De possível deportação à pressão política: eleições nos EUA podem afetar a permanência de Flávio Bolsonaro no país
Eventual retomada da maioria parlamentar pela oposição não permitiria deportar diretamente o senador, mas poderia abrir investigações sobre a concessão de vistos e a atuação de autoridades americanas

A disputa pelas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, conhecidas como midterms, pode ter reflexos políticos na permanência de Flávio Bolsonaro (PL) em território americano. As projeções para 2026 indicam a possibilidade de o Partido Democrata, oposição ao presidente Donald Trump, recuperar o controle do Congresso, cenário que poderia ampliar as cobranças sobre o governo em relação à situação do senador brasileiro.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada recentemente apontou que a desaprovação ao governo Trump chegou a 66%. Diante da possibilidade de avanço dos democratas, brasileiros passaram a mobilizar a hashtag #DeportTheBolsonaros na rede social X, que esteve entre os assuntos mais compartilhados na última semana.
Apesar da movimentação nas redes sociais, uma eventual mudança na composição do Congresso americano não significa que Flávio será automaticamente deportado. Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que a decisão sobre a permanência de estrangeiros no país não é atribuição direta dos parlamentares.
Congresso não tem poder direto para deportar senador
As decisões relacionadas à entrada, à permanência e à situação migratória de estrangeiros envolvem órgãos do Poder Executivo americano, como o Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio, e o Departamento de Segurança Interna (DHS), ambos subordinados ao governo Trump.
“Não se pode pensar que o Congresso tem o poder de deportar alguém. Isso não está na sua incumbência, não está na sua jurisdição”, explicou Roberto Uebel, coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM) e professor de Relações Internacionais da ESPM, em entrevista ao g1.
O Legislativo, entretanto, poderia abrir investigações para verificar se autoridades americanas tiveram participação ou ofereceram algum tipo de apoio à saída de Flávio Bolsonaro do Brasil. Também poderia analisar se houve tratamento diferenciado na concessão de vistos ao senador e aos familiares que o acompanharam.
Essas apurações poderiam aumentar a pressão política sobre a administração Trump e levar integrantes do governo a prestar esclarecimentos. Ainda assim, uma eventual investigação parlamentar não representaria, por si só, uma determinação de deportação.
Parlamentares poderiam convocar Marco Rubio
O professor Vitelio Brustolin, do departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF), avalia que uma comissão parlamentar poderia investigar se Flávio recebeu tratamento excepcional para obter os vistos, entrar nos Estados Unidos ou manter sua situação migratória.
Segundo ele, a Câmara dos Representantes pode iniciar uma investigação sem que os democratas precisem conquistar simultaneamente a maioria no Senado.
“Para abrir uma investigação parlamentar basta a Câmara dos Deputados. Então não seria necessário conquistar simultaneamente maioria no Senado”, explicou.
Roberto Uebel também considera possível que o secretário de Estado, Marco Rubio, seja convocado para prestar esclarecimentos sobre a atuação do governo americano em relação à viagem do senador brasileiro.
Desde a chegada de Flávio aos Estados Unidos, o democrata e comentarista político Isaiah Martin tem defendido nas redes sociais que uma eventual mudança no controle do Congresso poderia resultar na deportação do parlamentar. Essa possibilidade, porém, não corresponde a um poder direto do Legislativo sobre decisões migratórias.
Situação de Flávio não deve ser prioridade dos democratas
Mesmo com a possibilidade de investigações, a avaliação apresentada pelos especialistas é de que a situação do senador brasileiro dificilmente ocuparia posição central na agenda dos democratas caso o partido conquiste a maioria no Congresso.
A tendência seria concentrar os esforços em limitar as ações do governo Trump, principalmente nas áreas econômica e administrativa. Entre os temas que devem receber atenção estão o custo de vida da população e as articulações políticas para a eleição presidencial de 2028.
Assim, uma eventual vitória democrata poderia ampliar o escrutínio sobre a atuação do governo americano no caso, mas não significaria uma ordem automática para retirar Flávio Bolsonaro do país.
O que são as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos?
As eleições midterms acontecem no meio do mandato presidencial e renovam parte importante da estrutura política americana. Em 2026, a disputa envolve as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado, além dos governos de 36 dos 50 estados e de outros cargos estaduais e municipais.
Os integrantes da Câmara são eleitos para mandatos de dois anos, enquanto os senadores permanecem no cargo por seis anos. Por isso, a votação pode alterar a correlação de forças no Congresso e dificultar ou facilitar a aprovação das propostas do presidente.
Atualmente, o Partido Republicano, de Trump, possui maioria nas duas Casas, embora com margem estreita. Na Câmara dos Representantes, são 218 deputados republicanos contra 214 democratas. No Senado, os republicanos ocupam 53 das 100 cadeiras.
Uma mudança nesse equilíbrio poderia ampliar o poder de fiscalização da oposição sobre o Executivo, inclusive por meio de comissões parlamentares e convocações de integrantes do governo.
Publicado originalmente em infoverus.com.br



