Lula 4 volta ao embate com o mercado e aposta nas redes para driblar a mídia
Após a reeleição, presidente pretende montar equipe econômica que concilie estabilidade fiscal com espaço para políticas públicas. Congresso conservador e pressão do setor financeiro devem marcar o próximo mandato

A pressão do mercado financeiro por medidas de austeridade deve marcar o início do novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No dia seguinte à eleição de 2026, o cenário já apresenta semelhanças com o que ocorreu após a disputa de 2022, quando setores do sistema financeiro e da mídia passaram a defender uma política de maior controle dos gastos públicos.
Antes de assumir a presidência do Banco Central, Gabriel Galípolo chegou a comentar com um interlocutor que os derrotados nas urnas em 2022 tentavam impor sua agenda econômica ao governo eleito. Agora, a discussão volta ao centro do debate. Enquanto representantes do mercado defendem o ajuste fiscal como caminho para conter o crescimento da dívida pública, integrantes do governo afirmam que Lula não pretende abrir mão de investimentos e programas sociais.
“O presidente Lula não vai aceitar ser emparedado pelo ‘mercado’, nem ser tolhido por regras fiscais rígidas”, afirma um economista que ocupa cargo de alto escalão no governo. Segundo ele, a intenção é formar uma equipe ministerial capaz de combinar responsabilidade fiscal com condições para ampliar as políticas públicas e impulsionar o desenvolvimento do país.
“Vai montar um Ministério com atores capazes de construir uma estratégia de política econômica que mantenha a estabilidade fiscal mas dê ao governo espaço para políticas públicas que permitam ao País dar um salto de desenvolvimento”, acrescenta.
A ampliação dos investimentos públicos é uma das prioridades de Lula. O mercado financeiro, por outro lado, sustenta que o aumento dessas despesas não seria viável diante do tamanho da dívida e defende cortes no orçamento para direcionar recursos ao pagamento dos débitos, inclusive em áreas sociais.
A dívida pública passou de 71% do Produto Interno Bruto (PIB), quando Lula iniciou o atual governo, para 82% das riquezas produzidas pelo país. Parte desse endividamento é influenciada pelos juros definidos pelo Banco Central, já que uma parcela dos títulos está vinculada à taxa Selic. Atualmente em 13,75%, o índice está no mesmo patamar deixado pelo governo Jair Bolsonaro. Durante a gestão Lula, a taxa permaneceu acima desse nível por cerca de um ano e meio, entre março de 2025 e agosto passado.
A defesa de um ajuste fiscal mais rigoroso é associada, no debate apresentado por integrantes do governo, a uma visão econômica que não considera a redução dos juros como alternativa central para enfrentar o endividamento. A estratégia também é comparada à adotada pelo presidente argentino Javier Milei.
A mesma orientação era defendida por Flávio Bolsonaro durante a campanha eleitoral, embora o tema não tenha recebido destaque público. Milei participou do lançamento de sua candidatura, e a coordenadora do programa econômico, Daniella Marques, chegou a classificar a Argentina como um “ótimo exemplo”.
Diante desse cenário, integrantes da campanha avaliam que não há razão para entregar a condução da economia aos interesses do mercado financeiro. Um membro do comitê responsável pela reeleição criticou a tentativa de setores que não participaram da construção do programa de governo de impor suas prioridades à gestão.
“Ninguém apoiou o Lula, ninguém ajudou a gente a elaborar o programa de governo, ninguém defendeu nossas teses, ninguém arrumou um voto, mas quer enquadrar o governo. Normal, é da vida, estamos acostumados. A gente só não pode cometer o erro da Dilma 2. Temos de governar com o programa que ganhou”, declarou.
A referência é ao segundo mandato de Dilma Rousseff. Em 2014, ela venceu o tucano Aécio Neves por uma margem apertada, com 51,6% dos votos contra 48,3%. Durante a campanha, adotou um discurso de confronto com bancos e setores mais ricos da sociedade. Depois da vitória, porém, escolheu para o Ministério da Fazenda o economista Joaquim Levy, defensor de medidas de austeridade fiscal.
Ao longo de 2015, Dilma perdeu popularidade e, no ano seguinte, tornou-se alvo do processo de impeachment.
Para evitar o desgaste político e manter sua base mobilizada, Lula pretende investir em uma estratégia de comunicação direta com a população por meio das redes sociais. Embora tenha resistido inicialmente ao uso frequente dessas plataformas, o presidente passou a utilizá-las com mais intensidade no segundo turno e identificou nelas uma forma de se comunicar sem intermediários.
A intenção é manter essa presença diariamente durante o próximo mandato. No discurso da vitória, Lula sinalizou que não pretende depender exclusivamente da cobertura da imprensa para falar com a população.
“Não vou aceitar ser sequestrado por jornalista com má-fé”, afirmou.
A comunicação direta também deve ser importante diante dos desafios políticos que o presidente terá pela frente. O próximo Congresso será o mais conservador desde o fim da ditadura, o que pode dificultar a aprovação de propostas do governo e exigir mobilização constante da base aliada e dos movimentos de esquerda.
Na avaliação de um integrante do comitê da reeleição, a esquerda precisa acompanhar permanentemente o cenário político e reagir às movimentações da oposição.
“A esquerda tem de entender que precisa estar em estado permanente de atenção e de mobilização. A extrema-direita faz isso faz tempo, politiza tudo”, afirmou.
Publicado originalmente em infoverus.com.br



