Derrota de Trump no Congresso enfraquece estratégia da família Bolsonaro de usar os EUA como refúgio político
Vitória democrata nas duas Casas amplia a pressão sobre o governo norte-americano e coloca em xeque a estratégia da família Bolsonaro de buscar apoio político em Washington após derrotas eleitorais no Brasil

A conquista da maioria na Câmara dos Representantes e no Senado dos Estados Unidos pelos democratas, nas eleições de meio de mandato realizadas nesta terça-feira (3), representa um duro revés político para o presidente Donald Trump e ameaça a estratégia internacional da família Bolsonaro. Com a perda do controle das duas Casas do Congresso, os republicanos deixam de ter a mesma sustentação parlamentar para aprovar medidas e manter a agenda do governo nos dois últimos anos de mandato.
O resultado também tem repercussões para o Brasil, especialmente para Flávio e Eduardo Bolsonaro, que apostaram na proximidade com Trump como forma de ampliar a influência política da família e pressionar instituições brasileiras. A mudança no equilíbrio de forças em Washington reduz a margem de atuação do presidente norte-americano e abre espaço para uma fiscalização mais rigorosa de suas decisões.
A dimensão da derrota republicana ficou evidente em estados tradicionalmente alinhados ao partido. No Texas, onde Trump venceu com ampla vantagem em 2024, o democrata James Talarico derrotou Ken Paxton e conquistou uma cadeira no Senado. Na mesma disputa eleitoral, Gina Hinojosa venceu o governador republicano Greg Abbott, devolvendo aos democratas o comando do estado após 36 anos. O resultado foi considerado um dos reveses mais simbólicos para o trumpismo.
Na Carolina do Sul, outro reduto republicano, Annie Andrews derrotou Darline Graham na disputa pelo Senado. Em 2024, Trump havia vencido o estado por quase 18 pontos percentuais. Já em Ohio, Sherrod Brown superou Jon Husted e recuperou uma cadeira anteriormente ocupada pelo atual vice-presidente JD Vance. Os democratas também conquistaram o governo estadual com Amy Acton, que derrotou Vivek Ramaswamy, candidato apoiado por Trump.
A onda democrata alcançou outros estados. No Kansas, Adam Hamilton conquistou uma cadeira no Senado para o partido pela primeira vez desde 1932. Na Carolina do Norte, Roy Cooper venceu a disputa pelo Senado, enquanto o Maine também contribuiu para a mudança de controle da Casa. Na Geórgia, os democratas mantiveram a cadeira de Jon Ossoff, e, em Iowa, Rob Sand conquistou o governo estadual.
No Novo México, Deb Haaland foi eleita governadora e se tornou a primeira mulher indígena a ocupar o cargo em um estado norte-americano.
Na Câmara dos Representantes, os democratas também asseguraram a maioria. A mudança abre caminho para Hakeem Jeffries assumir a presidência da Casa, tornando-se o primeiro homem negro a ocupar o posto. No Senado, o partido igualmente recuperou o controle após conquistar cadeiras que estavam com os republicanos. Com isso, Trump perdeu a maioria nas duas principais instituições do Congresso.
O resultado foi acompanhado por sinais de desgaste da popularidade presidencial. A inflação, o custo de vida e a condução da guerra contra o Irã apareceram entre os principais fatores que influenciaram o voto. Pesquisas de boca de urna indicaram que quase nove em cada dez eleitores consideraram o custo de vida um elemento importante ou decisivo na escolha dos candidatos. Quase dois terços responsabilizaram Trump pelos preços elevados, enquanto três quartos disseram estar insatisfeitos ou irritados com os rumos do país.
A coalizão que garantiu o retorno do republicano à Casa Branca em 2024 também apresentou sinais de enfraquecimento. O partido perdeu apoio entre jovens, eleitores latinos e homens negros. A tentativa de transformar a disputa em uma campanha contra os supostos riscos de um governo democrata não surtiu o efeito esperado. As preocupações com os preços dos alimentos, da gasolina e com a situação econômica tiveram maior peso para os eleitores.
