Em pleno 2026, trabalho escravo ainda é realidade em Mato Grosso após 627 resgates em um único ano
Mesmo após centenas de trabalhadores serem retirados de condições análogas à escravidão em 2025, novos resgates ocorreram neste ano; Governo de Mato Grosso afirma que cerca de 70% das metas do plano estadual de enfrentamento já foram realizadas ou estão em andamento
Por Daniel Trindade6 min de leitura

Em pleno 2026, trabalhadores ainda precisam ser resgatados de condições análogas à escravidão em Mato Grosso.
Somente em 2025, 627 pessoas foram retiradas dessas condições no estado, segundo balanço do Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso (MPT-MT). O número chama atenção não apenas pelo tamanho, mas porque os resgates continuaram neste ano, alcançando propriedades rurais, trabalho doméstico e uma empresa de reciclagem.
Os dados colocam em evidência uma realidade que permanece distante de ser apenas um capítulo da história brasileira.
Em 2025, além dos 627 trabalhadores resgatados em operações com participação do MPT-MT, o órgão recebeu 50 denúncias relacionadas ao trabalho análogo à escravidão, firmou nove Termos de Ajuste de Conduta (TACs) e ajuizou seis Ações Civis Públicas.
Para dimensionar o tamanho do número, em todo o Brasil 1.986 trabalhadores foram resgatados em 196 forças-tarefa que tiveram participação do MPT no ano passado. Os 627 registrados em Mato Grosso correspondem a aproximadamente 31,6% desse total.
As operações no estado ocorreram em Nova Maringá, Nova Bandeirantes e Porto Alegre do Norte.
O maior caso foi registrado em Porto Alegre do Norte, no norte de Mato Grosso.
Entre julho e agosto de 2025, uma força-tarefa resgatou 563 trabalhadores durante a construção de uma usina de etanol. A operação reuniu auditores-fiscais do Trabalho, Ministério Público do Trabalho e Polícia Federal.
Segundo o MPT, foram identificados alojamentos superlotados, falta de condições adequadas de higiene, problemas no fornecimento de água e energia elétrica, alimentação inadequada, jornadas exaustivas e irregularidades trabalhistas.
Grande parte dos trabalhadores havia deixado outros estados em busca de emprego em Mato Grosso.
A fiscalização encontrou pessoas dormindo em colchões usados e sem roupas de cama adequadas e, em alguns casos, no chão. Também foram constatados problemas relacionados à alimentação e às condições dos alojamentos.
O episódio teve desdobramentos milionários neste ano.
Em março de 2026, o Ministério Público do Trabalho firmou dois TACs com a Três Tentos Agroindustrial S/A, Construtao Engenharia Ltda. e TAO Construtora Ltda., estabelecendo R$ 10,7 milhões em reparações relacionadas ao caso.
Do total, R$ 8,7 milhões foram destinados ao pagamento de danos morais individuais a mais de 400 trabalhadores. Outros R$ 2 milhões foram fixados a título de dano moral coletivo.
Os casos, entretanto, não ficaram em 2025.
Entre os dias 16 e 19 de março deste ano, uma nova força-tarefa resgatou 12 trabalhadores em uma fazenda de Alto Taquari, a cerca de 480 quilômetros de Cuiabá.
A maioria era do Maranhão e, segundo o MPT, havia sido atraída por falsas promessas de emprego. Eles trabalhavam no corte e beneficiamento de eucalipto e em atividades de carvoaria.
A fiscalização encontrou trabalhadores sem registro em carteira, jornadas exaustivas, falta de pagamento adequado e ausência de equipamentos de proteção individual.
As condições de moradia também foram consideradas degradantes. Os alojamentos apresentavam problemas de higiene, conforto e segurança, não havia água filtrada para consumo, as instalações sanitárias eram inadequadas e faltavam armários e sistemas de ventilação.
O empregador firmou TAC assumindo 22 obrigações destinadas a evitar a repetição das irregularidades. Após o resgate, os trabalhadores foram retirados da propriedade às custas do empregador e levados para hospedagem adequada.
Do campo, os resgates chegaram também ao ambiente doméstico.
Em maio, uma trabalhadora doméstica foi resgatada em Rondonópolis após permanecer 11 meses sem receber salários.
De acordo com a fiscalização, ela havia sido levada do interior de Mato Grosso para trabalhar e passou a ter descontados do próprio pagamento os custos da quitinete e dos móveis adquiridos para acomodá-la.
Somente essas despesas representavam desconto mensal de R$ 1,1 mil. A fiscalização classificou o caso como uma situação de servidão por dívida.
Um mês depois, Rondonópolis voltou a registrar outro resgate.
Em junho, cinco trabalhadores foram retirados de condições análogas à escravidão em uma empresa de reciclagem. A operação contou com o MPT e auditores-fiscais do Trabalho.
A sequência de casos mostra que o trabalho escravo contemporâneo não está limitado a fazendas distantes ou a uma única atividade econômica. Os episódios recentes em Mato Grosso passaram pela construção de um empreendimento industrial, atividade rural, trabalho doméstico e reciclagem.
