Campos, Riva, Fávaro e Pinheiro sofrem derrotas e perdem espaço na política de MT
Famílias tradicionais não conseguiram eleger representantes para a próxima legislatura da Assembleia ou renovar mandatos no Senado e na Câmara

O resultado das eleições deste domingo (4) marcou uma sequência de derrotas para quatro famílias tradicionais da política de Mato Grosso. Campos, Riva, Fávaro e Pinheiro, que acumularam ao longo de diferentes gerações mandatos e posições de destaque no Estado, não conseguiram eleger nenhum dos integrantes que colocaram nas urnas em 2026.
Em alguns casos, o resultado representa o fim de décadas de presença quase contínua em cargos eletivos. Apesar de não significar o desaparecimento político dos grupos, que ainda mantêm influência partidária, bases eleitorais e possibilidade de disputar novas eleições, a votação altera a presença dessas famílias nos principais espaços de poder a partir de 2027.
O caso mais emblemático envolve a família Campos. Júlio Campos (União), que havia retornado à Assembleia Legislativa em 2023, não conseguiu renovar o mandato. Com mais de 18 mil votos, ficou fora das 24 cadeiras que estarão disponíveis na próxima legislatura.
A derrota ocorreu no mesmo ano em que seu irmão, Jayme Campos (União), decidiu não buscar um terceiro mandato no Senado e tentou viabilizar uma candidatura ao Governo de Mato Grosso, cargo que ocupou entre 1991 e 1994. O projeto, porém, sequer chegou às urnas.
Durante a convenção estadual do União Brasil, a proposta de lançar Jayme ao Governo perdeu por 30 votos a 19 para o grupo que defendia o apoio à reeleição do governador Otaviano Pivetta (Republicanos). Sem candidatura própria, Jayme também deixa o Senado ao final do atual mandato, que termina em fevereiro de 2027.
Com a derrota de Júlio e a saída de Jayme do Senado sem disputar outro cargo, a família encerra o atual ciclo eleitoral sem renovar sua representação parlamentar. A trajetória dos irmãos é marcada por décadas de atuação política, especialmente a partir de Várzea Grande.
Júlio começou a carreira eletiva como prefeito do município, passou pela Câmara dos Deputados, governou Mato Grosso entre 1983 e 1986, voltou a ocupar uma cadeira na Câmara, chegou ao Senado e, anos depois, retornou ao cenário estadual ao conquistar uma vaga na Assembleia.
Jayme também passou pela Prefeitura de Várzea Grande em diferentes períodos, foi governador e exerceu dois mandatos no Senado, sendo o atual iniciado em 2019.
Rivas ficam sem Senado e Assembleia
A família Riva também sai das eleições de 2026 com uma redução significativa de espaço. Depois de mais de três décadas de presença direta na Assembleia Legislativa, o grupo tentou avançar para Brasília e, ao mesmo tempo, manter uma cadeira no Parlamento estadual, mas não conseguiu êxito em nenhuma das duas frentes.
Após três mandatos consecutivos como deputada estadual e duas eleições seguidas como a parlamentar mais votada de Mato Grosso, Janaina Riva (MDB) deixou a disputa proporcional para concorrer ao Senado. Ela terminou em terceiro lugar, atrás de Mauro Mendes (União) e José Medeiros (PL), eleitos para as duas vagas.
Durante boa parte da campanha, Janaina figurou entre os nomes considerados favoritos para uma das cadeiras. Na apuração, entretanto, José Medeiros conseguiu abrir vantagem suficiente para ficar com a segunda vaga. Carlos Fávaro (PSD), que tentava renovar o mandato, terminou em quarto.
A estratégia dos Riva também previa uma mudança na Assembleia. Enquanto Janaina buscava avançar para o Congresso, a irmã mais nova, Jéssica Riva (MDB), tentou conquistar pela primeira vez uma cadeira no Legislativo estadual e ocupar o espaço deixado pela irmã.
Jéssica recebeu mais de 25 mil votos, mas não conseguiu se eleger. Com isso, a próxima legislatura será a primeira desde a chegada de Janaina à Assembleia, em 2015, sem um integrante da família Riva entre os deputados estaduais.