Trump participou pessoalmente da campanha de candidatos como Ken Paxton, Darline Graham e Jon Husted. Ele pediu que os eleitores votassem como se seu próprio nome estivesse nas cédulas. Após a confirmação das derrotas, porém, tentou se distanciar do resultado e escreveu nas redes sociais que, caso tivesse concorrido, teria vencido por uma margem esmagadora.
A declaração não altera o significado político da votação, que resultou na derrota de candidatos associados ao governo e na formação de um Congresso mais disposto a confrontar o presidente.
A perda de força de Trump ocorre em um momento delicado para Flávio Bolsonaro, que deixou o Brasil após perder a eleição presidencial de 25 de outubro para Luiz Inácio Lula da Silva. Ao buscar abrigo político nos Estados Unidos depois da derrota, o senador reproduziu o comportamento do pai, Jair Bolsonaro, que viajou para o território norte-americano no fim de dezembro de 2022, após ser derrotado por Lula na disputa presidencial.
A repetição do episódio evidencia uma estratégia da família de se aproximar de seu principal aliado internacional em momentos de fragilidade política. A diferença é que, desta vez, Flávio chega aos Estados Unidos enquanto Trump enfrenta uma derrota eleitoral expressiva, perdeu a maioria parlamentar e terá de lidar com uma oposição fortalecida.
Jair Bolsonaro foi para a Flórida às vésperas da posse de Lula, permanecendo nos Estados Unidos durante os primeiros meses do novo governo brasileiro. A viagem antecedeu os ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023. Quatro anos depois, Flávio também deixa o país após perder uma eleição para o petista, em um cenário de desgaste da extrema direita nos dois países.
A família Bolsonaro contava com a permanência de Trump na Casa Branca e com o apoio de um Congresso republicano para manter uma base de articulação política nos Estados Unidos. A perda simultânea da Câmara e do Senado compromete essa expectativa e aumenta a exposição dos aliados brasileiros do presidente norte-americano.
A presença de Flávio nos Estados Unidos, por si só, não significa que exista um processo de extradição ou uma ameaça imediata à sua permanência no país. A decisão de deixar o Brasil, contudo, ganha outro significado diante do enfraquecimento do governo que poderia oferecer respaldo político à família.
Trump continua na Presidência, mas terá de administrar uma relação mais conflituosa com o Congresso. A possibilidade de utilizar a estrutura do Estado norte-americano para pressionar o Brasil passa a enfrentar obstáculos institucionais mais relevantes.
O resultado também atinge Eduardo Bolsonaro, que transformou sua atuação nos Estados Unidos em uma tentativa de obter apoio do governo republicano contra autoridades brasileiras. A estratégia da família era usar a proximidade com Trump para pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF), questionar decisões da Justiça brasileira e criar obstáculos à responsabilização de envolvidos na tentativa de golpe de Estado.
Eduardo buscou mobilizar a influência da Casa Branca contra o governo Lula e as instituições brasileiras. Essa atuação, entretanto, dependia não apenas da disposição política do presidente norte-americano, mas também de sua capacidade de sustentar decisões diante do Congresso.
Com a vitória democrata, a oposição passa a controlar comissões parlamentares, estabelecer prioridades de fiscalização e convocar integrantes do governo para prestar esclarecimentos. As iniciativas de autoridades norte-americanas em favor de aliados estrangeiros de Trump poderão enfrentar questionamentos mais intensos.
Um dos episódios que exemplificam essa relação envolve Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), condenado pelo STF a 16 anos de prisão por participação na trama golpista. Ele fugiu para os Estados Unidos em setembro de 2025, e o Brasil formalizou o pedido de extradição em 30 de dezembro daquele ano.
Em abril de 2026, Ramagem foi detido pelo serviço de imigração norte-americano, mas acabou liberado dois dias depois, enquanto aguardava a análise de seu pedido de asilo.
Uma investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), publicada em outubro, revelou outros desdobramentos do caso. Um agente da Polícia Federal brasileira que colaborava com o serviço de imigração dos Estados Unidos para localizar Ramagem foi obrigado pelo Departamento de Estado a deixar o país poucos dias depois da liberação do ex-deputado.
A decisão foi apresentada pelo governo norte-americano como uma reação à atuação do policial brasileiro. Eduardo Bolsonaro comemorou a liberação de Ramagem e agradeceu publicamente a Trump e a integrantes de sua administração.
