi (Podemos) chega à nova Assembleia com votação expressiva e a maior bancada partidária da Casa. Rosa Neide (PT) e Lúdio Cabral (PT) preservam um espaço importante para a oposição de esquerda.
Ao mesmo tempo, Janaína Riva (MDB) perde a disputa pelo Senado, enquanto os irmãos Campos deixam de ocupar seus atuais espaços institucionais. Wellington Fagundes (PL), embora derrotado na corrida pelo Governo, permanece no Senado.
O novo mapa não aponta para um único centro de poder. Ele distribui influência entre o Governo do Estado, o Senado, a Câmara dos Deputados e a Assembleia Legislativa.
É nessa relação que estarão as próximas disputas.
Quem terá acesso ao Palácio Paiaguás? Quem comandará a Assembleia? Como Mauro Mendes (União Brasil) e Virginia Mendes (União Brasil) atuarão em Brasília? Qual será o grau de independência de Pivetta (Republicanos) em relação ao grupo que ajudou a elegê-lo? Como será a convivência entre os três senadores de Mato Grosso? E até onde o PL avançará dentro da base governista?
São perguntas que as urnas ainda não responderam.
A eleição terminou, mas a política de Mato Grosso acaba de entrar em uma nova fase.
Agora começa a disputa menos visível e talvez mais decisiva: a transformação dos votos em alianças, cargos, projetos, influência e capacidade de governar.
66 99977 4262
© 2019. Todos os direitos reservados.