A derrota interrompe uma trajetória iniciada por José Riva, que transformou a Assembleia no principal centro de sua atuação política. Ele começou a carreira como prefeito de Juara e chegou ao Legislativo estadual em 1995, acumulando sucessivas eleições e ocupando a presidência da Casa em diferentes momentos.
Em 2014, Riva tentou disputar o Governo de Mato Grosso, mas teve o registro de candidatura barrado pela Justiça Eleitoral. A esposa, Janete Riva, assumiu a candidatura e terminou em terceiro lugar, com 144.440 votos, correspondentes a 9,92% dos votos válidos.
Naquele mesmo ano, Janaina, então com 25 anos, foi eleita pela primeira vez para a Assembleia. O movimento marcou a passagem de bastão entre pai e filha. Ela permaneceu 12 anos no Parlamento e construiu uma trajetória própria, chegando a afirmar, em entrevista ao PodOlhar, que estava “politicamente emancipada” do pai.
A tentativa seguinte de transição familiar, com Janaina buscando o Senado e Jéssica tentando assumir seu espaço na Assembleia, não se concretizou.
Fávaro perde disputa pelo Senado e filha não se elege
A família Fávaro também teve derrotas em duas frentes. Carlos Fávaro (PSD), que chegou ao Senado após vencer a eleição suplementar de 2020 e posteriormente ganhou projeção nacional como ministro da Agricultura do governo Lula (PT), não conseguiu renovar o mandato.
Fávaro terminou em quarto lugar na disputa pelas duas vagas, atrás de Mauro Mendes, José Medeiros e Janaina Riva. Com isso, seu atual mandato no Senado será encerrado em fevereiro de 2027. O resultado também frustra a tentativa de conquistar, pela primeira vez, um mandato completo de oito anos obtido pelo voto direto.
A disputa também envolveu a nova geração da família. Rafaela Fávaro (PSD), filha do senador, concorreu a uma vaga na Assembleia Legislativa, mas não conseguiu se eleger. Na totalização, ultrapassou 9 mil votos.
Rafaela já havia participado da eleição municipal de 2024 como candidata a vice-prefeita de Cuiabá na chapa de Lúdio Cabral (PT). A dupla chegou ao segundo turno, mas foi derrotada por Abilio Brunini (PL).
Neste ano, pai e filha disputaram simultaneamente cargos majoritário e proporcional, em uma estratégia que buscava manter Carlos Fávaro no Senado e abrir espaço para Rafaela na política estadual. Nenhuma das duas candidaturas conseguiu atingir o objetivo.
Emanuelzinho fica fora da Câmara
A família Pinheiro completa o grupo de sobrenomes tradicionais atingidos pelo resultado eleitoral. Emanuelzinho (PSD), que buscava o terceiro mandato consecutivo como deputado federal, não conseguiu uma das oito vagas destinadas a Mato Grosso na Câmara dos Deputados.
Na apuração consultada, o parlamentar aparecia com mais de 50 mil votos, mas permanecia fora da faixa de eleitos.
Emanuelzinho chegou à Câmara pela primeira vez em 2018, aos 23 anos, e foi reeleito em 2022. Com a derrota deste domingo, deixa o Congresso após oito anos de atuação.
O resultado também afeta uma família cuja presença na política mato-grossense atravessa três gerações. O avô, Emanuel Pinheiro da Silva Primo, foi deputado estadual, presidiu a Assembleia Legislativa e chegou à Câmara dos Deputados em 1971. Ele morreu em julho de 1974, quando buscava a reeleição.
Décadas depois, Emanuel Pinheiro retomou a trajetória eleitoral da família. Foi vereador de Cuiabá, deputado estadual e prefeito da Capital por dois mandatos, entre 2017 e 2024. A terceira geração chegou ao Congresso com Emanuelzinho.
O resultado das eleições de 2026, portanto, não elimina a influência política de Campos, Riva, Fávaro e Pinheiro. As quatro famílias ainda mantêm estruturas partidárias e bases eleitorais que podem sustentar novos projetos. A fotografia deixada pelas urnas, porém, é incomum: os quatro grupos acumularam derrotas na mesma eleição e, a partir de 2027, deixam de ocupar algumas das cadeiras que ajudaram a transformar esses sobrenomes em referências recorrentes do poder político de Mato Grosso.
Publicado originalmente em infoverus.com.br



