Do cansaço à agressividade: campanhas admitem erros e recalculam rota após indecisos reprovarem Flávio e Lula em debate
Baseados nos diagnósticos negativos, aliados modulam as posturas dos presidenciáveis para o encontro da TV Globo, na sexta-feira

A avaliação das campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre o debate da Band converge com o que pesquisas qualitativas constataram na noite de domingo. Baseados no diagnóstico de que o petista pareceu “cansado” e com poucas propostas, enquanto o filho de Jair Bolsonaro chamou atenção negativamente pela agressividade, aliados modulam as posturas para o encontro da TV Globo, na sexta-feira, a dois dias da eleição.
Existe consenso de que houve pouca alteração no cenário eleitoral a partir do primeiro debate entre Lula e Flávio. Pesquisadores que acompanharam grupos focais saíram com a leitura de que o eleitor indeciso segue em disputa. A percepção geral foi de um debate péssimo e desgastante, sobretudo o primeiro bloco, no qual os candidatos tiveram confronto direto por 30 minutos.
— O primeiro bloco deixou todo mundo atônito. Flávio passou imagem de arrogante, prepotente, todos ficaram bravos. Já Lula foi visto como alguém cansado e que titubeou muito — afirma Renato Dorgan, do instituto Travessia, que coordenou grupos em São Paulo. — Os indecisos ficaram tristes. A sensação é de que queriam ir embora. Em 2022, percebi os eleitores mais acirrados; no domingo, constatei uma grande depressão.
Dorgan aponta que, ao fim, instados a classificar o debate em uma palavra, os eleitores escolheram definições como “desgastante”, “triste” e “decepcionante”. Dos quatro indecisos que participaram, três disseram que anulariam o voto, e uma idosa optaria por Lula porque ficou incomodada com a postura desrespeitosa de Flávio, que chegou a imitar o petista de forma jocosa em um momento.
Mesmo no grupo de eleitores do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro no primeiro turno, a atitude de Flávio incomodou. Entre os que optaram por Lula, houve a sensação de que o presidente foi mal e poderia ser mais enérgico. Em geral, o candidato do PL despertou reações positivas quando falou de segurança, e o petista, na hora de abordar pautas sociais.
Presidente do instituto Locomotiva, Renato Meirelles acompanhou à distância uma série de qualitativas com pessoas de diferentes estados. Embora diga que os indecisos seguem em disputa, avalia que Lula se saiu melhor no saldo geral, muito por causa do jeito de se comportar do adversário. Até atributos negativos do petista, como a irritação, acabaram evidenciando a agressividade de Flávio, sustenta.
— Lula passou longe de ser brilhante, mas Flávio fez tanta molecagem que ficou numa posição de “júnior”, não de um presidenciável. O eleitor já conhece Lula e seus defeitos. A novidade era o Flávio, a alternativa a um governo do qual parte considerável desses eleitores não gosta — explica. — E esse eleitor saiu decepcionado. Flávio perdeu a oportunidade de se apresentar como uma mudança viável.
Meirelles observa que a capacidade de comunicação do filho de Bolsonaro surpreendeu positivamente, mas a falta de respostas concretas anulou o atributo e causou incômodo. Já Lula, apesar de ter ido bem em momentos como a pauta social e o SUS, segue sem “vender futuro” aos eleitores.
‘Desastre’
Um terceiro pesquisador, que preferiu falar em anonimato porque conduziu grupos para clientes do mercado financeiro que pediram sigilo, classifica o debate como um “desastre” e reforça a impressão de um Flávio agressivo e um Lula cansado e irritado. A unanimidade nos núcleos, diz, foi de que o encontro televisivo não serviu para decidir o voto — e de que a maioria que participou do estudo teria desligado a televisão ou mudado de canal se não estivesse no experimento.
Todas essas análises dialogam com o balanço feito pelas campanhas. Entre aliados de Flávio, a principal preocupação é com a repulsa que o tom adotado pelo senador pode ter criado nos indecisos. Embora considerem que ele seguiu o treinamento preparado para o debate e demonstrou mais segurança que Lula, interlocutores avaliam que o excesso de provocações fala apenas para apoiadores.