A legislação brasileira também não exige que uma pessoa esteja acorrentada ou fisicamente impedida de deixar determinado local para que exista trabalho análogo à escravidão.
O artigo 149 do Código Penal prevê a caracterização do crime em situações que envolvam trabalho forçado, jornada exaustiva, condições degradantes de trabalho ou restrição da locomoção do trabalhador em razão de dívida contraída com empregador ou representante.
Enquanto os resgates continuam, o Governo de Mato Grosso apresenta números de avanço em sua política de enfrentamento.
Em junho, a Comissão Estadual de Enfrentamento ao Trabalho Escravo (Coetrae), vinculada à Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), informou que cerca de 70% das metas previstas no 3º Plano Estadual para Erradicação do Trabalho Escravo já haviam sido realizadas ou estavam em andamento.
Criado em 2024 e com execução prevista até 2030, o plano reúne 151 metas divididas entre atenção e assistência às vítimas, prevenção, repressão, gestão e conhecimento e governança.
Entre as medidas divulgadas estão capacitações de aproximadamente 150 policiais civis, formação de professores da rede estadual e qualificação de 370 profissionais das áreas de saúde e assistência social dos municípios.
O percentual de 70%, porém, reúne duas situações diferentes: metas já realizadas e metas que ainda estão em andamento.
É justamente o contraste entre o avanço administrativo anunciado pelo Estado e os números encontrados nas fiscalizações que levanta questionamentos sobre os resultados concretos das políticas de prevenção.
Se 627 trabalhadores precisaram ser resgatados em Mato Grosso em apenas um ano e novos casos continuam sendo encontrados em 2026, quantas das 151 metas foram efetivamente concluídas? Quantas permanecem em andamento? Quanto já foi investido na execução do plano? E quais medidas específicas estão sendo adotadas para impedir que trabalhadores cheguem à situação de exploração antes que uma operação de fiscalização seja necessária?
Também cabe saber quais providências foram adotadas pelo Estado após um único episódio resultar no resgate de 563 trabalhadores em Porto Alegre do Norte e quais indicadores são utilizados para medir a redução efetiva do problema.
A reportagem deixa espaço aberto para que o Governo de Mato Grosso apresente esses dados, detalhe as medidas já executadas e informe quais novas ações estão previstas para prevenção e enfrentamento ao trabalho análogo à escravidão.
Os números oficiais deixam uma constatação que atravessa décadas de avanços na legislação e nas políticas de proteção ao trabalhador: o trabalho escravo contemporâneo não desapareceu de Mato Grosso.
Em 2025, foram 627 pessoas resgatadas.
Em 2026, novos trabalhadores já precisaram ser retirados dessas condições.
Mais de um século depois da abolição formal da escravidão no Brasil, o desafio em Mato Grosso continua sendo fazer com que esse tipo de resgate deixe de fazer parte do noticiário.
Somente em 2025, 627 pessoas foram retiradas dessas condições no estado, segundo balanço do Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso (MPT-MT). O número chama atenção não apenas pelo tamanho, mas porque os resgates continuaram neste ano, alcançando propriedades rurais, trabalho doméstico e uma empresa de reciclagem.
Os dados colocam em evidência uma realidade que permanece distante de ser apenas um capítulo da história brasileira.
Em 2025, além dos 627 trabalhadores resgatados em operações com participação do MPT-MT, o órgão recebeu 50 denúncias relacionadas ao trabalho análogo à escravidão, firmou nove Termos de Ajuste de Conduta (TACs) e ajuizou seis Ações Civis Públicas.
Para dimensionar o tamanho do número, em todo o Brasil 1.986 trabalhadores foram resgatados em 196 forças-tarefa que tiveram participação do MPT no ano passado. Os 627 registrados em Mato Grosso correspondem a aproximadamente 31,6% desse total.
As operações no estado ocorreram em Nova Maringá, Nova Bandeirantes e Porto Alegre do Norte.
O maior caso foi registrado em Porto Alegre do Norte, no norte de Mato Grosso.
Entre julho e agosto de 2025, uma força-tarefa resgatou 563 trabalhadores durante a construção de uma usina de etanol. A operação reuniu auditores-fiscais do Trabalho, Ministério Público do Trabalho e Polícia Federal.
Segundo o MPT, foram identificados alojamentos superlotados, falta de condições adequadas de higiene, problemas no fornecimento de água e energia elétrica, alimentação inadequada, jornadas exaustivas e irregularidades trabalhistas.
Grande parte dos trabalhadores havia deixado outros estados em busca de emprego em Mato Grosso.
A fiscalização encontrou pessoas dormindo em colchões usados e sem roupas de cama adequadas e, em alguns casos, no chão. Também foram constatados problemas relacionados à alimentação e às condições dos alojamentos.
O episódio teve desdobramentos milionários neste ano.
Em março de 2026, o Ministério Público do Trabalho firmou dois TACs com a Três Tentos Agroindustrial S/A, Construtao Engenharia Ltda. e TAO Construtora Ltda., estabelecendo R$ 10,7 milhões em reparações relacionadas ao caso.