O episódio evidenciou a disposição do governo republicano de tratar o caso de um aliado do bolsonarismo de maneira politicamente favorável, mesmo diante de um pedido formal de extradição apresentado pelo Brasil. Segundo a investigação do ICIJ, o governo norte-americano ainda não havia respondido à solicitação brasileira.
Com os democratas no comando das duas Casas do Congresso, a oposição passa a dispor de instrumentos mais fortes para fiscalizar a administração, convocar autoridades, abrir investigações e questionar decisões do Departamento de Estado e dos órgãos de imigração. A relação com o Brasil e o tratamento concedido a aliados estrangeiros de Trump poderão entrar no radar dos parlamentares.
A mudança, entretanto, não transfere ao Congresso a competência para decidir diretamente sobre extradições ou pedidos de asilo, que envolvem autoridades do Judiciário e do Executivo norte-americano. Trump continua na Presidência e mantém autoridade sobre a política externa e a estrutura federal de imigração.
A diferença está na redução de sua sustentação institucional. Eventuais medidas destinadas a manter privilégios políticos para aliados estrangeiros poderão enfrentar maior fiscalização e custos políticos crescentes.
A derrota republicana também enfraquece a capacidade de Trump de utilizar o peso econômico e diplomático dos Estados Unidos para pressionar o Brasil. A política de sanções e tarifas adotada contra o governo Lula, assim como as iniciativas de Eduardo Bolsonaro para estimular medidas contra autoridades brasileiras, passam a enfrentar um ambiente político menos favorável em Washington.
As situações de Flávio, Eduardo e Ramagem demonstram os riscos de uma estratégia internacional dependente da força de Trump e da disposição de seu governo para oferecer respaldo a aliados brasileiros. Com a alteração do equilíbrio político nos Estados Unidos, essa proteção pode se tornar mais difícil de sustentar.
A família Bolsonaro construiu sua articulação internacional sobre a expectativa de que o republicano permaneceria politicamente forte e poderia oferecer apoio diante das derrotas e dos problemas enfrentados no Brasil. As eleições de 3 de novembro, no entanto, mostraram os limites dessa aposta. Além de perder as duas Casas do Congresso, Trump viu candidatos apoiados pessoalmente por ele serem derrotados em estados considerados seguros para os republicanos.
Para Flávio, o cenário é especialmente desfavorável. Depois de perder para Lula nas urnas brasileiras e seguir para os Estados Unidos, ele encontra um aliado internacional enfraquecido poucos dias após sua própria derrota presidencial. A sequência de resultados representa um revés para a articulação entre a extrema direita brasileira e o trumpismo.
Eduardo também terá de lidar com uma nova realidade institucional. Sua capacidade de mobilizar integrantes do governo norte-americano contra autoridades brasileiras poderá ser limitada pela fiscalização parlamentar e pelo desgaste político de Trump. No caso de Ramagem, o andamento do pedido de extradição continuará dependendo das autoridades competentes, mas eventuais decisões favoráveis ao ex-deputado poderão ser alvo de questionamentos mais intensos.
Os Bolsonaros não perderam automaticamente seus canais de influência nos Estados Unidos, assim como a vitória democrata não significa que o governo norte-americano deixará de manter relações políticas com aliados estrangeiros de Trump. O que mudou foi a correlação de forças, que impõe mais dificuldades ao presidente para sustentar políticas de proteção a aliados internacionais e de confronto com governos que não se alinham aos seus interesses.
Trump já não dispõe da mesma força política de quando retornou à Casa Branca. Depois de Jair Bolsonaro perder para Lula em 2022 e Flávio repetir a derrota em 2026, o enfraquecimento do presidente norte-americano representa mais um revés para a extrema direita brasileira.
A família Bolsonaro apostou na força de Trump para manter os Estados Unidos como uma base de apoio político diante das derrotas e dos problemas enfrentados no Brasil. A perda do controle do Congresso compromete essa estratégia e reduz a capacidade de Washington de funcionar como retaguarda política para o bolsonarismo.
Publicado originalmente em infoverus.com.br