Um dos episódios citados é quando Flávio cobrou respeito do presidente por ter recebido quase 56 milhões de votos no primeiro turno, o que soou como arrogância. Eles também fazem ressalvas às interrupções, às ironias recorrentes e aos gestos de reprovação enquanto Lula falava. Essas atitudes transmitiram uma imagem de “salto alto”, dizem.
As críticas internas incluem as respostas evasivas. Embora a estratégia previsse evitar determinadas discussões, aliados reconhecem que Flávio exagerou. Para o próximo debate, integrantes da campanha defendem que o candidato seja mais propositivo e responda diretamente aos questionamentos, sem abandonar os ataques ao adversário.
No entorno de Lula, avalia-se que ele passou a imagem de cansado no primeiro bloco, considerado o mais importante por concentrar a maior audiência. Pesquisas internas indicaram que o candidato à reeleição “perdeu” essa etapa do confronto.
Outra autocrítica é que o presidente não respondeu diretamente às acusações, nem se defendeu com a firmeza que costuma demonstrar em entrevistas. Quando o senador perguntou se Lula conhecia a lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, seu filho mais velho, o petista alegou que o assunto era da Polícia Federal, sem esclarecer se a conhecia ou não.
A equipe também considera negativo o fato de Lula não ter conseguido apresentar propostas para o futuro, como ponderou Renato Meirelles, apesar de ele ter recebido essa orientação durante o treinamento. O presidente falou sobre as realizações de seus mandatos, mas, na avaliação de quem o cerca, o eleitor não conseguiu captar o que ele pretende fazer em um eventual novo governo.
Apesar da avaliação negativa sobre o primeiro bloco, o entorno de Lula considera que o debate terminou em empate, sem mudança significativa nas intenções de voto ou grande impacto nos indecisos. A campanha pretende explorar duas frentes de desgaste de Flávio nas redes: o desafio feito por Lula para que ambos abram seus sigilos bancários e telefônicos e o fato de o senador não ter respondido a questionamentos do presidente.
Últimos dias
Nesta semana final, além do debate, os candidatos vão intensificar as viagens pelo país e concentrar os últimos atos de campanha em São Paulo, Minas Gerais e Rio, os três maiores colégios eleitorais do país.
Flávio começará a semana pelo Norte, antes de seguir para o Nordeste na quarta-feira. A partir de sexta, dia do debate da Globo, ficará no Sudeste. O candidato tem previsão de agenda no Rio. No sábado, véspera da eleição, a programação inclui atos em Belo Horizonte e de novo no Rio.
Lula terá compromissos no Sul, Nordeste e Sudeste. Ontem, foi ao Rio Grande do Sul, e fará passagens por Maranhão e Pernambuco. No sábado, a previsão inicial é de que Lula participe de uma caminhada pela manhã no Rio, e de outra à tarde em São Paulo.
Perguntas sem resposta
- Licença-maternidade: Lula afirmou que, em 2009, Flávio foi o único deputado estadual a votar contra a ampliação da licença maternidade para as funcionárias da Assembleia e questionou o que ele teria “contra as mulheres”.
- Roberta Luchsinger: Flávio questionou se o petista conhecia a lobista, amiga de Lulinha, investigada por suposto tráfico de influência no governo. “A Roberta é uma questão da Polícia Federal", afirmou o candidato do PT.
- Daniel Vorcaro: O presidente pediu que o oponente explicasse por que pediu R$ 134 milhões para o banqueiro, preso sob acusação de fraude bilionária. “Calma que não é dinheiro por fora igual o teu, não”, desviou o senador.
- Lulinha: O presidenciável do PL virou a artilharia para Fábio Luís, primogênito do rival: “Por que a sua Polícia Federal só vai na casa dela (Luchsinger) e não vai na casa do seu filho. Cadê o Lulinha?”. E questionou quem o sustenta na Espanha.
- Adriano da Nóbrega: Lula questionou se Flávio deu emprego para “a irmã e para a mulher do cara que é do Escritório do Crime, que mandou matar a Marielle (Franco)”. O gabinete de Flávio na Alerj empregou parentes do ex-capitão do Bope.
- Modelo Milei: O petista lembrou que Flávio é aliado do presidente argentino, Javier Milei, e o provocou sobre o cenário das finanças do país vizinho: “Você continua dizendo que o teu modelo é o modelo do Milei?”, questionou o petista.
Publicado originalmente em oglobo.globo.com