Do total, R$ 8,7 milhões foram destinados ao pagamento de danos morais individuais a mais de 400 trabalhadores. Outros R$ 2 milhões foram fixados a título de dano moral coletivo.
Os casos, entretanto, não ficaram em 2025.
Entre os dias 16 e 19 de março deste ano, uma nova força-tarefa resgatou 12 trabalhadores em uma fazenda de Alto Taquari, a cerca de 480 quilômetros de Cuiabá.
A maioria era do Maranhão e, segundo o MPT, havia sido atraída por falsas promessas de emprego. Eles trabalhavam no corte e beneficiamento de eucalipto e em atividades de carvoaria.
A fiscalização encontrou trabalhadores sem registro em carteira, jornadas exaustivas, falta de pagamento adequado e ausência de equipamentos de proteção individual.
As condições de moradia também foram consideradas degradantes. Os alojamentos apresentavam problemas de higiene, conforto e segurança, não havia água filtrada para consumo, as instalações sanitárias eram inadequadas e faltavam armários e sistemas de ventilação.
O empregador firmou TAC assumindo 22 obrigações destinadas a evitar a repetição das irregularidades. Após o resgate, os trabalhadores foram retirados da propriedade às custas do empregador e levados para hospedagem adequada.
Do campo, os resgates chegaram também ao ambiente doméstico.
Em maio, uma trabalhadora doméstica foi resgatada em Rondonópolis após permanecer 11 meses sem receber salários.
De acordo com a fiscalização, ela havia sido levada do interior de Mato Grosso para trabalhar e passou a ter descontados do próprio pagamento os custos da quitinete e dos móveis adquiridos para acomodá-la.
Somente essas despesas representavam desconto mensal de R$ 1,1 mil. A fiscalização classificou o caso como uma situação de servidão por dívida.
Um mês depois, Rondonópolis voltou a registrar outro resgate.
Em junho, cinco trabalhadores foram retirados de condições análogas à escravidão em uma empresa de reciclagem. A operação contou com o MPT e auditores-fiscais do Trabalho.
A sequência de casos mostra que o trabalho escravo contemporâneo não está limitado a fazendas distantes ou a uma única atividade econômica. Os episódios recentes em Mato Grosso passaram pela construção de um empreendimento industrial, atividade rural, trabalho doméstico e reciclagem.
A legislação brasileira também não exige que uma pessoa esteja acorrentada ou fisicamente impedida de deixar determinado local para que exista trabalho análogo à escravidão.
O artigo 149 do Código Penal prevê a caracterização do crime em situações que envolvam trabalho forçado, jornada exaustiva, condições degradantes de trabalho ou restrição da locomoção do trabalhador em razão de dívida contraída com empregador ou representante.
Enquanto os resgates continuam, o Governo de Mato Grosso apresenta números de avanço em sua política de enfrentamento.
Em junho, a Comissão Estadual de Enfrentamento ao Trabalho Escravo (Coetrae), vinculada à Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), informou que cerca de 70% das metas previstas no 3º Plano Estadual para Erradicação do Trabalho Escravo já haviam sido realizadas ou estavam em andamento.
Criado em 2024 e com execução prevista até 2030, o plano reúne 151 metas divididas entre atenção e assistência às vítimas, prevenção, repressão, gestão e conhecimento e governança.
Entre as medidas divulgadas estão capacitações de aproximadamente 150 policiais civis, formação de professores da rede estadual e qualificação de 370 profissionais das áreas de saúde e assistência social dos municípios.
O percentual de 70%, porém, reúne duas situações diferentes: metas já realizadas e metas que ainda estão em andamento.
É justamente o contraste entre o avanço administrativo anunciado pelo Estado e os números encontrados nas fiscalizações que levanta questionamentos sobre os resultados concretos das políticas de prevenção.
Se 627 trabalhadores precisaram ser resgatados em Mato Grosso em apenas um ano e novos casos continuam sendo encontrados em 2026, quantas das 151 metas foram efetivamente concluídas? Quantas permanecem em andamento? Quanto já foi investido na execução do plano? E quais medidas específicas estão sendo adotadas para impedir que trabalhadores cheguem à situação de exploração antes que uma operação de fiscalização seja necessária?
Também cabe saber quais providências foram adotadas pelo Estado após um único episódio resultar no resgate de 563 trabalhadores em Porto Alegre do Norte e quais indicadores são utilizados para medir a redução efetiva do problema.
A reportagem deixa espaço aberto para que o Governo de Mato Grosso apresente esses dados, detalhe as medidas já executadas e informe quais novas ações estão previstas para prevenção e enfrentamento ao trabalho análogo à escravidão.
Os números oficiais deixam uma constatação que atravessa décadas de avanços na legislação e nas políticas de proteção ao trabalhador: o trabalho escravo contemporâneo não desapareceu de Mato Grosso.
Em 2025, foram 627 pessoas resgatadas.
Em 2026, novos trabalhadores já precisaram ser retirados dessas condições.
Mais de um século depois da abolição formal da escravidão no Brasil, o desafio em Mato Grosso continua sendo fazer com que esse tipo de resgate deixe de fazer parte do noticiário.
Publicado originalmente em deixaqueeuteconto.com.br



